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  <title>Laurinda Alves</title>
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  <description>Laurinda Alves - SAPO Blogs</description>
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    <title>Laurinda Alves</title>
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  <pubDate>Sat, 25 Apr 2009 00:00:37 GMT</pubDate>
  <title>A minha última crónica no jornal Público</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/221191.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não gosto particularmente de despedidas mas concedo que,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;por vezes, são inevitáveis. Foi o caso, hoje. Despeço-me do&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;jornal Público com esta última página de crónicas. As Coisas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;da Vida acabam por aqui e não volto na próxima sexta-feira nem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;nas semanas seguintes. Não volto a escrever no jornal e tenho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;pena, claro, mas a escolha não foi minha. Escrevo no Público, o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;‘meu’ jornal, há mais de uma década. Comecei aos domingos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;na revista Pública, depois fiz a XIS e agora escrevia as Coisas da&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vida há dois anos. É muito tempo, foi muita vida vivida e partilhada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e é muito caminho percorrido com o Público. Na semana passada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;recebi um sms do José Manuel Fernandes a perguntar quando&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;podíamos falar. Estava fora de Lisboa e liguei-lhe de volta. Percebi&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;que havia um embaraço do outro lado da linha e que o que ele tinha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;para me anunciar não era fácil de dizer nem de ouvir. Ele insistia em&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;falarmos pessoalmente mas eu estava sem tempo e com uma agenda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;milimetricamente preenchida. A conversa ficaria fatalmente adiada para&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;demasiado tarde e, por isso, pedi-lhe que me dissesse por telefone. A&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;muito custo, ele disse. A notícia era a minha dispensa como colunista&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;do Público já a partir do fim do mês. A razão, disse ele, é a contenção de&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;custos. Acredito. Não faço ideia se há outros argumentos nem sei se vai&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;haver mais despedimentos a curto ou médio prazo no Público. Espero&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;sinceramente que não. Sei que é difícil estar no papel de quem dispensa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;colaboradores, de quem faz contas, de quem gere critérios editoriais e de&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;quem concerta estratégias e políticas. As conversas finais exigem coragem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e, até certo ponto, houve coragem dos dois lados. Depois a vida seguiu, houve&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;um telefonema muito rápido e algumas perguntas que ficaram sem resposta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais nada. Assim sendo, aqui fica a minha última crónica do Público com&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;um agradecimento sincero a todos os que fizeram equipa comigo ao longo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;destes anos todos. Muito obrigada.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;As crónicas que gostaria de escrever no jornal&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A partir de hoje, e nos próximos tempos, as crónicas semanais que&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;gostaria de escrever no jornal serão publicadas no meu blog, onde&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;a equipa da &lt;a href=&quot;http://jonasnuts.blogs.sapo.pt/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Maria João Nogueira&lt;/a&gt;, do Sapo.pt, já está a redesenhar&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;um espaço onde caibam estes textos que escrevo semana após&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;semana, mês após mês, há anos a fio. A escrita diária num blog é&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;radicalmente diferente da escrita semanal num jornal e não é apenas&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;por uma ser mais telegráfica ou a outra mais detalhada. Ambas podem&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;ser profundas e elaboradas, mesmo quando parecem repentistas ou&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;mais imediatas. Gosto desta complementaridade da escrita e, por isso&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;mesmo, vou manter as crónicas semanais no meu blog à sextas. Assim&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;nem eu perco o ritmo, nem os que me acompanham à semana perdem&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;o contacto. Boa para mim e para os que gostam de me ler, portanto!&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;Estas e outras Coisas da Vida&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Curiosamente a semana começou com o lançamento de Coisas da Vida,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;o meu novo livro de crónicas com textos do Público e fragmentos do blog,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e acaba agora com o fim desta página. Acho graça à amplitude de estados&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;de alma que uma coisa e outra provocam em mim e à minha volta. E acho&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;extraordinária a maneira como a vida se tece. Por um lado, alguém insiste&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;em perpetuar as Coisas da Vida quando decide publicar mais uma colecção&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;de crónicas que se destinavam a ser efémeras. Por outro, alguém é obrigado&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;a suspender a elaboração dessas mesmas crónicas e a dar-lhes um fim&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;definitivo. Ram Charan, o guru dos maiores CEO de algumas das maiores&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;empresas do mundo, esteve em Lisboa recentemente e falou da possibilidade&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;redentora que a estratégia ‘killing projects’ encerra. Tenho a certeza de que está&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;certo e que, às vezes, é preciso matar coisas antigas para nascerem coisas novas.   &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>coisas da vida</category>
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  <pubDate>Sat, 28 Mar 2009 10:24:40 GMT</pubDate>
  <title>Carta ao Presidente da Câmara de Viseu</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/213756.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/YzQiZTtbH9QAOLG5vRdn&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/YzQiZTtbH9QAOLG5vRdn/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(crónica escrita para o jornal Público de ontem)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Visitei recentemente o CAT, Centro de Acolhimento Temporário&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;para bebés e crianças em risco que foram retirados às famílias&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;por terem sido vítimas de maus-tratos, abusos, negligências ou&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;abandono, e conheci nesta pequena-grande casa em Viseu uma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;equipa extraordinária dirigida por Paula Menezes que me abriu a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;porta com uma das crianças ao colo, com a naturalidade que só&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;as mães têm com os seus filhos. Paula Menezes não teve filhos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;mas conhece cada uma das trinta crianças como se fossem suas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/0cyCOQgEYTpGIuZqRSzj&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/0cyCOQgEYTpGIuZqRSzj/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No dia em que visitei o CAT uma das crianças estava mais chorosa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e como também é uma das mais problemáticas, com uma história&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;de vida terrível, Paula dedica-lhe mais atenções porque sabe que é&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;disso mesmo que precisa para se sentir amada e acolhida no sentido&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;mais profundo e radical do termo. Esta criança tinha pouco mais de dois&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;anos e foi abandonada pela mãe que, pouco tempo depois, abandonou&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;um segundo bebé, que também já dorme num dos berços deste berçário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Bms1y7YnrMjz5C1LlfB3&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Bms1y7YnrMjz5C1LlfB3/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conheci a instituição de uma ponta à outra, ouvi as histórias de&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;algumas crianças e passei tempo com elas. Por razões óbvias,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;tudo o que vemos e ouvimos dentro de casa não pode ser contado&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;cá fora mas posso garantir que foi um CAT que me comoveu muito.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E conheço muitos, há muitos anos... Comoveram-me os bebés que&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;chegam com marcas, cicatrizes e sinais de desamor (para não falar&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;em abuso, que é obviamente a palavra mais certa); comoveu-me o&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;olhar de um deles que está cego e procura incessantemente a luz&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;com os olhos que não param de mexer; comoveram-me os da sala&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;dos dois anos todos ordeiramente sentados nas suas cadeirinhas&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;à mesa prontos para almoçar (um deles tem Trissomia 21, outro é&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;paraplégico e outro ainda tem uma deficiência mental que parece&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;ligeira mas pode ser grave); comoveram-me os dos 4 e 5 anos a&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;dormir nas suas caminhas, uns já acordados no fim da sesta mas&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;obedientes sem sair da cama antes de alguém os ir chamar e,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;finalmente, comoveram-me os dos 6, 7 e 8 anos a brincar na sala&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;luminosa ao fundo da casa, onde funciona o único recreio do CAT.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/DNZo8718r6DEQUPvroFa&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/DNZo8718r6DEQUPvroFa/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Se sublinho a maneira como toda esta realidade me tocou é&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;porque, insisto, conheço muitas instituições desta natureza&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e com esta vocação, e esta é seguramente uma das mais&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;familiares de todas. A casa é uma verdadeira casa, cada quarto&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;foi decorado com simplicidade e muito bom gosto, nos cantos e&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;recantos há luz e tranquilidade, nas salas há conforto e respira-se&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;uma atmosfera de intimidade e aconchego. E note-se que falo de&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;uma casa de família com 30 filhos, alguns deles doentes, outros&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;deficientes, e todos com um passado marcante, inquietante e, em&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;casos particulares, trespassado de episódios aterradores que nunca&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;saberemos ao certo se serão apagados da memória.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/0TW4ayM1gUf436rFqRZI&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/0TW4ayM1gUf436rFqRZI/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nas casas das famílias ditas normais não há trinta filhos à mesa,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;trinta crianças com menos de 10 anos todas a precisar às mesmas&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;horas de biberons e papas, de fraldas e banhos individuais, de colo&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e mimos ao mesmo tempo. Para nós, que não vivemos esta realidade,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;é impensável imaginar a lendária ‘síndrome do fim do dia’ (a hora a que&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;todas as crianças se tornam birrentas, choram de exaustão ou requerem&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;mais atenções) numa casa com tantos bebés e crianças.Mas eu, que estive&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;nesta e noutras casas parecidas, posso assegurar que há muitos choros e&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;muitos pesadelos mas também muita arte, paciência e carinho para manter&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;a ordem e a alegria. E essa é, também, a verdadeira surpresa que encontro&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;neste e noutros CATs. Se falo deste é porque o achei particularmente bonito&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e familiar. O único detalhe que magoa no CAT de Viseu é ver que todas estas&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;crianças são obrigadas a brincar dentro de casa por não poderem aproveitar&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;o imenso terreno exterior que existe à volta da casa e dava um óptimo recreio!&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Z0BknkJvgQkwkJFuyfy7&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Z0BknkJvgQkwkJFuyfy7/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Se não fossem dois enormes tanques de pedra que lá estão, cheios&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;de água, as crianças poderiam brincar livremente por ali. Consciente&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;de que uma criança se afoga em três minutos e que a equipa do CAT&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;é pequena e não tem capacidade para vigiar um recreio de 30 miúdos&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;em corridas e brincadeiras lá fora, com o perigo real dos dois tanques,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Paula Menezes criou alternativas dentro de casa. Mas é pena. Daí esta&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;minha carta aberta ao Presidente da Câmara de Viseu no sentido de lhe&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;expor uma situação que se resolve em dois tempos, sem grandes gastos. &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/DbETTtoyU5FSKj6G7qvp&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/DbETTtoyU5FSKj6G7qvp/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Para que aquelas crianças não tenham que estar sempre a ver a&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;a rua através da janela e para que possam viver com mais alegria&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e liberdade basta esvaziar a água dos tanques e enchê-los de areia&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;ou de terra. Apenas isto. Será possível, Sr. Presidente? Obrigada.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;</description>
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  <category>coisas e causas</category>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Sat, 14 Mar 2009 12:41:05 GMT</pubDate>
