As escadas rolantes da estação de Metro da Baixa-Chiado vão de mal em pior. Primeiro parou o lance de cima e puseram lá um cartaz com um pedido de desculpas que está lá há semanas. Como é o primeiro lance para quem desce, a coisa não é dramática. O pior é que ontem e hoje havia vários lances completamente parados e as pessoas eram obrigadas a subir a pé quase todas as escadarias íngremes que as levam para a superfície. Eu sou daquelas que sobem e descem sempre as escadas pelo seu próprio pé, mesmo que sejam rolantes (ou seja, não fico parada a deixar-me transportar mecânicamente) e por isso nem sequer me fazem grande falta, mas tenho assistido a cenas dificeis com pessoas mais velhas ou com dificuldades de locomoção. E mais, pelo Chiado passa muita gente com malas pesadas às costas e também custa vê-los carregados e ofegantes por ali acima. Será que o arranjo destas engrenagens ainda demora muito?

(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil
Esta é a esquina da Rua Marechal Saldanha com o Loreto,
no cimo da Calçada do Combro. Nesta esquina todos os
dias há cenas inenarráveis por causa dos pilaretes da CML
a barrar a entrada no Bairro de Sta Catarina. Geridos pela
EMEL e por uns senhores que nunca se deixam ver nem se
identificam mesmo quando lhes pedimos o nome, o sobe e
desce deste pilaretes é diariamente gerido por estes homens
e mulheres invisíveis que ora estão de bom humor, ora estão
atravessados por alguma razão e o caldo entorna. Eu e muitos
outros como eu já perdemos a cabeça mais do que uma vez a
tentar falar com um pilar absurdamente surdo aos argumentos.
De dentro deste pilar saem umas vozes que mal se ouvem cá
fora porque a rua é muito barulhenta e as buzinas dos carros
que esperam na fila podem ser insurdecedoras. Os senhores
da EMEL sabem mas estão-se nas tintas. Demoram eternidades
a 'atender' os que pretendem passar. Um inferno diário para quem
mora nestas ruas dos bairros abrangidos por este controlo policial
e quase sempre prepotente. Posso garantir que mais depressa um
dealer de droga entra no meu bairro do que um morador! É infame
mas é rigorosamente verdade. Há sempre uma suspeita a pesar
sobre os moradores que estes senhores vêm entrar e sair todos os
dias, várias vezes por dia. É incrível mas apesar de nos conhecerem
bem demais, levantam sempre obstáculos (neste caso os pilaretes)
e suspeitam da informação que lhes damos. Esta atitude enche de
nervos e frustração pois revela um exercício prepotente de um poder
que estes funcionários da EMEL julgam que têm mas não podem ter!
Já escrevi algumas vezes sobre o mau funcionamento dos
pilaretes, cujo sistema mecânico entra em falência técnica
com excessiva frequência mas o meu maior protesto e a
minha maior indignação tem a ver com a atitude tão pouco
profissional e com o abuso de poder dos senhores da EMEL!
Nota: Não deixa de ser uma ironia que o autocolante colocado
no pilar tenha um coração com a inscrição "Lisbon Lovers"...
O Rosamar naufragou ontem na Galiza, com uma tripulação de 13 pescadores: 8 portugueses e 5 indonésios. Três portugueses morreram e cinco foram resgatados mas há outros cinco que continuam desaparecidos. As operações de salvamento foram retomadas esta madrugada. Neste momento há famílias em luto e grande sofrimento. Há uns anos escrevi sobre o naufrágio de fragateiros no Tejo, que morreram com Lisboa à vista depois de uma noite de grandes tormentos. Em homenagem aos pescadores que perderam a vida na Galiza, deixo aqui essa crónica que foi adaptada ao cinema por José Nascimento. O filme chama-se Tarde Demais.

O dia ainda vinha longe mas o barco já ia pesado. Passava das seis e meia. a madrugada gelava os ossos e o vento arrepiava os gestos. Chovia sem parar. Quatro vultos deitavam as mãos às redes com o vigor de quem luta pela vida. Mais duas braçadas firmes, a compasso, e ficou rematada a faina. Os robalos debatiam-se no escuro antes de serem atirados para o fundo e os vultos iam ganhando cor. Os sorrisos, esses, ganhavam o contorno habitual. O dia ainda mal começara mas, para os quatro homens, estava terminado.
Exaustos, sentaram-se à uma. Preparavam-se para o aconchego do cigarro quando sentiram um torpor excessivo no motor. O bote parecia arrastar todo o peso do mundo. Um deles inspeccionou os cantos enquanto os outros tentavam prescrutar o fundo. De repente deram-se conta de que havia um rombo por onde a água entrava em cachão. Apressaram-se a dar vazão à água que subia mas a força dos braços nada podia contra o ímpeto do rio.
