Voltou o sol e esta cidade fica infinitamente mais luminosa e apetecível. Para quem, como eu, anda de eléctrico todos os dias o filme que se vê das janelas, mais os episódios que acontecem dentro de portas, são muito inspiradores.
Gosto de todos os detalhes, de toda a geometria e arquitectura dos eléctricos. Não há um único pormenor feio ou que destoe, e é neste ambiente de ferros e madeiras com a patine do tempo, entre as ripas do chão e os envernizados dos tectos, que me deixo embalar e ir pela cidade fora.
Raramente entro num eléctrico vazio. Só no princípio da linha, ali para os Prazeres, por exemplo. Tem a sua graça ir sozinha e apanhar no ar fragmentos das conversas entre aqueles que tomam sempre posição entre a janela e o condutor (especialmente se é uma mulher nova e bonita, como era o caso) e abstrair, tentando prestar atenção ao deslizar metálico feito de arranques e paragens súbitas quase sempre seguidos daquele toque prolongado que distingue os eléctricos e avisa os condutores ou peões que se atravessam no caminho.
Também gosto de ir vendo como são as pessoas que entram e saiem. Como eram as que ainda agora estavam sentadas naquele mesmo lugar, e como são as que acabam de entrar e nem se chegam a olhar. Sempre me fascinou observar este desfile de multidões, este movimento perpétuo de gente que vai e que volta, e se cruza no mesmo espaço sem se ver nem conhecer. Se não fosse jornalista, gostava de ser realizadora de cinema, é o que é.
P.S.: as fotografias estão tremidas, mas nesta calçada portuguesa e nestas ruas de Lisboa é impossível tirá-las em movimento com uma máquina tão simples como a minha e esperar que elas fiquem completamente bem...
. Que seria de uns sem os o...