  <title>Crónicas do Público, ontem</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/208938.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;deixo aqui hoje o que escrevi para o Público de ontem e veio na sequência da minha ida à cadeis de Tires na segunda-feira passada. Bom sábado!&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;b&gt;O lado de lá e o lado de cá das grades&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vou e volto aos estabelecimentos prisionais com alguma regularidade. Convidam-me a estar e a falar com reclusos e reclusas e acho um privilégio sem tamanho poder passar tardes e manhãs com eles em conversas demoradas sobre tudo e nada. Conheço quase todas as cadeias deste país e guardo de cada uma delas a memória de um espaço onde a liberdade física está muito condicionada mas também a certeza de que apesar das grades, dos muros altos, dos portões de ferro e do tamanho das celas, há por ali muita gente com muita liberdade interior.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Surpreendem-me as perguntas que me fazem quando tocam matérias mais sensíveis e profundas porque revelam a sensibilidade e a profundidade de quem pergunta. Lembro-me de ter estado em Vale de Judeus, a cadeia onde as penas são mais pesadas (há ali condenações perpétuas) com uma roda de reclusos à minha volta, numa proximidade perturbadora mas não inquietante. Havia guardas na sala, como é evidente, e senti-me naturalmente protegida mas na verdade aquilo que me tranquilizou foi a simplicidade com que homens mais velhos e mais novos falavam sobre o sentido da vida.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Estes homens cumprem penas de mais de vinte anos e alguns, insisto, jamais voltarão a sair dali e a ver o mundo, mas uns e outros falavam com essa tal liberdade interior que interpela e obriga a pensar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nem todos falaram. Houve os que se mantiveram calados do princípio ao fim, sentados nas últimas filas de cadeiras. Alguns tinham a cara fechada e o olhar duro mas estavam ali a ouvir e ninguém os obrigava a estar. Também o silêncio deles me marcou e por incrível que pareça, não esqueci as suas caras nem o seu olhar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nunca pergunto a um recluso porque é que está na cadeia. Não me passa pela cabeça fazê-lo porque não me cabe a mim julgar e, muito menos, condenar. Os que ali vão parar já foram julgados e condenados e já estão a cumprir a sua pena. Melhor ou pior, já estão a dar passos no sentido de recuperar parte daquilo que todos perdemos por cada crime que cometeram. Jamais conseguirão devolver a vida aos que mataram e talvez não consigam reparar nunca os danos dos que roubaram ou ofenderam, mas quem sabe se não vão a tempo de resgatar a sua própria vida e de recomeçar mais à frente. Mesmo em Vale de Judeus, de onde muitos não voltarão a sair, é possível recomeçar. É extraordinariamente duro e difícil, admito, mas não é impossível.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Percebi ali e noutras cadeias, em conversas que jamais esquecerei, que não há mérito nenhum em ter nascido deste lado da vida. Do lado dos que não matam, não traficam, não escravizam nem roubam, quero dizer. Há apenas sorte e um cúmulo de oportunidades. Do outro lado, pelo contrário, há uma sucessão de azares e um crescendo de revoltas. É quase sempre assim e salvo excepções mais ou menos raras, mais ou menos patológicas, fere quem está ferido, magoa quem foi magoado, rouba e mata quem sente que a vida também lhe foi roubada.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;b&gt;As mulheres de Tires&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vem tudo isto a propósito da minha ida a Tires esta semana. Tratava-se de celebrar o Dia da Mulher na cadeia e fui a pedido de um conjunto de professoras e reclusas que frequentam o Curso de Eventos neste Estabelecimento Prisional. Estava um dia de céu azul, limpo, e sol luminoso, um destes dias que anunciam a Primavera e apetece viver intensamente.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Passei o primeiro portão de ferro da entrada e fui pelo caminho de asfalto até ao pavilhão do fundo acompanhada pelas professoras que me iam mostrando os lugares e explicando a natureza e função de cada pavilhão. À minha direita a célebre creche-escola para os filhos das reclusas (neste momento é frequentado por 22 crianças), à minha esquerda a casa das que vivem num regime semi-aberto, mais à frente a casa onde se juntam as famílias de mulheres que se cruzam na prisão a cumprir penas ao mesmo tempo (desta vez conheci uma mãe e uma filha mas há sempre por ali mães, filhas, avós, netas, primas, tias e mulheres ligadas por laços de família), do outro lado um edifício antigo que já não me lembro para que serve nem quem acolhe e ao fundo, muito ao fundo, um pavilhão onde há homens que cumprem penas específicas que agora também não recordo porque no momento aquilo que mais prendeu a minha atenção foi a creche-escola e a tal casa das mulheres que vivem em família.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Absorvi as explicações que me iam dando à medida que íamos caminhando em frente debaixo daquele sol luminoso, sempre com as interrogações de fundo que tenho nas alturas em que estou do lado de lá das grades. Ouvi em silêncio e com a naturalidade possível o que me contavam sobre as reclusas mas o eco que estas conversas têm em mim enche-me fatalmente de tristeza e de pensamentos impossíveis de gerir no momento.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Para não entrar na sala de lágrimas nos olhos invento perguntas banais e mantenho a conversa a um nível aceitável. Acontece-me o mesmo quando visito centros de acolhimento de crianças maltratadas e também me acontece chorar por dentro quando saio da Unidade de Cuidados Paliativos onde faço voluntariado, e onde o sofrimento dos doentes e das suas famílias me interpela e toca em fibras mais sensíveis.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na sala havia uma roda enorme de cadeiras dispostas em três ou quatro filas e uma mesa de frente para elas com uma cadeira onde eu deveria ficar sentada. As reclusas entram depois de mim e ficam de pé. Sentamo-nos todas mas, logo a seguir eu levanto-me porque gosto de ver os olhos das pessoas com quem falo. E peço-lhes que se apresentem, que digam o nome e a idade e se têm filhos. E elas dizem e eu fixo-as uma por uma e guardo o nome de cada uma. Depois, falamos sobre mil e um temas, elas fazem perguntas e eu respondo. Rimos de coisa nenhuma mas também somos capazes de ficar em silêncio porque alguém disse alguma coisa que nos faz pensar ou ficar a remoer.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Acabamos sempre aos abraços e esta certeza de nos podermos abraçar e de nos podermos tratar pelo nome próprio enche-nos de outras certezas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;b&gt;Maria Irene&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No meio do grupo de reclusas de Tires havia uma que já tinha conhecido em Leiria, numa outra visita recente. Há cerca de um ano fui lá para um encontro semelhante ao desta semana e a conversa foi igualmente calorosa e marcante. Maria Irene ou apenas Irene para quem a conhece bem, estava lá e foi das que mais falou. Gosta de escrever e de ler e, na altura, falámos de livros, leituras e escritas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O grupo de Leiria era um grupo de ‘preventivas’ e, por isso, ao fim de algum tempo cada uma destas mulheres é julgada e mandada em liberdade ou condenada e enviada para outro estabelecimento prisional. Irene veio parar a Tires e eu não estava à espera de a encontrar mas quando nos vimos foi um verdadeiro reencontro. Uma surpresa feliz se é que assim posso falar, dada a infelicidade das circunstâncias que a fazem estar ali.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Demos um longo abraço e pusemos a conversa em dia. Perguntei-lhe pelas outras reclusas, pela Delmina, pela outra Laurinda, pelas irmãs de etnia cigana, por todas as que estiveram presentes na tarde de chuva diluviana em Leiria. E ela respondeu e esclareceu que uma estava ali outra acolá e disse-me inclusivamente que a carta da Delmina que eu recebi depois da minha visita, tinha sido escrita pela sua própria mão, pois a Delmina tem dificuldades em escrever.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No fim da tarde de conversa em Tires, Irene ofereceu-me um presente. Um texto escrito ali por ela e lido em alto perante a plateia de mulheres com quem passei a tarde. O texto comoveu-me e o gesto também. Irene leu devagar, com voz alegre e sincera mas também comovida. Agradeci sem palavras porque as palavras de Irene calaram muito fundo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;“Muito obrigada por nos ter trazido histórias de vida, de luta e de coragem e, com muito carinho, nos fazer sentir que somos Mulheres privadas de liberdade, mas com dignidade, valores e ambições. Deixou-nos a todas uma lufada de ar fresco, um recarregar de baterias para seguirmos em frente e…mostrarmos à sociedade que somos mulheres dignas e de coragem.” &lt;b&gt;Obrigada, eu, Irene!&lt;/b&gt;&lt;span&gt;            &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>as vidas dos outros</category>
  <category>pessoas e coisas muito importantes</category>
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  <pubDate>Tue, 17 Feb 2009 18:03:49 GMT</pubDate>
  <title>Maravilha, hoje só tive boas notícias!</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt/MuIZaQooPzRVi99Z6frN/s320x240&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje excepcionalmente republiquei a minha crónica do Público&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;de sexta-feira passada apenas no blog &lt;a href=&quot;http://cronicasdecampanha.blogs.sapo.pt/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Crónicas de Campanha&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;por ter conhecido o António e o seu grupo na minha ida ao Minho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em campanha pelo &lt;a href=&quot;http://www.mep.pt/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;MEP&lt;/a&gt;. A história do António comoveu-me pela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;adversidade mas, acima de tudo, pelo testemunho de dignidade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;que ele e os que estão à sua volta dão. Agora importo para aqui&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;também esta crónica porque acabei de receber um telefonema&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;do irmão do António a dizer-me que tinha sido contactado pelo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;deputado João Rebelo, vice presidente da Comissão de Defesa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;no sentido de apurar os factos e dar sequência ao processo que&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;está suspenso há 5 anos. &quot;Só&quot; por isto já valeu a pena ter ido ao&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minho e que me perdoem os mais cépticos, também já valeu a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;pena ter dito sim ao MEP, ser candidata ao PE e fazer campanha.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O António é o que usa óculos e está sentado. Tem uma cabeça &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;brilhante e uma memória prodigiosa. E uma alegria contagiante! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;A (até agora) triste história de António Garcia&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;António Garcia, 33 anos, 2º Sargento Paraquedista com uma folha de serviço irrepreensível e missões cumpridas na Bósnia e em Timor de onde voltou com louvores, regressou à base de S.Jacinto, em Aveiro, onde prosseguiu a sua carreira até à data de 26 de Novembro de 2002, dia em que se sentiu mal logo pela manhã. Como estava de serviço permaneceu firme no seu posto até ao hastear da bandeira e só depois pegou na bicicleta para se ir queixar ao oficial de dia de tremuras numa perna e visão desfocada. Nem os tremores nem o olhar turvo o impediram de cumprir as suas obrigações matinais mas uma vez chegado ao gabinete do oficial de dia era mais que evidente que já estava em grande sofrimento. Sem hesitações o superior mandou chamar uma ambulância e António Garcia foi internado com um diagnóstico de aneurisma e um prognóstico reservado.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Durante o mês de Novembro e Dezembro a situação clínica de António era de tal maneira grave e delicada que os médicos hesitaram na decisão de o operar. Sabiam que António corria perigo de vida e tudo indicava que podia não sobreviver à intervenção cirúrgica. Depois desta longa ponderação, António foi operado no dia 8 de Janeiro de 2003 no hospital de Sto António, no Porto, onde permaneceu em coma durante algumas semanas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Cinco dias antes de ser operado o pai de António morreu e a mãe ficou viúva com dois filhos, um deles entre a vida e a morte. Abreviando a história, António sobreviveu à operação e regressou à vida com sequelas físicas muito graves e uma incapacidade na ordem dos 93%. Intelectualmente não foi afectado e continua a ter o mesmo espírito brilhante e a mesma memória prodigiosa que sempre teve mas fisicamente está muito limitado.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Desloca-se em cadeira de rodas, precisa de adaptações permanentes para viver uma vida razoavelmente integrada e tem graves dificuldades na expressão verbal. Embora fale mais devagar, percebe-se tudo o que diz mas é muito evidente a limitação na comunicação.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conheci o António Garcia no fim-de-semana passado em Guimarães, numa visita à CERCIGUI, no centro de reabilitação e formação profissional onde ele e muitos outros frequentam cursos que lhes permitem tentar uma integração no futuro próximo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O António chama a atenção pelo espírito vivo, pela inteligência dos seus comentários, pela alegria do sorriso mas, também, pela imensa tristeza no olhar que contrasta com a atitude aparentemente positiva e descontraída. Os olhos do António gritam no silêncio e não percebi logo porquê. Sentei-me ao seu lado para conversarmos e ele contou-me a história que agora conto e que infelizmente tem contornos muito feios que envergonham fatalmente todos os responsáveis militares e civis que até hoje se recusaram a prestar qualquer apoio ou a dar qualquer informação ao António.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Por incrível que pareça, nestes 6 anos que se seguiram ao episódio do aneurisma que, sublinho e insisto, aconteceu quando António estava de serviço no seu posto, na Base Militar de São Jacinto, em Aveiro, ninguém deu um passo para saber o que era preciso fazer e, muito menos, para dizer como o António Garcia e a sua família poderiam ser ajudados, apoiados ou encaminhados. Pior, nem as cartas escritas ao Chefe do Estado Maior do Exército, nem os pedidos de informação feitos à própria hierarquia da Base de S.Jacinto, nem a exposição dirigida ao Ministro da Defesa nem a carta escrita ao presidente da república tiveram outro eco para além de uma nota oficial de que tinham sido recebidas. Mais nada. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;A mim, que só o conheci há uma semana, choca-me esta realidade e tira-me o sono saber que há quem acorde e adormeça todos os dias sem cumprir o seu dever perante um militar que cumpriu escrupulosamente o seu. António Garcia prestou serviços à nação com louvores e mérito, tem uma folha impecável onde constam 63 saltos e um acidente que lhe provocou um traumatismo craniano (um acidente de trabalho, note-se!) e apesar de estar ao serviço da Instituição Militar no dia em que ocorreu o episódio do aneurisma que o atirou para uma cadeira de rodas e o deixou gravemente incapacitado, não recebe um cêntimo do Estado nem o mais vago apoio das Forças Armadas. Bonito serviço! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;A mim choca-me e envergonha-me esta triste história e como não acredito que seja só a mim, deixo aqui o telemóvel do irmão de António, que se chama Ricardo, é polícia e trabalha incessantemente para sustentar o irmão, para o caso de alguém querer e poder dar as respostas a tantas perguntas que continuam sem resposta. As tais de que falo no texto anterior. Não se trata de angariar fundos nem de dar dinheiro, mas sim de responsabilizar quem é responsável. Só isso. Aqui fica o número: 960479793&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>coisas e causas</category>
  <category>boas notícias</category>
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  <pubDate>Sat, 07 Feb 2009 10:42:44 GMT</pubDate>