Havia uma bomba pequena que costumava servir, mas também ela se revelou escassa. A água transbordava e ameaçava afundar o barco. "Não demos vencimento àquilo, a água era demasiada." Lestos de movimentos e raciocínio, dividiram tarefas e enquanto uns recolhiam os coletes de salvação, os outros desembaraçavam-se da roupa mais pesada. O barco ia a pique e a não ser as suas vidas, nada mais havia ali para salvar.
Arruinada, a velha embarcação há muito não tinha rádio nem reservas de alerta ou protecção. Meio submersa, deixou rapidamente de dar luz e, antes das dez da manhã, já não havia vestígio da pobre lancha. No coração das ondas concêntricas desenhadas pelo afundamento, ficaram quatro homens tolhidos de frio a tentar desesperadamente manter à superfície o corpo e a esperança.
Durante mais de cinco horas agitaram os pés e as mãos na água gelada. tinham todos perto de 60 anos mas pareciam crianças aflitas. Chovia impiedosamente e o vento não dava tréguas. Fustigados pelas ondas, faziam os impossíveis para permanecerem juntos e encontrar uma saída. o barco encalhara numa coroa de areia e eles sabiam que a maré havia de baixar. Nessa altura, com sorte, a superfície do barco emergia e eles descansavam um pouco.
"Tivémos salvamento à vista por três vezes." E por três vezes os batelões se afastaram, indiferentes aos gestos de desespero e aflição. "Batíamos com os pés na água com muita força para ver se nos viam, mas nada." O dia estava embaciado. O céu, muito baixo, abafava os movimentos e as nuvens diluiam o horizonte na água do rio. Tudo assustadoramente conjugado para a desgraça dos quatro amigos.
"Estivemos mais de cinco horas ao frio, à chuva e ao vento, todos encharcados. Sabe Deus o que passámos. Foi aquela chuva a bater permanentemente, o frio gelado e tudo aquilo que deu conta da gente. Aquelas horas destroçaram-nos completamente. Foi o pior que podia ser." Das fraquezas fizeram forças e aguentaram-se até a maré acabar de vazar. passava das três da tarde quando o barco voltou a ficar à superfície e eles de pé com o corpo fora da água.
"Tínhamos de andar por cima das ostras." Caminhavam descalços de pés rasgados e começaram a tirar as roupas para conseguir nadar entre os mouchões. Era dura a provação e sabiam que fatalmente acabariam a travessia do rio com o corpo todo cortado. Olharam para o horizonte e perceberam que o caminho da salvação era pela lezíria do Lombo do Tejo. "O tempo já era pouco, era preciso rasparmo-nos depressa e aquela era a hora ideal porque a maré estava vazia."
Partiram. "O José foi à frente, estava apanhado pelo frio. muitas vezes fora impedido de pescar pelas próprias mãos, que se negavam à lida por estarem geladas. Sofria muito com o frio." Seguiu minutos antes dos outros, na miragem de alcançar mais um pedaço de terra firme e mostrar o caminho aos amigos. "O Zé estava muito fraco e caía. Tropeçava na lama mas eu cheguei-me a ele e levantava-o e dizia-lhe para vir comigo." Mas o corpo de José Fragateiro, derrotado pelo frio, recusava-se a andar mais. O lodo dava pela altura dos joelhos e tornava muito penosa a caminhada. Os amigos gritavam de desespero para não o deixarem morrer.
"Se ficássemos ali morríamos todos. Achei que era melhor nadar para terra para pedir ajuda." Foi o que fez, com o coração apertado por deixar o José sozinho. "Deus queira que chegue a horas, deus queira que chegue!" era o pensamento obsessivo de Manuel Aranha, um dos sobreviventes e o que relata o naufrágio. Perto das dez e meia, já noite cerrada, Manuel deu à costa. "Fui parar a Santa Iria, à fábrica do gás. Chamaram a ambulância e deram-se apoio no posto médico."
Manuel Aranha estava em colapso físico e emocional mas ainda arranjou forças para fazer um rascunho onde indicou a posição do barco e o lugar do mouchão onde ficaram os amigos. Depois não se lembra de mais nada. Nessa altura as mulheres dos pescadores há muito estavam em sobressalto, com o coração cheio de angústias. No Montijo, a terra dos pescadores desaparecidos, ninguém tinha sossego.