  <title>Crónicas do Público à sexta</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/198261.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Morrem jovens os que os deuses amam?&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;“Coordenava os meus pensamentos: Antínoo estava morto. (…) Lembrava-me dos lugares-comuns frequentemente ouvidos: em todas as idades se morre; os que morrem jovens são amados pelos deuses. Eu próprio participara nesse infame abuso de palavras; falara em morrer de sono, morrer de aborrecimento. Empregara a palavra agonia, a palavra luto, a palavra perda. Antínoo estava morto”.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;As memórias de Adriano, o Imperador romano, fazem um eco especial nos dias de sol e chuva no cemitério em que caminhamos devagar, ombros vergados e olhos no chão. Nestes dias percorremos às cegas os labirintos de pedra e as estranhas alamedas de árvores sombrias que escurecem o horizonte e têm raízes atormentadas.O frio que fica depois dos enterros demora a desaparecer. Parece um casaco pesado, gelado, que se cola à pele e não se consegue despir.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vamos e voltamos pelas alamedas mas também por caminhos rectos desenhados na terra rasa de campas e pisamos tudo com extremo cuidado, num silêncio grave e cerimonioso de quem não quer despertar sequer a borboleta que pousou na pedra branca com inscrições douradas e a fotografia antiga de uma cara nova que prende a atenção por ser mais alguém que morreu cedo demais.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Não há palavras para exprimir a dor dos pais que enterram os seus filhos. Não sabemos nem saberemos nunca porque é que uns vão primeiro que os outros e custa permanecer de pé naquele silêncio chorado, naquele lugar sagrado onde depositam o seu corpo frio e se despedem com gestos contidos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Dói ver um pai e uma mãe muito quietos, parados em frente daquela que é a última morada dos seus filhos neste mundo, a despedirem-se deles num silêncio demorado, cheio, repleto de memórias e imagens que o tempo não apaga. Esse tempo demorado da despedida deixa-nos a todos suspensos sem saber o que fazer nem o que dizer. Baixamos os olhos, limpamos as lágrimas, olhamos para o céu, guardamos todas as perguntas sabendo que jamais saberemos as respostas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E permanecemos de pé, uns passos atrás, para não devassar a intimidade do último abraço de um pai ao seu filho. De uma mãe ao seu bebé. E depois voltamos pelo mesmo caminho que percorremos e sentimos que embora os ombros nos pesem e os passos nos custem, há uma luz que nos guia e um brilho que nos conduz. E é nessa estrela que acreditamos. &lt;span&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span id=&quot;1234003468443S&quot; style=&quot;display: none&quot;&gt; &lt;/span&gt;As cores das flores&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Há no chão de madeira um rasto de pétalas de flores que foram pisadas mas ainda não varridas porque os homens de fato escuro e gestos solenes continuam a arrumar as coroas, os ramos e as braçadas de flores de todas as cores que a família e os amigos oferecem sempre a quem parte. Os homens não fazem barulho, têm sapatos leves e gestos delicados. Fazem o seu trabalho com a perfeição que se espera e quase nem damos por eles. Levam tudo para um carro de vidros muito grandes e não trocam palavras entre si, apenas olhares e acenos ligeiros. O único som que fica no ar é o do celofane que envolve as flores. E é essa transparência luminosa e quase musical que acompanha as orações dos que rezam sem palavras ditas e dos que ficam para trás por não saberem para onde ir nem como recomeçar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>sofrimentos</category>
  <category>coisas da vida</category>
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  <pubDate>Fri, 30 Jan 2009 18:00:19 GMT</pubDate>
  <title>Coisas da vida de hoje no Público</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/194387.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Publicar aqui as crónicas que escrevo às sextas no jornal Público já é um clássico. Aqui ficam as de hoje, já a mais de meio da tarde. Habitualmente os temas do Público não cruzam os do blog, para evitar redundâncias ou para não escrever &apos;mais do mesmo&apos; mas esta semana foi impossível não ir falando aqui destes dois temas e porque desta vez as histórias são familiares aos leitores do blog, publico hoje as crónicas de hoje. Aqui ficam, enquanto eu ando entre Coimbra e Leiria a defender outras causas em que acredito. &lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;Um grito de raiva!&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Na semana passada escrevi aqui sobre dois cegos que vi uma vez no Metro e hoje retomo o tema porque por coincidência (ou não) no próprio dia em que a crónica foi publicada voltei a vê-los. Estavam na plataforma oposta à minha e fui ter com eles pelo túnel para lhes dizer que me tinham inspirado um dos textos desse dia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Apresentei-me e eles fizeram o mesmo. Um chama-se Paulo e outro Pedro, quiseram saber em que jornal e porquê. Abreviando um encontro breve mas marcante, expliquei-lhes que me prendeu a alegria e a cumplicidade entre os dois e a falta de pressa com que caminhavam entre a multidão apressada. Não por serem cegos mas por terem outro tempo interior, acho eu. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Eles gostaram da ideia de se verem retratados, ainda que de forma breve e partindo apenas de uma cena aparentemente sem história, e decoraram o meu mail para me dizerem depois o que tinham achado. Disseram-me que iam pedir a alguém que lhes lesse o texto e assim fizeram. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Mais tarde recebi alguns mails do Paulo e pedi-lhe autorização para os usar. Ele começou por justificar que me trata por tu porque não lhe dá jeito de outra maneira e disse que os podia usar até porque a substância dos mails é um grito de alerta e um pedido de socorro. Aqui ficam dois fragmentos desses mails tão eloquentes da cegueira geral: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;“A maior parte dos cegos em Portugal passa fome. Algumas cegas já se prostituem para alimentar os filhos. Muitos estão na mendicidade. Isso tem que acabar. Pessoas como tu podem ajudar informando que existem problemas. Muitos cegos têm não só problemas visuais mas do foro neurológico, ortopédico, etc. A sociedade pensa que a ACAPO pode ajudar mas a associação está na miséria, nem dinheiro tem para pagar aos funcionários quase.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Precisamos tirar a mendicidade das ruas e do metro. Existe uma petição liderada pelo doutor Mário Garrote de Coimbra, para pedir a lotaria para os cegos. Por favor eu peço socorro em nome de todos os cegos de Portugal que passam fome. Porque eu costumo dizer, ser cego não é defeito a sociedade é que nos faz passar pelo canal estreito. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Somos seres humanos temos sangue nas veias, temos alma, temos sentimentos, também choramos e sorrimos, amamos e odiamos. Temos fé. Enfim minha amiga somos seres humanos mas seres humanos sofridos”(…)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;“Um pensionista cego em Portugal ganha em média cerca de 200 euros e tem quase sempre medicação para pagar. Roupa, luz, água, gás. Também existe quem coma comida por cozinhar.&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Cegos que comem uma refeição por dia. Vou confessar uma coisa cara amiga eu passo fome. Evito tomar medicação que me faz falta. Anti-depressivos e medicação para dormir. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Eu tenho tendência para me suicidar. Pois não tenho dinheiro para comer nem para os anti-depressivos quem me paga a net é um amigo. Mas não pode ajudar em tudo. Qualquer dia apareço morto Laurinda. Como só à noite e chega. A segurança social só tem dinheiro para os ciganos. Tenho esperanças que um dia venhamos a ter o subsídio de cegueira que a União Europeia deu e Portugal recusou. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;E insisto: Portugal não quer dar a lotaria para os cegos! E a única cidade que tem os transportes gratuitos para os cegos é a cidade de Braga. Porque não existe em todo o país? Pronto aí está não só eu mas muitos Paulos e Paulas deste país que não têm culpa de serem cegos. E pedem esmola sem terem feitio para isso. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt&quot;&gt;Eu nasci para amar e ser amado. Mereço dar e receber. Portanto sou um cidadão como outro qualquer, mereço respeito. Por isso peço a tua ajuda e se for possível passa esta mensagem aos teus colegas para que eles se tiverem consideração pela raça humana a espalhem e com o título: um grito de raiva! Eu também sou gente!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;span&gt;&lt;b&gt;Licença para guiar&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Quarta-feira, dia de chuva e nuvens cinzentas, pesadas. Dia de acordar cedo para chegarmos a horas à Escola de Avelar, onde centenas de alunos esperam pacientemente a chegada de um convidado especial. Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, aceitou o desafio de Lurdes Cotovio, professora atenta às grandes causas, para ir a esta escola falar da sua experiência de vida depois do acidente de mota que o deixou tetraplégico aos 16 anos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Salvador fundou a Associação com o objectivo de tornar Portugal um país acessível às pessoas portadoras de deficiência ou com dificuldades de locomoção e, ao mesmo tempo, sensibilizar a sociedade para os perigos na estrada. Nesta lógica programou uma série de acções em escolas onde há alunos em idades próximas de terem licença para guiar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;As ‘aulas’ que Salvador dá nas escolas marcam os alunos para sempre. É impossível esquecer as coisas que ele diz, os filmes que mostra e a verdade com que fala sobre tudo a todos. Não há temas tabu para o Salvador nem há assuntos proibidos. Se os adolescentes querem falar sobre namoradas, sobre sexualidade, sobre o que ele pensa sobre a vida ou saber exactamente o que sentiu depois do acidente, se chorou, se ficou revoltado ou se teve medo de morrer, ele responde e conta com detalhes expressivos tudo aquilo por que passou imediatamente a seguir e, também, nestes últimos 10 anos como tetraplégico.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Salvador vive a dar testemunho e a falar de um acontecimento dramático que mudou radicalmente a sua vida mas por incrível que pareça fala sempre de tudo como se fosse a primeira vez. Eu própria, que o conheço e acompanho, comovo-me invariavelmente com as suas palavras. Os alunos, os professores e os pais presentes nestas sessões ficam igualmente suspensos do seu testemunho e da sua atitude, sempre tão extraordinários e transformadores. Salvador é, na verdade, uma luz no mundo. Tudo fica incrivelmente mais definido e luminoso à sua passagem e nem sequer sei se ele se dá conta deste efeito iluminante, por assim dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Salvador teve um impacto brutal nos 250 alunos da Escola de Avelar que assistiram à sessão dentro do ginásio. Mostrou filmes que valem por mil palavras, enunciou estatísticas e perguntou quem, entre eles, tinha menos de 16 anos. Mais de metade pôs o dedo no ar e Salvador, com um sorriso, disse:&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;- Com a vossa idade eu também era como vocês. Jogava futebol, ia à praia, corria, andava, vestia-me sozinho, estudava, começava a sair à noite, já tinha namoradas e a vida corria-me bem. Gostava de andar de mota e achava que os acidentes só aconteciam aos outros. Numa noite de Verão, no Algarve quando estava de férias, adormeci ao volante quando voltava de uma discoteca. Tinha bebido uns copos e estava cansado. Não me lembro do acidente nem recordo bem os primeiros dois meses mas depois percebi que tinha ficado tetraplégico e na noite em que o médico me disse que ia ficar numa cadeira de rodas para sempre chorei. Foi a pior noite da minha vida.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;Os alunos ouvem estas e outras palavras de Salvador sem se mexerem nas cadeiras. Apesar de o ginásio estar a transbordar de adolescentes de várias turmas e idades, não há um único barulho. Apenas o silêncio e a chuva lá fora.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>coisas e causas</category>
  <category>sofrimentos</category>
  <category>as vidas dos outros</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Mon, 19 Jan 2009 13:23:36 GMT</pubDate>
  <title>E finalmente a entrevista de Jorge Colombo</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;/object&gt;
    
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aqui fica, finalmente a pequena entrevista que fiz a Jorge Colombo na semana passada, na noite da inauguração da sua exposição Lisboa Revisitada. Deixo também as crónicas do Público de sexta, que começam justamente por um texto sobre o Jorge e esta exposição. O outro blog está em fase de acabamentos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Crónicas do Público&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;Na semana passada escrevi um &lt;i&gt;post scriptum&lt;/i&gt; sobre Jorge Colombo a propósito da iniciativa Urban Sketchers e esta semana dei comigo a reparar nesta espécie de convocação cósmica que de alguma forma o trouxe a Lisboa uma semana antes de ele próprio chegar para a inauguração da sua exposição de fotografias na Casa Fernando Pessoa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Jorge Colombo é um artista versátil e performativo que nunca deixa de surpreender, seja quando desenha, quando escreve, quando filma ou quando fotografa. Conheço bem a sua obra nestes quatro modos e assumo a minha devoção pela sua arte. Gosto da impressão digital que Colombo deixa em tudo o que faz e da diferença que marca num mundo cheio de artistas mais ou menos talentosos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conheço o Jorge há quase trinta anos (meu Deus!) e acompanho o seu percurso desde que nos tornámos amigos. Em Lisboa, no jornal Independente onde trabalhamos juntos, em Chicago onde fui ‘morar’ uns tempos em sua casa, ou depois em N.Y onde ainda este ano passeámos juntos pelas avenidas e jardins, existe sempre entre nós a proximidade real dos amigos antigos para quem o tempo, a ausência física ou a distância geográfica jamais se traduzirão por perdas. Muito pelo contrário.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Jorge Colombo veio a Lisboa inaugurar a exposição Lisboa Revisitada, 52 fotografias inspiradas em poemas de Álvaro de Campos e vale a pena passar por lá e rever esta cidade pelo olhar de Colombo, inspirado na poesia de um dos heterónimos de Pessoa (&lt;u&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt; color: blue&quot;&gt;&lt;a href=&quot;http://www.jorgecolombo.com/lisboarevisitada&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;font color=&quot;#800080&quot;&gt;www.jorgecolombo.com/lisboarevisitada&lt;/font&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;)&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Quem lê o quê&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nestes tempos em que nos oferecem um jornal em cada esquina e nos estendem o braço para dentro dos carros, e até dos táxis, para deixar umas folhas impressas com as últimas do dia ou da semana, confesso que sou das que recusam educadamente as ofertas e continuam a ir à banca dos jornais comprar aquilo que me interessa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Fiel ao Público (e não apenas por ser colaboradora, note-se!), a alguns semanários e revistas nacionais e estrangeiros, prefiro ler segundo os meus critérios do que seguir os dos outros. Não que os meus sejam melhores que os deles mas simplesmente porque são os meus.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nesta lógica sigo a actualidade através dos jornais e telejornais que escolho e não pelos que me escolhem. Gosto mais assim. E dou-me bem com o sistema. Prefiro duas boas páginas com textos factuais e analíticos sobre os acontecimentos e protagonistas do momento do que o condensado de notícias avulsas e tantas vezes acríticas que abundam na maior parte dos gratuitos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Não tenho nada contra esta versão de jornais e jornalistas que escrevem pequenos textos anónimos, simplesmente pertenço a uma geração que gosta de ler o que está escrito e saber quem o escreveu. E gosto de editoriais, crónicas e polémicas assinadas com aquela assinatura que sublinha o que fica escrito. Sei que corro o risco de parecer que sou contra os gratuitos mas não sou. Sou é radicalmente a favor dos jornais pagos e do jornalismo com cara e nome próprio.Embora haja muitos nomes e caras que admiro e respeito nos gratuitos continuo a preferir os que são pagos. Manias.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;O sono, os sonhos e outras felicidades&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O sono e os sonhos são temas recorrentes de conversas entre quem se conhece mas também entre quem se desconhece. É curioso ver como um e outros prendem a atenção das pessoas em lugares públicos. Nas filas para chegar aos guichets das repartições, nas salas de espera de consultórios e no Metro ouço fragmentos de conversas sobre o sono e os sonhos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Fascina-me a matéria mas ainda mais a facilidade com que se estabelece um diálogo a partir destas duas palavrinhas mágicas. Prefiro os sonhos mas raramente encontro quem os saiba decifrar e por isso acabo por me deter mais no sono. Ou nas insónias, que é um sub-tema que acaba sempre por minar as conversas e desvalorizar o tema principal.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Antigamente as pessoas falavam com naturalidade do estado do tempo e a amplitude meteorológica parecia ser o assunto que mais as apaixonava nas conversas de ocasião. Agora não. Os sonhos e a tal decifração cósmica vão muito à frente. Ainda bem, prefiro explorar a substância desta sub-existência do que divagar sobre o nevoeiro da manhã e a chuva da tarde.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A propósito desta sucessão extraordinária de conversas a que tenho assistido sobre estas e outras felicidades, deixo aqui os pensamentos de Adriano sobre o mistério específico do sonho. Já que não posso entender todos os sonhos da humanidade, gosto de aceder aos pensamentos dos homens. De alguns homens.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;“O que me interessa é o inevitável mergulho a que se aventura todas as noites o homem nu, sozinho e desarmado, num oceano onde tudo muda, as cores, as densidades, o próprio ritmo da respiração, e onde encontramos os mortos. O que nos tranquiliza no sono é que se sai dele, e que se sai sem qualquer mudança, pois que uma extravagante interdição nos impede de trazer connosco o resíduo exacto dos nossos sonhos. O que nos tranquiliza também é que ele cura a fadiga, mas cura-nos, temporariamente, pelo mais radical dos processos, arranjando as coisas de maneira que deixamos de existir.” (in Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar).&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Green Gym&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 9.6pt 0cm 0pt; line-height: 18pt&quot;&gt;A Green Gym é uma ideia verde, fresca e musculada, inventada pelos ingleses há dez anos que começa a ter cada vez mais adeptos. Concebida pela British Trust for Conservation Volunteers, uma organização de preservação da natureza cujo site é www2.btcv.org.uk/display/greengym, esta forma de ginástica ao ar livre é, ao mesmo tempo, uma forma de voluntariado e contributo social.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 9.6pt 0cm 0pt; line-height: 18pt&quot;&gt;A Green Gym aposta nas pessoas que querem manter-se em forma mas detestam ginásios, máquinas e fatos de lycra. “You could be helping the environment as well as yourself!”, é um dos lemas desta organização que sabe que a esmagadora maioria das pessoas deveria fazer mais exercício físico e passar mais tempo ao ar livre.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 9.6pt 0cm 0pt; line-height: 18pt&quot;&gt;Especialistas em ambiente, jardins e espaços verdes treinados em modelos de ginástica muito completos orientam os voluntários da British Trust for Conservation e estabelecem esquemas de trabalho físico e ‘agrícola’ por assim dizer. A jardinagem é cientificamente feita a pensar nos movimentos de aquecimento, de alongamento, de treino cardiovascular e de relaxamento. Parece impossível? Parece, pelo menos estranho mas a verdade é que funciona.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 9.6pt 0cm 0pt; line-height: 18pt&quot;&gt;Os parques ingleses supervisionados por esta instituição estão impecavelmente cuidados e os voluntários incrivelmente em forma. As sessões duram 3h e qualquer pessoa se pode inscrever desde que não tenha alergias a plantas. Gira, a criatividade destes ingleses.  &lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;</description>
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  <category>coisas da vida</category>
  <category>artes</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Sat, 27 Dec 2008 01:04:32 GMT</pubDate>
  <title>Crónicas do Público de sexta-feira</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;b&gt;Coração africano I&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A sala parece demasiado pequena para uma mesa tão comprida mas era preciso sentar mais de vinte pessoas naquela noite e alguém fez o improviso de ir acrescentando mesas e cadeiras para cabermos todos. As janelas e as portas estão abertas porque está muito calor e de vez em quando sente-se um vento quente a entrar, um sopro que se eleva no ar e se espalha em todas as direcções, empurrado pelas pás de uma ventoinha que roda devagar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;As pessoas vão entrando e escolhendo o seu lugar. Uns conhecem-se, outros não. Em frente ao restaurante existe um largo de pedra antiga recém-lavada, muito branca quase imaculada. O largo é grande, imponente, com fonte e escadarias, árvores alinhadas aos lados e bancos da mesma pedra dos muros. Das janelas abertas vemos a pedra iluminada pela esteira luminescente da lua cheia e as copas dos ciprestes mais altos projectam sombras oblíquas no passeio.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A sala é muito pequena mas o largo em frente torna-a grande, quase desmedida. Quando todos estamos sentados alguém sugere que cada um se apresente de pé e é assim que um por um, todos dizemos de nós. Mais de vinte pessoas numa mesa de empreendedores sociais que cruzam ideias e caminhos, que trocam contactos e tecem laços, que apostam em mais uma rede de agentes de transformação social. Cada um diz o essencial e todos ficamos a perceber melhor as razões que nos juntaram ali.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há quem tenha dirigido uma escola de ciganos; há quem dê aulas no perímetro mais adverso da Quinta da Fonte e apesar da adversidade consiga mobilizar alunos rebeldes para causas solidárias; há quem dirija institutos de inovação e criatividade; há quem tenha posto de pé ONGs; há quem crie empresas com o objectivo de apoiar projectos de desenvolvimento e sustentabilidade; há quem se dedique a potenciar os talentos dos outros; enfim há uma variedade notável de gente para quem o lucro se mede mais pela quantidade de riqueza social e humana que são capazes de gerar e menos pelo dinheiro que conseguem ganhar ou acumular, e isso é o que mais impressiona nesta rede de empreendedores sociais que está a cumprir meio ano de existência mas começou ali, naquela noite de calor e lua cheia.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No fim, quando quase todos se tinham apresentado e faltava apenas um, eis que se levanta o mais novo de todos e dá um passo atrás para poder falar olhos nos olhos com todos. Sem pressas e com aquela cerimónia natural mas rara dos grandes quando se fazem pequenos, começou a sua apresentação. Primeiro o nome e depois o país de origem.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;- Venho da Guiné. Casado? Não sou. Filhos? Não tenho. Curso? Estou a completar. Experiência? Vou contar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E contou. E encantou-nos a todos com aquela sua maneira de enunciar uma vida, começando primeiro pelo conceito e depois desfiando tudo com preceito. E foi naquela sua voz pausada, meio cantada, que revelou o seu coração africano.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.twoangels.co.uk/Africa%20images/Zanzibar%20beach-sml.jpg&quot; /&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;b&gt;Coração africano II&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E agora que escrevo sobre o rapaz guineense lembro-me de outro homem que conheci há muitos anos numa praia remota de Zanzibar, e veio ter comigo pela mão de um amigo. Vinham os dois de mãos dadas pela areia, com os braços a balançar para a frente e para trás como fazem naquela ilha os homens que são muito homens. Vestidos com longas túnicas azuis de uma costura só, caminhavam descalços e sem pressas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conversavam e riam sem desfazer o nó das mãos entrelaçadas que prende o olhar ocidental e fere todo o nosso preconceito. Rasga e desfaz, para ser mais exacta.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Pararam a um passo de distância e cumprimentaram-me com um aceno largo e um sorriso contido permanecendo de mãos dadas. As mulheres ali têm uma importância diferente da que têm as mulheres aqui e os homens nem sempre sabem por onde começar. Preferiram esperar e o silêncio deles obrigou-me a falar. Se eu não começasse eles saberiam esperar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Tinha percebido isso na véspera, ao balcão do hotel onde pedi um extra sem ter qualquer resposta. Perplexa com o silêncio procurei pelo corredor alguém que me percebesse e vi reflectidas no espelho dos vidros que davam para o terraço, as sombras inclinadas dos homens que espreitavam os meus passos e comentavam entre si a resposta que me haviam de dar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vi-os espreitarem-me primeiro e conferenciarem depois e percebi que era essa a regra. Nunca davam uma resposta directa, nunca começavam uma conversa com uma mulher porque não estavam habituados a esse diálogo nem sabiam como mantê-lo. Era estranho mas era assim há vinte anos. Agora não sei, as coisas mudam e o mundo já não é o que era.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na praia os dois homens esperavam que eu falasse para avaliarem o que haviam de responder. Começámos pelo céu que é sempre tão baixo e tão luminoso naquela ilha. Eles olharam para trás e para cima, como se medissem pelo ombro, e explicaram o reflexo da água e a química dos corais. Não precisei de dizer mais nada. Eles contaram a sua história, falaram dos pescadores naqueles barcos primitivos de vela branca e das suas famílias e acabaram por desfazer naturalmente o nó das suas mãos. Convidaram-me a sentar-me com eles num velho barco de madeira encalhado na areia e ali ficámos horas esquecidos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Um deles, o que guardo na memória até hoje, era descendente de antepassados ligados a Gungunhana, coisa improvável naquelas paragens achava eu. Contou histórias que conferem com a História e detalhou conversas e gestos que ficaram gravados para sempre. Mas o que verdadeiramente me marcou foi a inesperada maravilha do seu português antigo e aquela mesma cerimónia natural e rara dos grandes quando se fazem pequenos, especialmente quando falava de homens que não eram de África.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;- Sabe, ele era um ‘branco’, perdoe a expressão.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E é este ‘perdoe a expressão’ proferido com distinção e reverência a uma mulher branca numa praia de areia muito limpa e muito fina, quase branca, de frente para o Índico, que nunca mais esqueci. Esta e outras frases foram, para mim, a expressão do coração de um homem bom.&lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;259&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://blogs.warwick.ac.uk/images/eballard/2004/12/22/beach.jpg&quot; /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;b&gt;Coração Africano III&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O hotel fica de frente para a praia e para a imensidão de um oceano cujas marés avançam e recuam quilómetros impensáveis, revelando ao mundo alguns mistérios dos homens. Barcos naufragados, árvores plantadas em seco que ficam submersas metade dos dias, casas ao fundo erguidas com restos de navio e madeiras que resistem à água e às tempestades, caminhos que parecem estradas por onde passam mulheres elegantes vestidas de panos coloridos, com filhos pesados às costas e cestos cheios na cabeça que elas amparam com mão leve e pulso fino, tudo isto emerge quando o mar recua quase até ao fio do horizonte.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;As marés do Índico são uma paisagem inesquecível e visto daquele terraço do hotel, o mar turqueza-transparente apetece ainda mais. O hotel é grande, desmedido, e foi herança de ingleses e alemães que há muito deixaram aquelas paragens. Decadente mas digno, alberga os turistas que chegam a uma ilha que é um misto de poesia e aventura, onde os táxis têm buracos no chão e as pessoas têm memórias antigas e sabem coisas primordiais. Uma ilha onde os corvos cantam o entardecer e os pescadores louvam o amanhecer. Zanzibar é um interminável devaneio onde volto vezes sem conta nos meus sonhos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No terraço do hotel há muitas mesas espalhadas, desalinhadas, que nunca ninguém conseguirá arrumar de outra maneira. O desalinho é fascinante, não perturba o olhar, e a ordem natural ali é cada coisa ocupar o seu lugar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Os rapazes de calças pretas e camisa branca com laço que atendem os turistas andam para trás para a frente numa dança impossível sem nunca chocar ombros nem bandejas. Antecipam passos e gestos com alegria e elevam as bandejas ao ar antes de se cruzarem. Todos atendem todos e há quem chegue a atravessar o terraço de um lado ao outro para responder a um aceno longínquo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Alguém lhes tenta demonstrar que, com método e uma matemática simples, podem caminhar menos e ser mais eficazes. Cinco mesas a cada um em vez das quarenta mesas servidas por todos bastaria para ficarmos mais bem servidos mas eles têm dúvidas. Preferem o caos e a multiplicação dos caminhos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;À mesma mesa podem servir sete ou oito e demorar uma eternidade a cumprir o serviço mas eles pouco importa, a vista é bonita e a espera não custa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Um dos rapazes fardados, conhecido pela colecção de sapatos extravagantes de pele de crocodilo de cores berrantes que tem, ali usa sapatos discretos e sem história. Alguém repara no pormenor e pergunta pelos outros sapatos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;- Aqui não, senhor. Não dão com o pavimento!&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 19 Dec 2008 18:15:53 GMT</pubDate>
  <title>Os pedófilos &apos;amigos&apos; das crianças</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/176734.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;404&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;300&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://plab.blogs.com/photos/uncategorized/2007/10/02/06.jpg&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há nomes que vale a pena fixar e o de João Sarmento Pereira é um deles. Neste caso pelas piores razões. Ouvi este nome no Telejornal no princípio da semana, no mesmo dia em que foram presos em Espanha 121 suspeitos de envolvimento numa das maiores redes de pornografia infantil.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A rede é um terrível polvo de mil tentáculos que espalha o mal pelo mundo e a própria polícia espanhola revelou que o material apreendido continha fotos e vídeos arrepiantes feitos com bebés e crianças muito pequenas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A sequência de notícias relativas a abusos de menores neste dia começou com a divulgação das prisões feitas pelas autoridades espanholas e seguiu para o caso português de João Sarmento Pereira, de 21 anos, acusado de 6 crimes de abuso sexual a menores e condenado a dois anos e meio de cadeia, a quem foi concedida a liberdade a troco de tratamento psiquiátrico.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Por razões que ultrapassam o entendimento do comum dos mortais, este abusador de crianças retomou a sua vida normal e cumpre agora uma pena suspensa com toda a liberdade e apenas a obrigação de ir a umas consultas no psiquiatra. Acho extraordinário que assim seja e acho muito grave que este homem possa continuar a exercer a sua profissão de professor primário.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Para percebermos o que está em causa e avaliarmos a extensão deste fenómeno de benevolência judicial vale a pena voltar aos factos e apresentar o professor. A acreditar no que vi e ouvi na televisão e não vi desmentido depois em lado nenhum, este rapaz começou aos 18 anos a estagiar num colégio em Carcavelos onde tinha um contacto diário muito próximo com as crianças. Um contacto muito íntimo, para sermos mais exactos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O rapaz ajudava as crianças a vestirem-se e despirem-se para as aulas de ginástica e fazia-se valer da sua supremacia física para abusar das crianças e as assustar ao ponto de elas não serem capazes de contar em casa o que lhes acontecia na escola. Tanto quanto percebi houve abusos mais graves e menos graves mas eu, que não sou juiz mas sou mãe, considero tão grave a ‘manipulação dos genitais’ de uma criança como a violação ou ‘tentativa de penetração’.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Admito que os que julgam precisem de evidências físicas de violação para condenar mas sei (todos sabemos!) que não é preciso haver consumação da violação para deixar marcas indeléveis numa criança e traumatizá-la para sempre. E este é o ponto sobre o qual assenta a minha argumentação sobre um caso que me parece eloquente de uma brandura excessiva e de uma leviandade intolerável.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Falo da brandura dos juízes e da leviandade de quem permite que este homem mantenha a sua carteira profissional de professor primário, podendo exercer a profissão num meio em que a proximidade física de crianças pequenas pode potenciar situações de abuso como as que ficaram provadas no passado recente.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Compreendo as mães e pais das crianças abusadas que foram ouvidas pelo jornalista e apareceram na televisão em contra-luz para não se ver a cara. Estou solidária com a sua indignação e a sua dor porque não se trata de uma vingança mas sim da mais elementar justiça. Como é que um rapaz que fez o que fez aos seus filhos pode estar em liberdade e continuar a ser professor primário?&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Será que os juízes e os especialistas que os aconselham não sabem que o pior pedófilo é sempre o ‘maior amigo das crianças’? É sempre o que parece bom, que se faz amigo, que se torna confiável e depois usa todo este capital de simpatia e proximidade para actuar com frieza, premeditação e perversidade.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ou será que os juízes acreditam sinceramente que o rapaz está profundamente arrependido e não vai repetir? Há estudos científicos que provam que esta compulsão para o abuso sexual de menores pode durar uma vida inteira e mesmo que neste caso haja um forte arrependimento é inquietante saber que alguém condenado por seis crimes de abuso sexual anda por aí à solta e mais tarde ou mais cedo vai voltar à escola e ao contacto com as crianças que, por definição, são o seu alvo preferencial e as potenciais vítimas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Quem nos garante que este homem fica curado com um tratamento psiquiátrico? E quem se responsabiliza pelo seu acompanhamento, pela sua evolução mental e moral, e se responsabiliza por ele no futuro? É essencial fazer as perguntas porque alguém tem que ter as respostas para o deixar em liberdade permitindo-lhe continuar a ser professor primário.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Se insisto em deixar escrito o nome deste homem não é para o voltar a condenar pois não me compete a mim fazê-lo, mas para que mais pais e directores de escolas saibam com o que contam se lhes bater à porta um homem que sendo professor traz consigo outras credenciais.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Como cidadã e como mãe tenho o dever e o direito de sublinhar as minhas reservas quanto a casos destes, em que aparentemente não houve reparação dos danos nem sequer a obrigatoriedade de prestar serviço cívico na comunidade para dar de volta parte daquilo que roubou.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na impossibilidade de devolver a integridade física, moral e emocional às crianças que abusou e de reparar o sofrimento que lhes provocou a elas e às suas famílias, devia existir a obrigação de cumprir uma pena cívica que o reabilitasse a ele e, ao mesmo tempo, nos desse a nós a certeza de que este homem está apostado em regenerar e em conquistar a confiança que neste momento ninguém pode ter nele até conseguir provar o contrário.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Repugnam-me os pedófilos e tarados cuja compulsão é repetir o crime de abuso sexual a menores. Nesta lógica confesso que defendo a castração química para alguns dos condenados por este tipo de crime. Mais do que uma medida de protecção para os nossos filhos e ainda mais do que um castigo aos abusadores é um favor que lhes fazemos pois é raro o que não volta ao local do crime mais do que uma vez.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há quem ache uma medida excessiva mas assumo que, para mim, seria a medida certa. Não percebo porque é que havemos de continuar a acreditar mais na voz de um criminoso do que nas das suas vítimas. &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;  &lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>militância cívica</category>