A noite caiu, opressiva e o seu peso afundou as famílias numa angústia cada vez maior. Quando chegou a notícia de que Manuel Aranha chegara a terra as mulheres rezaram, choraram e riram. Talvez os outros tivessem vindo com ele. Correram pela rua a saber mas afinal ainda estavam no rio. Em terra, Josélia e José Fragateiro, mulher e filho do pescador mais velho, faziam os impossíveis para resgatar os náufragos. Pediram um helicóptero mas responderam-lhe que não podia levantar àquela hora da noite.
José Fragateiro e Joaquim Silva, dois dos três pescadores que continuavam no rio, passaram mais uma noite ao relento, despidos sobre o lodo. António tinha-se amarrado ao barco com umas cordas e assim continuava. Na manhã seguinte, cumprida a burocracia e concedido o estatuto aos pescadores, o helicóptero levantou voo e em menos de meia hora os corpos foram encontrados. Amanhecera e Lisboa estava de novo à vista. Tão perto que até parecia ao alcance de um braço.
Josélia Fragateiro e Maria Domitília Silva foram chamadas a reconhecer os maridos. a eficácia póstuma das autoridades dilacerou ainda mais o coração das viúvas e filhos dos pescadores. No dia do entrerro não havia um palmo de terra por onde pisar. Manuel Aranha e António Fragateiro, primo de José, estavam entre a multidão e mais uma vez choravam como duas crianças.
"O Zé é que nos ajudou a aguentar aquelas horas todas no mar. Falava, contava coisas e prometia que ainda havíamos de fazer uma caldeirada todos juntos." Não teve essa sorte.
O helicóptero, disseram mais tarde as autoridades, não voa de noite porque não tem holofotes. Talvez até conseguisse voar mas para isso era preciso que o apelido dos náufragos não rimasse com Fragateiro, nome singelo dos homens simples e rijos que se aventuram em fragatas no rio Tejo.

(Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, 7 de Outubro)

Detesto gestos obscenos feitos com raiva, arrogância e desprezo no meio do trânsito. Detesto más maneiras e gente castigadora que usa e abusa de palavrões a propósito de tudo e de nada.
Numa semana marcada por situações de descontrolo ao volante, em que assisti a duas cenas caricatas protagonizadas por pessoas aparentemente de bem, gente que habitualmente não se excede nem grita, ocorre-me falar do conceito road rage que, afinal, é um fenómeno universal.
Está estudado que todos ficamos potencialmente mais agressivos quando estamos ao volante, e é interessante explorar o que dizem os especialistas em comportamento nesta matéria tão sensível como explosiva da fúria de guiar.
Dos mais pacatos aos mais nervosos todos temos alterações de comportamento quando guiamos um carro. Ninguém escapa à regra e, ao que parece, não há excepção.
Pais dedicados e tranquilos gritam obscenidades em frente dos filhos só porque o taxista da frente parou na berma sem fazer pisca; mulheres educadas e competentes perdem a cabeça e dizem palavrões de rajada porque um carro se atravessou no seu caminho; senhores todos postos por ordem fazem gestos ameaçadores quando se sentem pressionados por uma buzina mais insistente; jovens ditos normais transformam-se em seres coléricos quase bizarros se alguém não os deixa ultrapassar, e até velhinhos e velhinhas podem transformar-se em pessoas verdadeiramente hostis na estrada.
Feliz ou infelizmente ninguém é imune à raiva nem ao espírito de retaliação quando está ao volante. Todos somos vulneráveis à ira e todos somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal.
Há uns anos atrás escrevi sobre este assunto na revista XIS e agora retomo-o justamente pelas duas cenas de rua que presenciei em pleno centro de Lisboa e só não acabaram mal por absoluto milagre.
Leon James, psicólogo norte-americano que investiga as razões daquilo a que se convencionou chamar road rage e orienta cursos de traffic psychology há mais de 30 anos, tem um método de investigação, ensino e treino muito particular: pede aos seus alunos que instalem câmaras de filmar dentro do carro e propõe-lhes que gravem livremente e sejam actores dos seus próprios filmes.
Em sucessivos anos de gravações, Leon conseguiu resultados prodigiosos na medida em que consegue analisar com muita precisão a forma como cada um reage a pequenos e grandes acidentes de percurso.
O efeito espelho proporcionado pelas gravações é profundamente embaraçante mas altamente eficaz na correcção dos excessos. Isto porque devolve a cada um dos protagonistas e exacta medida da sua raiva, e revela até onde pode ir a sua agressividade. Mais, os vídeos permitem perceber a rapidez e a desproporção com que reagimos a estímulos insignificantes.