  <category>protestos</category>
  <category>acontecimentos trágicos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Tue, 16 Dec 2008 19:54:34 GMT</pubDate>
  <title>Ainda o concerto de Alfred Brendel em Barcelona</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/174705.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.musicintheround.co.uk/useruploads/alfred_brendel.jpg&quot; alt=&quot;&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;(crónica escrita para o Público de sexta-feira passada) &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei que devia resistir mais uma semana e publicar só na próxima sexta este texto sobre Alfred Brendel mas não consigo esperar mais. Desde que o ouvi em Barcelona, na derradeira digressão da sua vida e num dos seus últimos recitais públicos, neste &lt;i&gt;countdown&lt;/i&gt; ao mesmo tempo exaltante e triste, que me apetece escrever sobre este homem apaixonante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Brendel é, como sabemos, um dos maiores pianistas contemporâneos mas como não ‘reduz’ a sua arte à interpretação musical e tem um leque amplo e variado de interesses, decidiu acabar a sua carreira pública de concertista e dedicar-se à poesia e à literatura. Um homem que transporta consigo o rótulo de “pianista intelectual”, que na década de 60 foi o primeiro a gravar a obra integral de Beethoven e depois construiu uma imensa obra discográfica que se converteu num monumento artístico colossal do séc.XX; um intelectual que publicou ensaios e poesia (alguma dela humorística, note-se) e que confessou aos jornalistas da BBC que um dos seus passatempos preferidos é o riso, só pode ser um homem muito completo e especial. Um portento musical e um talento cheio de talentos.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na próxima sexta-feira Alfred Brendel dá o último recital da sua vida em Viena e, daí, a minha ideia de esperar pela próxima semana para aproveitar o clima emocional desse dia. Gostava de conseguir, mas não consigo. A homenagem que gostaria de lhe prestar no dia 18 vai com uns dias de antecedência mas a culpa não é minha, é dele.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ouvi-lo tocar, vê-lo ao piano naquela proximidade íntima de quem se senta à sua volta para escutar a sua música e ver como dançam os seus dedos e se inclinam os seus ombros, sentir o silêncio solene de uma sala enorme cheia de pessoas comovidas com a presença do pianista, fechar às vezes os olhos enquanto ele toca e abri-los no momento exacto em que levanta as mãos depois do último acorde, ainda com o som a elevar-se no ar, foi uma experiência de quase transcendência.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Brendel nunca quis sobrepor a sua arte à dos compositores e, por isso, foi rigoroso no escrúpulo com que os interpretou e trouxe até nós a música que eles queriam que se ouvisse. Esta forma de tocar os grandes, fazendo-se pequeno é fabulosa porque mantém intacta a pureza inaugural dos maiores compositores de sempre.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ouvir Beethoven ou Haydn ou Mozart tal como eles queriam ser ouvidos, sem efeitos nem extravagâncias para além das que os próprios autores escreveram, é maravilhoso mesmo para quem, como eu, é razoavelmente leiga em matéria de cultura musical.Gosto dessa pureza e gosto de ser levada nesse caminho dos Mestres da composição pela mão dos Mestres da interpretação.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Não é possível descrever os sentimentos que se sentem ao ouvir um pianista como Brendel tocar a Última Sonata que Schubert escreveu antes de morrer e é a sua despedida à vida. É uma peça intensa que atravessa todos os registos da interpretação lírica e nos faz ir da tristeza à euforia, do êxtase à dor e convoca sucessivos estados de alma.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na sala do Palau de La Musica em Barcelona sentia-se o perfume das senhoras e essa mistura indizível de gente que escolhe o fato adequado à cerimónia e usa acessórios simples ou requintados mas demoradamente pensados para não brilharem nem fazerem ruído. Estas pessoas sabem que nada nem ninguém pode brilhar mais ou tocar mais alto do que o próprio Brendel e também esta contenção cerimoniosa e grave encanta e comove naquela imensa sala de vidros e porcelanas, madeiras e veludos, onde a música se espalha e se ouve como se todos estivéssemos sentados à volta de Brendel, no canto da sua casa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Brendel tocou a alma e o coração de todos os presentes. No fim do recital Alfred Brendel voltou ao palco para três encores sublimes. E mais uma vez sussurrou partes das músicas enquanto as suas mãos percorriam as teclas e o seu piano tocava as nossas fibras mais sensíveis.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Brendel desperta sempre emoções profundas mas aquela era a última vez que o víamos num palco de Barcelona e a grande despedida ficou marcada por ovações intermináveis e lágrimas contidas ou derramadas dos que choravam o adeus mas, também, a infinita gratidão perante um homem de 77 anos que se retira no auge da sua carreira porque ainda quer fazer muitas outras coisas antes de morrer.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;img height=&quot;240&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://blogs.guardian.co.uk/music/brendel460.jpg&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>momentos únicos</category>
  <category>músicos</category>
  <category>talentos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Fri, 05 Dec 2008 19:29:09 GMT</pubDate>
  <title>Um amor com quase vinte anos</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/169513.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/3021/2775360475_39f012c3ce.jpg?v=0&quot; /&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(crónica escrita para o Público de hoje)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembro-me da primeira vez que a vi. Tinha curiosidade em saber como era a cara daquela mulher de voz decidida que aceitou ao telefone uma proposta de emprego sem a menor hesitação, apesar de nunca ter trabalhado a dias. Tinha uma pequena lavandaria de bairro, era senhora das suas horas, dona da sua casa e do seu tempo, mas queria mudar de vida. Casada com um homem vinte anos mais velho que não trabalhava há muito e se limitava a fumar a modesta pensão que recebia, estava cansada de o ouvir queixar-se e enjoada do fumo dos cigarros em toda a casa. Toda a casa é uma forma de expressão pois trata-se de uma sala e um quarto que caberiam facilmente no hall de entrada de uma casa maior. Em todo o caso é a sua morada e apesar de ter um espaço exíguo é bonita e sempre muito arranjada, com traves de madeira clara no chão e uma luz que se derrama do alto da Graça e brilha com os reflexos do rio.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No dia em que se apresentou em minha casa tocou à porta lá em baixo e depois teve que subir cinco andares a pé. Fiquei cá em cima, a vê-la subir, tentando adivinhar como seria. Precisava de alguém como ela mas ainda não sabia se seria ela. Reparei no cabelo bem cuidado, com um penteado ao alto, e no estilo impecável de senhora que também não sabe exactamente ao que vem. Estendeu a mão para me cumprimentar e abriu um sorriso franco. Tímido também, talvez.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Sentámo-nos, ela com a sua carteira pousada no colo e as mãos cruzadas, eu com um bebé de três dias nos braços a dormir. Perguntei-lhe o nome e o que fazia. Explicou a lavandaria de bairro, contou vagamente e com algum pudor que o marido era doente reformado e porque tinha uma pensão muito pequena ela precisava de trabalhar mais. Teve o cuidado de avisar que nunca tinha trabalhado em casa de ninguém mas estava disposta a isso porque a vida é assim e o trabalho nunca a assustou.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Olhava para mim enquanto falava e gostei dessa sua maneira de olhar nos olhos. Pareceu-me nova mas experiente apesar de não ter tido filhos. Imaginei que andasse pelos quarenta anos e mesmo sem perguntar ela disse que sim mas que trabalhava desde os nove. Percebi de onde vinha o ar experiente e essa capacidade de olhar sem desafio nem dúvida. Gostei dela e da sua verdade e impressionou-me a sua história de vida, claro. Uma infância de conto de Dickens, com trabalhos pesados em invernos gelados em que todos os dias começavam de madrugada e acabavam depois da ceia. Adoptada por uma tia impiedosa, era forçada a tarefas hoje impensáveis para uma criança de 9 anos. A tia nunca se comoveu com o frio nem o calor, muito menos com os sonhos ou os pesadelos de uma rapariga arrancada à sua família demasiado cedo. Obrigou-a a trabalhar sempre e muito, e foi assim que ela cresceu e se fez uma mulher. Como um azar nunca vem só, casou muito nova com um homem muito mais velho que lhe exigiu o que só ela e Deus sabem.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Sabemos que a história das mulheres e a história dos homens não têm nada a ver uma com a outra. Os mesmos séculos, as mesmas épocas, as mesmas guerras e os mesmos tempos de paz, mas uma história sempre desigual. Um abismo de distância a separar uns e outras. Os homens e as mulheres, quero dizer. A vida desta mulher foi uma exigência permanente e muitas vezes um desafio atroz. Sem tréguas, sem ajudas, sem consolos nem descanso e sem se poder queixar sequer. O homem que lhe tocou e podia ser seu pai veio cavar ainda mais fundo este abismo de distâncias e acrescentar infortúnio. Há histórias assim e há mulheres que cumprem fielmente este destino mesmo sabendo que o que as distingue dos seus homens é a inteligência com que aparentam uma servidão mas cultivam a liberdade no seu coração. Paradoxalmente esta mulher tantas vezes seviciada e escravizada soube manter-se livre interiormente. De certa forma também escapou ao seu destino quando decidiu dar o passo que a levou até minha casa naquele dia. Olhando para ela, bem apresentada e cuidada, ninguém diria de onde vinha e para onde voltava. Para uma casa sem espaço onde um homem arrasta os pés e os queixumes entre nuvens de fumo que sufocam mas não matam e, sobretudo, não lhe quebram a força com que continua a gritar, a acusar e a martirizar a mulher que o sustenta e atura.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conversámos um pouco naquele dia. O suficiente para ficar decidido que entraria no dia seguinte em minha casa. Agora, que passaram quase vinte anos, a casa já é tão nossa como dela. Não sei precisar onde nem quando é que as coisas se transformaram ao ponto de nos sentirmos da mesma família, de olharmos uns para os outros sem distância nem diferenças, de a reconhecermos como uma mãe, uma tia, uma avó ou uma amiga de toda a vida. A confiança radical que senti no primeiro dia afinal era absolutamente real, não tinha nada de enganador, e foi-se revelando nos pequenos gestos de entrega no dia-a-dia.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nos primeiros tempos cabia-lhe cuidar de um bebé e de uma casa grande onde moravam quase sempre cinco pessoas. Mais tarde começou o ritual de ir buscar o ‘seu’ menino à escola a meio do dia e ia e vinha com ele pela mão como se fosse o filho que nunca teve. Vi-a algumas vezes subir a calçada com ele e comoveu-me sempre o amor com que o tratava e o orgulho com que avançava com ele pela rua. Perguntaram-lhe muitas vezes se era filho ou neto e ela respondia que não mas sei que tinha outras certezas do seu coração. E sei porque ainda hoje fala dele como o ‘nosso’ menino. Meu e dela, claro.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há quase vinte anos que esta mulher forte e dedicada faz parte da nossa vida e eu acordo e adormeço dia após dia com a noção do privilégio que é viver com este apoio em casa. Com a presença alegre de uma mulher para quem a vida familiar é um triste deserto (martírio seria a palavra certa) mas cuja aridez nunca a deixou vazia ou amarga. Muito pelo contrário.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ouço-a falar de coisas da vida, da sua vida, e percebo a dificuldade que é aguentar tudo e tanto. E, no entanto, raramente a vejo chorar ou desanimar. Entra e sai da casa sempre bem vestida e mesmo nos dias piores em que qualquer pessoa desiste facilmente de si e de se arranjar, ela encontra forças para se cuidar. Tenho admiração por esta força que a anima e que a leva a carregar uma cruz pesada sempre ao alto. A prumo e nunca arrastada pelo chão. Poucas mulheres com a sua vida e a sua história seriam capazes desta proeza diária e daí também a minha admiração. Não vive a queixar-se e raramente conta tudo o que poderia contar mas nos dias piores percebo a dimensão da sua realidade e a extensão da sua dor. E admiro-a ainda mais por não desistir nem quebrar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nunca falta ao trabalho nem nunca deixa nada por fazer e também nisso é admirável. Fazia-o quando éramos cinco em casa e havia um bebé que pedia colo e chorava por mimo ou por causa dos dentes a nascer, e fá-lo agora que somos menos em permanência a viver mas quase sempre muitos à mesa para comer.    &lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conhecendo-a como conheço sei que é uma mulher invulgarmente inteligente e atenta ao mundo à sua volta. Se tivesse estudos seria ministra, provavelmente. Digo-lhe isto e ela ri mas sei que as suas gargalhadas francas têm quase sempre lágrimas escondidas. Espanta-me essa capacidade de calar fundo as dores mais antigas mas também me espanta sempre o sentido de humor com que reage às situações e lida com a adversidade. Faz-nos rir a nós e também por isso a sua ausência nota-se mais quando fecha a porta ao fim do dia e vai pela rua abaixo apanhar o eléctrico, com o seu cabelo ao alto sempre bem penteado e as suas roupas elegantes de senhora fina. Quem a vê não adivinha a vida que vive nem as dores que a trespassam.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Agora que escrevo sobre ela e a vejo andar para trás e para a frente na sua lida em silêncio, sem saber exactamente sobre o que escrevo no computador, dou comigo a dar mais uma vez razão a todos os que a conhecem e adoram e me dizem que não há muitas pessoas assim. Eu sei que não há e sei o que lhe devo e é por isso que escrevo.    &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;   &lt;span&gt;        &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>intimidade</category>
  <category>as vidas dos outros</category>
  <category>pessoas e coisas muito importantes</category>
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  <pubDate>Fri, 21 Nov 2008 20:01:13 GMT</pubDate>
  <title>Crónicas do Público de hoje</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/LKZcf9kKihrHPoQyE3Qc&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/LKZcf9kKihrHPoQyE3Qc/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;As Tristes Luzes de Lisboa&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Da noite para o dia a cidade apareceu enfeitada de Natal mas este ano as luzes de Lisboa são tristíssimas. À excepção de dois ou três passeios considerados mais nobres e, por isso, com direito a uma iluminação quente e vibrante, todas as ruas têm luzes azuis, frias, geladas, sem graça e pior, luzes que choram. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, o efeito mágico mais natalício que se inventou foi pôr lágrimas de luz a escorrer pelos fios, numa ilusão permanente de um choro silencioso que entristece e não apetece. Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única? Pior do estas luzes azuis e frias do Terreiro do Paço e das avenidas só um Pai Natal vestido de pijama azul eléctrico.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Sugiro que no próximo ano os responsáveis pelas iluminações revejam os catálogos de cores e ajustem os preços das lâmpadas festivas com os patrocinadores, negociando com eles a possibilidade de recuperar para o Natal as cores do Natal. &lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-large&quot;&gt;&lt;b&gt;Teste a sua inteligência dominante&lt;/b&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span&gt;       &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://acertodecontas.blog.br/wp-content/uploads/2007/10/einstein.jpg&quot; /&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Desde que Daniel Goleman e os seus discípulos enunciaram outras formas de inteligência para além da que era possível medir através dos convencionais testes de QI, passámos a saber que existe um espectro largo de inteligências nas quais se incluem a emocional, a espacial, a corporal, a relacional, a artística, a existencial, a lógica, a afectiva, a relacional, a espiritual, a intuitiva e outras.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ou seja hoje em dia não é possível falar de inteligência única mas sim de inteligências múltiplas, numa amplitude e profundidade que interpelam e obrigam a pensar. Desde já porque a aceitação de uma realidade investigada e provada pelas neurociências estabelece novos patamares de avaliação e outro poder de encaixe.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Os professores, os educadores, os empregadores e as pessoas em geral deixaram de poder contar com um teste que durante décadas foi um modelo universalmente usado para medir e rotular a inteligência de cada um. Hoje em dia poderemos talvez testar a nossa inteligência dominante mas não a inteligência em absoluto, pois os testes de QI não têm em conta a variedade possível.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Um teste de QI convencional não mede as competências relacionais, os dons manuais ou a inteligência artística, por exemplo. Nem avalia a capacidade de introspecção e pode nem sequer chegar a medir a inteligência lógico-verbal se não tiver em conta a capacidade de pensar e usar a linguagem para exprimir ideias.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Uma vez que não sobram dúvidas científicas sobre a quantidade e a qualidade das inteligências múltiplas é urgente complementar os testes de QI (para quem os faz e porque podem ser importantes em casos concretos) com outras formas de avaliação que compreendam o potencial de evolução de cada um, a sua capacidade de adaptação ao meio (e a circunstâncias mais ou menos adversas), que avaliem as competências sociais e relacionais, que testem a inteligência lógico-matemática e analisem a originalidade e a criatividade. Tudo isto num esforço de aceitação de que o lendário QI por si só é um critério perigoso, redutor e, por isso, muito enganador.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;Outras coisas que faltam nas nossas escolas&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/A5HAtTymsaRVzs8gTrpZ&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;212&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/A5HAtTymsaRVzs8gTrpZ/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No meio de tanto barulho e perturbação nas escolas, numa fase de braço de ferro em que muitos se desentendem, poucos se ouvem e menos ainda se acertam, vale a pena trazer à discussão outras questões tão ou mais importantes do que a avaliação dos professores e o sistema de faltas dos alunos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Falo de lacunas graves em matérias essenciais no sistema de ensino português, falhas que mais à frente, na idade adulta e segundo os critérios do mercado de trabalho, se revelam perversas na medida em que condicionam as escolhas profissionais e até a progressão em certas carreiras.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nas escolas portuguesas os alunos não são ensinados a argumentar e a defender pontos de vista, não são treinados no debate de ideias e muito menos estimulados no improviso e na expressão oral. Não existem aulas para aprender a falar em público nem as matérias relacionadas com a comunicação são muito exploradas e é pena pois os portugueses apresentam sérias desvantagens num campo cada vez mais exigente e determinante.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Numa era claramente marcada pela comunicação, ter dificuldade em exprimir ideias, em alimentar um debate ou manter uma polémica com quem tem opiniões divergentes é um handicap tremendo. A diversidade de dons é e será sempre enorme e hoje em dia ganha mais quem comunicar melhor aquilo que sabe.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Tão importante como pensar e fazer bem as coisas é saber comunicá-las. Acontece que no sistema de ensino nacional não existem cadeiras específicas de comunicação e o resultado é que a generalidade dos portugueses não se sente confiante na expressão verbal das suas ideias e competências.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Passo a vida em conferências, seminários, workshops, encontros e discussões públicas sobre inúmeras questões e saio de lá quase sempre com a frustração de ver que os conferencistas nacionais são os mais chatos e os mais abstractos. Usam powerpoints palavrosos e incrivelmente densos, limitando-se a debitar em alto o que está escrito no ecran que é projectado ao lado.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Sempre que alguém fala para uma plateia desta forma dá um tiro no pé. A audiência não consegue acompanhar nem as palavras escritas nem as palavras ditas e, por isso, a comunicação é nula. Um desperdício em toda a linha, portanto.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há os que escrevem o que querem dizer para não correrem o risco de se esquecerem ou para manterem uma coerência discursiva impecável ao longo da sua intervenção mas também estes falham muitas vezes a comunicação por uma razão simples: enquanto lêm o papel não olham para a plateia e não falam verdadeiramente com quem está presente. Até podem dizer coisas bem articuladas do ponto de vista literário mas como não adaptam o discurso às circunstâncias, não percebem para quem falam nem se detêm na eficácia daquilo que comunicam.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Salvo as raras e honrosas excepções dos que têm essa maravilhosa capacidade de ler um texto como quem conversa, usando um tom coloquial e um estilo simples, todos os que lêm um papel em alto tornam-se monótonos. Pior, como trouxeram as coisas escritas de casa e não fazem nada de improviso, tudo aquilo soa a ‘minuta’. Ou seja, a coisa que tanto pode ser dita aqui como repetida ali.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Por tudo isto e porque é nas escolas e nos liceus que estas competências devem ser adquiridas e treinadas não me canso de falar sobre a gravidade desta lacuna no nosso sistema de ensino. O que me cansa é ouvir chatos muito chatos.&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://nildofreitas.com/v1/files/COMO-FALAR-EM-PÚBLICO-1.JPG&quot; /&gt;       &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;http://nildofreitas.com/v1/files/COMO-FALAR-EM-PÚBLICO-1.JPG&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;imagem tirada deste blog&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span&gt;    &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>protestos</category>
  <category>coisas da vida</category>
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  <pubDate>Sat, 08 Nov 2008 01:22:00 GMT</pubDate>
  <title>Esta é a América que Rosa Parks sonhou!</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/156561.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;img height=&quot;306&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.hurriyet.com.tr/_np/1458/6761458.jpg&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; (Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, dia 7 de Outubro)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;Se fosse viva, &lt;b&gt;Rosa Parks&lt;/b&gt; teria agora 95 anos e teria certamente votado Obama. A lendária activista que no dia 1 de Dezembro de 1955 se recusou a levantar-se no autocarro para dar o seu lugar a um branco, e depois lutou arduamente contra a segregação racial durante toda a sua vida, teria ficado muito contente com esta vitória e sentiria que era finalmente esta a América dos seus sonhos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Obama referiu Ann Nixon Cooper no discurso de vitória, no momento em que celebrava a sua eleição num país ainda minado de preconceitos raciais, e ao dar um nome e uma cara a esta pacífica mulher negra de 106 anos que vive em Atlanta e contribuiu para que fosse eleito presidente dos Estados Unidos, Obama recordou obrigatoriamente &lt;b&gt;Rosa Parks, Irene Morgan, Sarah Louise Keys&lt;/b&gt; e tantas mulheres e homens que heroicamente contribuíram para que a igualdade de direitos fosse uma realidade, personificada agora nesta sua eleição.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Obama declarou que Ann Nixon Cooper “nasceu apenas uma geração depois da escravatura e viveu numa época em que não havia automóveis nas estradas nem aviões no céu; em que uma pessoa como ela não podia votar por duas razões: porque era mulher e por causa da cor da sua pele” e ao proclamar este exemplo sublinhou a sua vitória histórica num país profundamente marcado por divisões de classes e confrontos raciais.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há pouco mais de um ano Obama declarava no seu livro &lt;i&gt;&lt;b&gt;The Audacity of Hope&lt;/b&gt;&lt;/i&gt; que é um homem prisioneiro da sua biografia. “Não posso deixar de contemplar a experiência americana pelos olhos de um negro com origens mistas, que carrega para sempre no espírito a forma como eram subjugadas e estigmatizadas gerações de seus semelhantes, bem como as formas mais ou menos subtis como a raça e a classe social continuam a moldar as nossas vidas. Mas não sou só isto.”.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Obama ganhou, meio mundo vibrou e ainda não se calou. Este homem que fatalmente há-de desiludir muitas pessoas, como ele próprio sempre soube e admitiu logo no discurso inaugural, ganhou muito mais do que uma eleição presidencial. Venceu o preconceito, renovou a esperança e provou que “é pelo sonho que vamos”.&lt;/div&gt;</description>
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  <category>talentos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>actualidade política</category>
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  <pubDate>Sat, 08 Nov 2008 01:13:30 GMT</pubDate>
  <title>Detesto estes gestos obscenos no meio do trânsito!</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/156329.html</link>
  <description>&lt;p&gt;(Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, 7 de Outubro)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img height=&quot;260&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.treehugger.com/road-rage-hypermiling-001.jpg&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Detesto gestos obscenos feitos com raiva, arrogância e desprezo no meio do trânsito. Detesto más maneiras e gente castigadora que usa e abusa de palavrões a propósito de tudo e de nada. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Numa semana marcada por situações de descontrolo ao volante, em que assisti a duas cenas caricatas protagonizadas por pessoas aparentemente de bem, gente que habitualmente não se excede nem grita, ocorre-me falar do conceito &lt;b&gt;&lt;i style=&quot;&quot;&gt;road rage&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; que, afinal, é um fenómeno universal.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Está estudado que todos ficamos potencialmente mais agressivos quando estamos ao volante, e é interessante explorar o que dizem os especialistas em comportamento nesta matéria tão sensível como explosiva da fúria de guiar.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Dos mais pacatos aos mais nervosos todos temos alterações de comportamento quando guiamos um carro. Ninguém escapa à regra e, ao que parece, não há excepção. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Pais dedicados e tranquilos gritam obscenidades em frente dos filhos só porque o taxista da frente parou na berma sem fazer pisca; mulheres educadas e competentes perdem a cabeça e dizem palavrões de rajada porque um carro se atravessou no seu caminho; senhores todos postos por ordem fazem gestos ameaçadores quando se sentem pressionados por uma buzina mais insistente; jovens ditos normais transformam-se em seres coléricos quase bizarros se alguém não os deixa ultrapassar, e até velhinhos e velhinhas podem transformar-se em pessoas verdadeiramente hostis na estrada.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Feliz ou infelizmente ninguém é imune à raiva nem ao espírito de retaliação quando está ao volante. Todos somos vulneráveis à ira e todos somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Há uns anos atrás escrevi sobre este assunto na revista XIS e agora retomo-o justamente pelas duas cenas de rua que presenciei em pleno centro de Lisboa e só não acabaram mal por absoluto milagre.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Leon James, psicólogo norte-americano que investiga as razões daquilo a que se convencionou chamar &lt;b&gt;&lt;i style=&quot;&quot;&gt;road rage&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; e orienta cursos de &lt;b&gt;&lt;i style=&quot;&quot;&gt;traffic psychology&lt;/i&gt; &lt;/b&gt;há mais de 30 anos, tem um método de investigação, ensino e treino muito particular: pede aos seus alunos que instalem câmaras de filmar dentro do carro e propõe-lhes que gravem livremente e sejam actores dos seus próprios filmes. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Em sucessivos anos de gravações, Leon conseguiu resultados prodigiosos na medida em que consegue analisar com muita precisão a forma como cada um reage a pequenos e grandes acidentes de percurso.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;O efeito espelho proporcionado pelas gravações é profundamente embaraçante mas altamente eficaz na correcção dos excessos. Isto porque devolve a cada um dos protagonistas e exacta medida da sua raiva, e revela até onde pode ir a sua agressividade. Mais, os vídeos permitem perceber a rapidez e a desproporção com que reagimos a estímulos insignificantes.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;A teoria sobre o fenómeno &lt;b&gt;&lt;i style=&quot;&quot;&gt;road rage&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; é vasta e abrangente e na impossibilidade de a resumir aqui, deixo as referências sobre a matéria e uma pista sugerida por Leon James que aconselha a adoptar uma &lt;b&gt;atitude de latitude&lt;/b&gt; na estrada. Ou seja, a ganhar distância e a resistir ao desejo de vingança ou retaliação que tantas vezes nos assalta quando estamos ao volante e tudo nos parece uma provocação. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Esta &lt;b&gt;atitude de latitude&lt;/b&gt; consiste em antecipar os erros dos outros, em concentrarmo-nos na eficácia e prudência das nossas próprias manobras em vez de nos desperdiçarmos a castigar perversamente os que se atravessam no nosso caminho. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Acima de tudo importa manter sempre uma certa distância de quem vai à nossa frente, ao nosso lado ou atrás de nós. Parece óbvio, não parece? Dito aqui, sim, mas vivido na estrada no cúmulo de nervos e stress habitual, as coisas não são assim tão fáceis. &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;margin: 0cm 0cm 0pt;&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;&quot;&gt;&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;font face=&quot;Times New Roman&quot;&gt;Leon aconselha muito sentido de humor e uma capacidade de encaixe superiormente ensaiada, na certeza de que os erros que os outros fazem hoje não são maiores do que os que nós fizemos ontem ou faremos amanhã.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>protestos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/153482.html</guid>
  <pubDate>Sat, 01 Nov 2008 15:55:57 GMT</pubDate>