A teoria sobre o fenómeno road rage é vasta e abrangente e na impossibilidade de a resumir aqui, deixo as referências sobre a matéria e uma pista sugerida por Leon James que aconselha a adoptar uma atitude de latitude na estrada. Ou seja, a ganhar distância e a resistir ao desejo de vingança ou retaliação que tantas vezes nos assalta quando estamos ao volante e tudo nos parece uma provocação.
Esta atitude de latitude consiste em antecipar os erros dos outros, em concentrarmo-nos na eficácia e prudência das nossas próprias manobras em vez de nos desperdiçarmos a castigar perversamente os que se atravessam no nosso caminho.
Acima de tudo importa manter sempre uma certa distância de quem vai à nossa frente, ao nosso lado ou atrás de nós. Parece óbvio, não parece? Dito aqui, sim, mas vivido na estrada no cúmulo de nervos e stress habitual, as coisas não são assim tão fáceis.
Leon aconselha muito sentido de humor e uma capacidade de encaixe superiormente ensaiada, na certeza de que os erros que os outros fazem hoje não são maiores do que os que nós fizemos ontem ou faremos amanhã.
Ontem dei-me conta de um buraco enorme feito no meu carro
onde há vestígios de cor verde que me levam a crer que pode
ter sido provocado por um camião do lixo ou coisa parecida já
que um carro normal não tem capacidade para perfurar desta
maneira tão devastadora o aço. Que selvajaria, meu Deus! E
claro que nem uma nota, nem um contacto, nem um cartão a
pedir desculpas ou a dar uma justificação. Ainda por cima ao
'puxar o filme para trás', dei-me conta de que isto só pode ter
acontecido numa noite da semana passada em que o meu
carro estava bem estacionado mas outro carro, deixado do
outro lado da rua a tapar a esquina, inviabilizava a passagem
do camião do lixo. Se assim foi não deixa de ser extraordinário
que o carro mal estacionado tenha saído incólume e que o
meu tenha ficado neste estado, com o buraco e mais um risco
grosso e fundo ao correr de toda a porta de trás. Que coisa esta!

Não faço a menor ideia da eficácia desta proibição numa cidade como Nova Iorque, nem consigo imaginar o que se pode considerar barulho desnecessário no meio de tantos ruídos e tanto movimento, mas percebo a ideia.
Apesar da ironia da coisa (do absurdo, talvez) concordo com uma proibição aos barulhos excessivos. Devia existir qualquer coisa parecida no nosso país que impedisse que fossemos assaltados por brocas e martelos às 8h da manhã todos os dias, excepto aos domingos.
Nunca percebi porque é que os homens das obras começam sempre o dia por fazer aquilo que é mais ruidoso. Parece de propósito pois à medida que a manhã avança e o dia corre, os martelos, as picaretas e brocas vão ficando mais silenciosos.
Vivo com obras no prédio, obras em condomínios nas traseiras e obras na rua em frente e reparo sistematicamente nesta coisa dos barulhos desnecessários. Dou comigo irritada pela perfuradora e brocas que inauguram o dia em todo o seu esplendor acordando a vizinhança inteira (parece que as obras são dentro do quarto, debaixo da almofada!) e depois ficam pousadas na pedra do chão durante mais de metade do dia.
Não compreendo a lógica da coisa mas agora, olhando para esta fotografia do João Francisco Moura, consola-me saber que algures no mundo alguém se preocupa e proibe o barulho desnecessário. Nice.
(esta imagem é de uma rua perpendicular à Clínica de Navarra)
A notícia é de agora mesmo: um carro-bomba carregado com cerca de 100 kilos de explosivos, explodiu no parque de estacionamento da Universidade de Navarra, de onde acabo de voltar há dois dias. Que coisa sinistra, esta dos atentados a civis que nada têm a ver com as guerras destes guerrilheiros cobardes.
(esta imagem é de um dos edifícios centrais da Universidade de Navarra)
(esta é a imagem do Campus universitário, perto do local onde explodiu o carro-bomba)
Por mais exaltante que seja o entardecer e por mais que goste
destes breves minutos em que o dia se faz noite, detesto esta
mudança da hora. Não me conformo com a ditadura dos dias
cada vez mais curtos e a escuridão total às sete da tarde. Não
faço ideia do sentido que tem mudar a hora mas para mim não
tem lógica nenhuma. Alguém sabe a explicação da coisa? E os
princípios que regem uma alteração que mexe com o nosso ritmo
biológico e deixa alguns muito mais desconcertados?
Se puderem digam-me as vantagens, acho que isso me ajuda a
lidar com o facto incontornável de ter acabado de lanchar e já ser
quase noite. A vantagem da hora nova? Ficarmos mais inclinados
ao recolhimento, sim. Mas não acho assim uma grande vantagem...
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