  <title>O pequeno livro de um grande homem</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/153482.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/ZZbvQIrKZBGpFLHBfSoT&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/ZZbvQIrKZBGpFLHBfSoT/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(crónica escrita para o Público de sexta-feira, dia 31 de Outubro)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;Tenho na minha secretária um livrinho estreito e comprido, de apenas 70 páginas, que passou quase despercebido enquanto esteve enfiado numa das pilhas que se multiplicam sobre a madeira clara e ampla onde há de tudo, desde o colossal Paraíso Perdido de John Milton ao último micro-conto escrito por Juan Manuel de Prada, passando pelas Opiniões Fortes de Nabokov, pelos Scritti Sull’Arte de Rothko, uma de várias biografias de Yourcenar, os Retratos e Auto-Retratos de Vasco Pulido Valente, revistas de culto, colecções de contos, livros mais ou menos avulsos, muita poesia e um cúmulo de papelada chata sempre em atraso.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/kyq72vt3VZLvHzRdc9u7&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/kyq72vt3VZLvHzRdc9u7/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Olho para o pequeno livro, entalado entre Brodsky e Beckett, tiro-o da pilha e abro-o ao acaso. É uma colectânea de crónicas escritas no ano de 1990 por Alberto Vaz da Silva, com fotografias de Jorge Molder. As crónicas, publicadas no jornal Semanário, têm um título exclamativo e são eloquentes do espanto-à-flor-da-pele de Alberto, coisa que sempre me fascinou nele. “Ah!” era o título das páginas efémeras do jornal e é agora o nome do livro cujo destino é permanecer, mesmo quando teima discretamente em sumir-se entre as lombadas dos fortes e poderosos da escrita.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Li este livro quando me foi oferecido pelo próprio Alberto e lembro-me de o ter lido sempre com um sentimento especial. Qualquer coisa de indizível mas que aqui e ali se traduziu num sorriso pelo reconhecimento íntimo de uma figura; numa pausa provocada pela curiosa abstracção de quem (d)escrevia ou pela precisão de uma elaboração mais incisiva e interpeladora. Hoje voltei ao livro e tive a mesma sensação. Começa por haver uma página lisa e limpa onde se lê, em letra impressa, a palavra “Dedicatória”. Gosto desta ideia de abrir uma página especial para dedicar o livro, sem ter que disputar depois os espaços em branco entre títulos e sub-títulos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Esta página, onde Alberto escreve à mão aquilo que quer dizer a quem oferece o seu livro ou onde uns assinam para dedicar a outros, é apenas um detalhe eloquente da sensibilidade e delicadeza de alma de Alberto Vaz da Silva, que é um homem grande no sentido literal mas também no sentido mais profundo do termo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/L6PsRbPruIEwkwMWaTBL&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;233&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;184&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/L6PsRbPruIEwkwMWaTBL/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Conheci o Alberto há 25 anos numa casa muito bonita que tem numa pequena aldeia no alto de um monte debruçado sobre campos lavrados, com mar ao fundo. Helena e Alberto sempre revelaram o melhor de si mesmo nas casas que habitaram e esta era invulgarmente bonita. Acima de tudo, muito vivida e bem vivida. Ali chegavam e partiam filhos, netos, amigos e amigos dos amigos, e para todos eles havia um gesto acolhedor, um lugar próprio, um pequeno nada que fazia toda a diferença. Em dias frios, de vento salgado, a casa estava sempre quente e a cheirar a forno. Nos dias quentes as janelas ficavam abertas dia e noite e havia pátios e terraços para ficar a ver as estrelas e a ouvir os barulhos do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Nessa casa havia e há um pequeno mirante onde Alberto passava longas horas a olhar para o céu com o seu eterno espanto de rapaz que não se cansa de perguntar e voltar a perguntar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Os anos passaram e mesmo quando estivemos mais ausentes sabíamos que estávamos presentes. Aconteceram coisas muito boas e muito más, ganhos fantásticos e perdas dolorosas que partilhámos por pertencermos a um núcleo alargado de pessoas que se querem bem e gostam muito. Fomos cruzando caminhos e actualizando estórias, às vezes em festas ou casamentos de amigos, outras vezes em lanches que também eram tertúlias no jardim de Lisboa, outras ainda em conversas breves nos encontros de rua ao acaso.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Alberto Vaz da Silva foi advogado uma vida inteira sabendo de coração que o seu maior dom é o da decifração cósmica, esse desvendar consciente dos sinais do universo, essa interpretação maravilhosa dos mistérios da vida. Fascinado pela Astrologia e pela Grafologia (escritas com maiúsculas, note-se) correu mundo, conheceu gente, explorou bibliotecas e chegou muito longe. Sabe coisas que mais ninguém sabe e fala de traços e pontos com uma &lt;i&gt;assurance&lt;/i&gt; e uma luz admiráveis. &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Encanta-me esta sua ciência e apaixona-me o seu entusiasmo e, por isso, nunca me canso de o ouvir falar. Inscrevi-me num dos seus cursos de grafologia para saber mais sobre esta linguagem íntima que nos revela e surpreende. Fiquei a saber muito pouco mas a culpa não é do Alberto, é minha porque fiz apenas o primeiro módulo. A Grafologia é de tal maneira densa e complexa que são precisos anos de estudo aturado para começar a entrar na lógica e desenho das letras escritas por mãos que pousam no papel e deixam marcas indeléveis da personalidade.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Alberto tem uma voz forte e um discurso vibrante sempre que fala destas e outras matérias que nos transcendem. É impossível não ficar suspenso das suas palavras, dos seus raciocínios, da sua arquitectura mental e afectiva tão extraordinária como sedutora.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Hoje lembrei-me dele por causa do livrinho pousado sobre a secretária. Ia escrever sobre outras coisas mas ele prendeu-me a atenção e obrigou-me a mudar de ideias. E de rumo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;É incrível como um pequeno objecto, tão fino e discreto pode impor a sua presença desta maneira. Escondido entre obras volumosas, hoje gritou e eu ouvi. Não sei explicar estas coisas mas o Alberto sabe de certeza. E se, por acaso, não souber explicar pelo menos sabe compreender.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E termino a minha deriva com uma citação do livro, da primeira crónica em que Alberto se pergunta o que aconteceria aos homens se estabelecessem e mantivessem contacto com uma inteligência extraterrestre, e onde se interroga sobre quais as melhores pessoas e os saberes mais elevados que os terrestres poderiam levar consigo numa embaixada que pudesse dar aos outros uma imagem da Terra?&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;“Seria preciso meter à pressa num saco velho as guerras e os genocídios, a política mais primitiva, a palidez da imprensa, o mais ou menos vergonhoso abuso generalizado do poder sob a forma de dinheiro. Reunir-se-iam certamente os estandartes Galileu; Newton e Einstein, Leonardo, Miguel Ângelo, Homero, Shakespeare, uma selecção dos poucos vestígios autênticos da Antiguidade, talvez Empédocles, livros sagrados, Mozart e alguns mestres, sábios, santos e homens pacíficos do Oriente. Se fosse hoje, Gandhi, João XXIII e Gorbachev. Umas quantas formigas, marsuínos, frésias. E os cumes dos Himalaias.”&lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;span&gt;             &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 17 Oct 2008 17:20:38 GMT</pubDate>
  <title>The New Philanthropists</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Mc1BqmVcROSBbdhPqnuY&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/Mc1BqmVcROSBbdhPqnuY/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;A New Gen&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;Para muitos o conceito &lt;i&gt;new gen&lt;/i&gt; diz respeito às novas gerações. Está certo mas está, porventura incompleto. &lt;i&gt;New gen &lt;/i&gt;também se aplica a uma casta especial de novas e velhas gerações sempre que se fala da &lt;i&gt;new generosity&lt;/i&gt; dos filantropos modernos. De gente de todas as idades, raças, credos e feitios que têm em comum serem ricos e altruístas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Muito se tem dito e escrito sobre as fundações dos Bill Gates deste mundo que usam a veia para enriquecer e a fortuna para apoiar os mais pobres. Não é uma novidade, portanto. Mas é um tema que apetece explorar até porque é interessante saber mais sobre a maneira como uns e outros põem os talentos a render. Os que ajudam e os que são ajudados, quero dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Um dos livros mais apetecíveis sobre a matéria foi escrito e fotografado por Charles e Elizabeth Handy, um casal de ingleses (ele irlandês, radicado em Inglaterra) que publicou The New Philantropists (editora William Heinemann, London), uma colecção de perfis e retratos de homens e mulheres com propósitos humanitários em todos os cantos do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/PGrdfq5Ugh87Zallf45P&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/PGrdfq5Ugh87Zallf45P/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/zJopzFLpr1CzQ1KZG6Pp&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/zJopzFLpr1CzQ1KZG6Pp/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Charles Handy, economista com muita experiência na City de Londres mas também na Malásia, coordenou a London Business School, onde ainda é professor convidado,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;e é conhecido por ser o ‘filósofo da gestão’. Charles Handy analisa e sintetiza a substância da modernidade económico-financeira, neste tempo marcado por ciclos de mudança e evolução permanentemente trespassados por grandes paradoxos e incertezas. Alguns dos seus livros são referências incontornáveis para quem gosta ou precisa de interpretar os sinais dos tempos, e este de que falo não é excepção.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;The New Philantropists é um livro extraordinário até do ponto de vista estético pois as fotografias de Elizabeth Handy enchem as páginas de detalhes poéticos de alguma forma invulgares em escritos sobre estas matérias mais ou menos áridas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O casal decidiu entrevistar 23 filantropos de todas as nacionalidades para conhecer melhor os seus projectos e as suas motivações de fundo e o resultado é uma colecção muito sedutora de retratos, no sentido literal e literário do termo. As imagens de Elizabeth inspiram e o facto de ter pedido aos entrevistados que deixassem fotografar também um conjunto de objectos pessoais importantes para cada um deles revela uma intimidade desafiadora e uma profundidade maior.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Neste livro de capa dura e edição cuidada só há histórias de gente apostada em deixar este mundo melhor do que o encontrou e a variedade dos percursos profissionais, das histórias de vida e das derivas pessoais é fascinante. Citar aqui um exemplo é difícil pelo embaraço da escolha. Todos os entrevistados me parecem sugestivos. Por isso deixo a sugestão, passe a redundância.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/gzzZSNckIFOV7khwJOJy&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/gzzZSNckIFOV7khwJOJy/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/QhtDk0zFIRqE4CZc9CDu&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/QhtDk0zFIRqE4CZc9CDu/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;...........................................................................................................&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/HJWqZWQvyLKyDNz9Fzgy&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/HJWqZWQvyLKyDNz9Fzgy/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large&quot;&gt;&lt;b&gt;O Poder dos Insensatos&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E por falar em livros que prendem e modificam o nosso olhar sobre a realidade, não resisto a falar de um outro, ainda mais recente, editado há poucos meses pela Harvard Business Press, Boston.Também é um livro elegante de capa dura (adoro livros de bolso e livros de capa dura, vá-se lá saber porquê) e tem um título igualmente atraente: The Power of Unreasonable People.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Escrito por John Elkington e Pamela Hartigan, desperta para esta cultura emergente dos empreendedores sociais que medem o sucesso dos seus negócios pela quantidade de pessoas que conseguem ajudar e não pela quantidade de dinheiro que são capazes de ganhar. Soa demasiado romântico? Talvez. Utópico até, quem sabe. Mas é verdade que esta gente existe e anda por aí.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Pertenço a duas redes recém-criadas, uma de jovens empreendedores sociais e outra de seniors comprometidos com projectos de responsabilidade social e esta proximidade tem sido muito inspiradora. Revela outras pessoas e outra mentalidade. E indica que há coisas que estão mesmo a mudar. Ou seja há empresários de sucesso a criar mercados que transformam o mundo e o tornam um lugar possível.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E não falo apenas de Muhammad Yunus, note-se. Falo de outros como ele, mais ou menos anónimos, que contra toda a lógica investem em coisas que parecem impossíveis e mais à frente se convertem em soluções possíveis.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O livro começa com uma citação de George Bernard Shaw: “the reasonable man adapts himself to the world, the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man.”&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A definição assenta a muitos ‘loucos’ que conhecemos ou de quem ouvimos falar por terem criado projectos que aparentemente não encaixavam nos padrões habituais mas acabaram por revolucionar o sistema. Sabemos que os tempos de crise são, também, tempos de oportunidade e o que estes insensatos provam é que é possível remar contra a maré e até tirar proveito dos ventos mais desfavoráveis.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Livros como este e o outro de que falo no texto anterior rasgam o horizonte e mostram um universo em transformação. São livros poderosos que explodem como bombas na nossa vida, especialmente se o quotidiano é vivido numa lógica de sequência ou daquilo a que chamamos ‘mais do mesmo’. Aconselho um e outro, para ler com atenção e manipular com cuidado, portanto.&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>as vidas dos outros</category>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>talentos</category>
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  <pubDate>Fri, 10 Oct 2008 22:29:48 GMT</pubDate>
  <title>As minhas crónicas do Público hoje</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/143383.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img height=&quot;300&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/3233/2776023456_881f8f8a09.jpg?v=0&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;(Textos escritos para o jornal Público de hoje. &lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;http://www.flickr.com/photos/mourignac/page1/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;Fotos de João Francisco Moura, in Flickr&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;b&gt;Já não há nada a fazer? &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao longo da vida todos vamos ouvindo frases mais ou menos desagradáveis e daninhas mas nenhuma é tão perversa como esta: “já não há nada a fazer!”. Dita a um doente em fase terminal ou com doença incurável, é uma frase verdadeiramente assassina.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem nunca a ouviu, dê-se por muito feliz. Quem nunca a disse, tente permanecer deste lado da barricada. Quem alguma vez a proferiu perceba o alcance do tiro que deu porque quem a ouve, morre sempre um bocadinho. Começa a morrer naquele preciso minuto.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Condenar os vivos a uma morte em vida, é a pior condenação que conheço. E sei do que falo porque há anos que vivo com a memória do olhar de um amigo que me contou como era viver essa condenação num corredor de terminais de um hospital oncológico. Explicou-me como era acordar e adormecer todos os dias à espera de saber se era finalmente aquele o dia em que morria.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O meu amigo chamava-se Paulo, tinha a idade de um dos meus irmãos, fazia mergulho com eles e não lhe apetecia nada morrer. Muito pelo contrário, adorava viver, tinha uma predilecção especial pelo fundo do mar e contava tudo o que via. Passava horas a fio dentro de água e tinha o sonho de viver uma vida longa, que lhe permitisse explorar aquele mundo líquido de luz e sombras.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Aos 20 anos diagnosticaram-lhe um cancro e como era novo tudo aconteceu muito rápido. A doença evoluiu demasiado depressa e em poucos meses ele estava acamado na ala dos doentes terminais. Era duro visitá-lo porque era Verão. Fora do hospital havia sol e fazia calor, todos estávamos de férias, íamos à praia e mergulhávamos no mar de consciência pesada por podermos fazê-lo com inteira liberdade. &lt;span&gt;    &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;“ Disseram-me que já não havia nada a fazer e puseram-me aqui nesta ala onde só estamos à espera de morrer. É terrível. À noite tenho pesadelos e não consigo dormir mas há quem chegue a pôr as campainhas de urgência fora do nosso alcance para não podermos chamar ninguém. Acham que é tempo perdido porque vamos morrer e não sabem o que nos hão-de fazer.”&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Lembro-me do gesto que desenhou no ar com o braço, para me mostrar o que queria dizer. Era alto, tinha sido um desportista e, por isso, ainda tinha uma amplitude de gestos notável dado o seu estado clínico mas, mesmo assim, a mão não chegava à campainha pendurada num fio que alguém tinha posto num lugar realmente impossível de alcançar. Impressionou-me na altura e ainda hoje me faz impressão que haja profissionais de saúde sem vocação nem coração.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Paulo passou o último mês da sua vida naquele corredor de terminais. Morreu num dia que amanheceu igual aos outros, cheio de sol e luz. Nunca mais me esqueci da luz desse dia.E se agora conto tudo isto é porque hoje é (foi!) o dia de apresentar publicamente o primeiro estudo sobre Cuidados Paliativos que se fez em Portugal.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Às 15h30, na Fundação Gulbenkian, vamos falar sobre a importância de receber cuidados paliativos na doença crónica, progressiva, incurável e terminal. Digo vamos porque vou estar na mesa com Isabel Galriça Neto, especialista em CP, Carlos Liz o investigador que orientou e interpretou o estudo feito pela Apeme, e Marcelo Rebelo de Sousa que comenta os resultados do estudo em questão.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Eu estou na qualidade de voluntária numa Unidade de Cuidados Paliativos, onde testemunho semanalmente a preparação técnico-científica e a atitude humana e humanizante de toda uma equipa de profissionais especializados em proporcionar qualidade de vida aos doentes.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Naquela equipa nunca ninguém disse nem dirá que “já não há nada a fazer!” pela simples razão de que todos sabemos que “há tudo a fazer para dar qualidade de vida a uma pessoa doente!”.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;img height=&quot;141&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/3133/2608486359_5bf4e082c7.jpg?v=0&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;b&gt;O maior tabu da Humanidade&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A morte é o grande tabu da Humanidade. Todos estamos a prazo mas todos temos dificuldades em lidar com a morte.Nesta lógica e porque a esmagadora maioria das pessoas ainda associa Cuidados Paliativos a doentes terminais ou a ‘acompanhamento para velhinhos’, insisto que vale a pena abrir esta discussão e torná-la o mais abrangente e esclarecedora possível.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A simplificação do discurso ajuda imenso à compreensão e torna as coisas menos abstractas. Antes de definir exactamente o que são Cuidados Paliativos e a quem se destinam, gostava de contar só mais uma história que vivi à cabeceira de alguém muito querido e também muito novo, com um diagnóstico igualmente fatal.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;No hospital onde estava internado não havia profissionais especializados em Cuidados Paliativos mas apenas uma Unidade de Dor. Este serviço prestava um enorme apoio aos doentes e seus familiares mas tinha um grave ‘senão’: por questões administrativas esta Unidade apenas estava aberta das oito da manhã às oito da noite. Depois fechava e só abria na manhã seguinte. Ou seja, durante a noite não havia apoio aos doentes com dor. Isto, num piso onde as noites eram dolorosamente longas para todos os internados.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;De noite tudo dói mais. O corpo massacra e o espírito atormenta. Se nos acontece sentirmo-nos perdidos quando temos uma ‘simples’ dor de dentes durante a noite, como será ter um tumor cerebral que dá dores lancinantes e impossíveis de traduzir por palavras?&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Neste cenário de um hospital que tem uma Unidade de Dor cujo &lt;i&gt;guichet&lt;/i&gt; fechava pontualmente às oito da noite para abrir doze horas depois, vivi momentos de profunda angústia e assisti a crises horríveis que também jamais poderei esquecer. Dói sempre a dor dos que nos são queridos. Não sofremos o que eles sofrem mas magoa a impotência. Enche de raiva e frustração.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Passaram quase dez anos sobre esta história que agora conto e sobre a qual ainda me custa falar, e não voltei mais àquele hospital. Espero nunca ter que lá voltar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Por ter estado à cabeceira de três pessoas que me eram muito próximas e especialmente queridas e por ter assistido a sofrimentos desnecessários nos três casos, fiquei sempre mais atenta a esta realidade dos Cuidados Paliativos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Os meus dois amigos morreram sem estes cuidados e a Joana, minha afilhada que teve um cancro aos dez anos, sobreviveu a um calvário de operações e tratamentos sem este plus de ter uma equipa especializada em controlar e prevenir o seu sofrimento. Falo do sofrimento físico, que requer uma ciência muito sofisticada para afinar os cocktails de químicos, as terapias e os tratamentos, mas também falo do sofrimento moral e emocional dos doentes e de quem os acompanha.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Posto isto, importa desfazer o mito urbano que diz que Cuidados Paliativos são cuidados humanos prestados por pessoas boazinhas a velhinhos e doentes que estão a morrer. Não são. Esta ignorância sobre a matéria prejudica gravemente a nossa dignidade na medida em que nos impede de reconhecer um direito humano fundamental.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Todos temos direito a CP se tivermos uma doença grave, progressiva, incurável ou terminal. Ou seja, os Cuidados Paliativos aplicam-se a todas as idades e em várias doenças e não apenas a pessoas em estado terminal.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mais, os CP são cuidados especializados, técnica e cientificamente muito sofisticados, insisto, que exigem preparação técnica e estratégias de abordagem específicas. Também neste campo é essencial perceber que não se trata de uma legião de pessoas de boa vontade mas de equipas compostas por médicos, enfermeiros, auxiliares, psicólogos, terapeutas, técnicos e voluntários que prestam cuidados aos doentes e suas famílias adequados às suas necessidades únicas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E concluo sublinhando que numa era que os cuidados especializados no início da vida são um direito adquirido, é vital que este direito se estenda ao fim da vida e aos períodos em que estamos no auge da nossa fragilidade. Lutar pelos nossos direitos, mesmo quando eles mexem com o maior tabu da Humanidade é um exercício de cidadania.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;img height=&quot;300&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/3005/2588642200_04fff720fc.jpg?v=0&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;</description>
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  <category>direitos humanos</category>
  <category>cuidados paliativos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Sat, 04 Oct 2008 10:12:45 GMT</pubDate>
  <title>As minhas crónicas do Público ontem</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/7wu0nGapMVGNkGSiVUMm&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/7wu0nGapMVGNkGSiVUMm/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Um almoço&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Flores frescas nas jarras, compradas a meio da manhã num dia de sol e céu azul, já com aquele sopro do Outono. Um vento leve que toca nos ombros, que levanta o cabelo quando dobramos as esquinas da cidade e que faz com que as folhas que se desprendem das árvores não caiam logo no chão.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na loja das flores há um balcão de pedra em xisto preto cortado aos rectângulos largos, onde se pousam os ramos entre tesouras e fitas.A senhora de avental tira os espinhos das rosas e corta-lhes os pés com gestos rápidos e clics metálicos. Depois embrulha tudo em papel pardo. As flores ficam muito melhor naquele papel do que no celofane enfeitado das floristas de montra a dar para a rua.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Em casa separo ou junto as flores conforme as cores, e disponho as jarras em cantos e mesas que apanham sombra, porque as janelas estão sempre abertas para entrar mais luz e calor.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Somos seis à mesa para almoçar num dia aparentemente banal. Nem todos se conhecem mas cada um conhece pelo menos outro. Gosto de pontes e de encontros. Chegam à hora combinada e as conversas evoluem primeiro entre a sala e a varanda, onde as vozes ficam mais alegres e descombinadas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Quando nos sentamos há um breve silêncio inicial, sagrado e selado com palavras adequadas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Os telemóveis ficaram desligados dentro do bolso dos casacos arrumados noutra ponta da casa. A conversa correu livre e animada, sem quebras nem hesitações, numa confiança tal que ficou logo tecida uma cumplicidade para a vida, numa intimidade invulgar mas de certa forma anunciada.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Aqui e ali foram tocados patamares mais elevados do que é habitual em almoços do dia, onde tudo acontece a correr e as derivas resvalam fatalmente para a crise económica ou vão bater nos políticos e nos enredos partidários. Sem pressas mas com horas marcadas a seguir, todos nos deixámos ficar como se tivéssemos todo o tempo do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E foi nessa espécie de embalo que nos demos conta que já passava das quatro da tarde. E foi nesse tempo demorado, sem tempo, que reparei que todos os que estavam sentados à minha volta tinham olhos limpos, transparentes. Falo daquela transparência brilhante e rara que revela sempre uma alma lavada.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;b&gt;..........................................................................................................&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/EPzScPimB6HZRzMCqmAV&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/EPzScPimB6HZRzMCqmAV/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Um lanche&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Dias antes do almoço, um lanche no Porto, no Club Inglês. Uma tarde igualmente luminosa mas sem vento a trespassar as árvores seculares e sem fazer mexer as pétalas muito quietas das flores plantadas e cuidadas por mãos fortes de homens que ajoelham na terra.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Quando cheguei, a minha amiga estava a ler. Não me viu porque estava voltada de costas para a entrada. Tinha chegado primeiro e já tinha encomendado scones e chá para as cinco da tarde. Em ponto.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ficámos por ali em conversas avulsas entre risos e surpresas de agora, contadas como se fossem segredos antigos. Somos de gerações diferentes mas quando estamos juntas temos exactamente a mesma idade. Não consigo sequer lembrar-me que ela podia ser minha mãe. E podia.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Uma e outra guardámos a tarde para este encontro e, por isso, não houve questões com horas. Olhámos para o relógio apenas duas vezes: uma para conferir a combinação feita com outra amiga que chegaria pelas cinco e, mais tarde, para acertar a entrada com o quarto deste círculo íntimo, que ficou de aparecer pelas seis.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Às cinco chegou a amiga que podia ser minha avó mas também é como se fosse minha irmã e as conversas abriram com a mesma leveza com que se abre um leque de senhora na ópera. A música mudou e o filme da tarde também. Uma e outra são mulheres que atravessaram o século sempre à frente do seu tempo e continuam a abrir caminhos aos outros. Uma numa versão mais literária, outra mais psicanalítica, mas ambas com a mesma poesia e a mesma leveza na vida.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/hkE1MgkwieTjgEbjFz5l&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/hkE1MgkwieTjgEbjFz5l/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Licenciadas em Filosofia, falam de Espinoza com a mesma naturalidade com que comentam os acontecimentos do dia ou pedem manteiga em vez de doce para os scones. Não se levam demasiado a sério e é isso que faz delas mulheres sem idade.Por mim ficava ali com elas até ao anoitecer e depois montávamos três tendas, como se diz nas Escrituras.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Passava das seis quando chegou ele, o único homem entre três mulheres, e se apresentou com o sorriso de sempre e o olhar vibrante do costume. Também ele tem olhos limpos, transparentes, dou-me conta agora que escrevo. E também ele marca os outros pela maneira como olha e fixa o essencial.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Sentado na sua eterna cadeira de rodas é como se tivesse chegado a andar pelo seu pé. Se um dia se levantar e caminhar não me espanto porque é como o vejo: um homem com passo firme, que conhece a terra que pisa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E foi quando finalmente ficámos os quatro à volta da mesa que o tempo parou. À nossa volta cresciam as sombras e o mundo cobria-se de escuro. Antes de ficar noite acendeu-se no céu uma luz púrpura ardente colada ao fio do horizonte e foi essa luz que celebrou o entardecer de um dia que nunca há-de ter fim.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(o lanche foi com a Zilda Cardoso, a Maria Angélica Andresen Castro Henriques e o Bento Amaral)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;b&gt;.........................................................................................................&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/YWMQKpamzGBtTZCmmqi2&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/YWMQKpamzGBtTZCmmqi2/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;color: #ff6600&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium&quot;&gt;&lt;b&gt;Um projecto&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Um barco grande, todo branco, muito comprido e elegante chegou recentemente à baía de Cascais, vindo da Nova Zelândia. Dá-se por ele e apetece chegar a ele. É um Maxi Catamarã de 102 pés com um palmarés notável, construído há mais de 20 anos pelo lendário Nigel Irens, o Philippe Starck dos barcos, por assim dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Campeão do mundo, recordista de velocidade no mar e várias vezes premiado por proezas fabulosas contadas por velejadores oceânicos, ficou em segundo lugar na Oryx Quest em 2005 (regata à volta do mundo) e é um barco que mantém a sua integridade estrutural. Ou seja nunca virou no mar apesar da velocidade alucinante que atinge (um verdadeiro TGV que pode fazer 900km num dia!) e apesar de enfrentar ventos desencontrados em mares desordenados que quebram mastros e afundam embarcações porventura tão estáveis como esta.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Considerado o Maxi Catamarã com mais gabarito do mundo, está em Portugal a preparar-se para uma competição oceânica de circumnavegação que vai acontecer daqui a meses. Neste tempo do meio a tripulação vai afinando técnicas e ensaiando tempos mas, também, apurando (ou depurando, quem sabe) quem vai e quem fica em terra.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Gonçalo O’Neil, 42 anos, actual skipper, velejador sábio e experiente que já completou duas voltas ao mundo e obteve vários recordes a bordo deste barco, está neste momento a formar uma equipa totalmente portuguesa misturando velejadores novos e ‘antigos’, numa estratégia que pretende despertar o interesse pela vela oceânica nos jovens.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Esta semana estive a bordo do Maxi Catamarã num entardecer de sonho em que o Gonçalo e o Mário Sampaio, dois elementos inaugurais desta tripulação de excelência, falaram sobre os projectos do próximo ano neste barco. Fiquei a saber que a prova de circumnavegação vai ser o culminar de outras provas a disputar ao longo dos próximos meses.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;E percebi que a campanha deste e de outros barcos inscritos nesta odisseia incluem um projecto educativo que envolve escolas e alunos.Ou seja nos próximos tempos haverá disponibilidade para receber gratuitamente crianças e adolescentes com tempo para explicações técnicas, elaborações teóricas e experiências mais ou menos radicais.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Termino com um episódio que envolve o dono do barco, Tony Bullimore, velejador inglês de quase  80 anos, conhecido pelas suas proezas e pela qualidade dos seus barcos mas, acima de tudo, por ter sido dos raros homens que sobreviveram cinco dias e cinco noites dentro de água no Pacífico Sul, a duas mil milhas náuticas de terra, ao perder a quilha da sua embarcação.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O barco de Tony virou e ele ficou mergulhado até ao pescoço naquela bolha de ar que fica dentro quando um barco se vira. Vestido com o fato de sobrevivência obrigatório em alto mar, Tony sabia que podia aguentar três dias, no máximo. Não tinha água nem comida e estava imerso num mar gelado. Fumador inveterado, teve momentos em que o único desejo era fumar um cigarro antes de morrer e eis que ao segundo dia se lembrou que um dos rapazes que ajudaram a construir o barco fumava muito e guardava o maço de tabaco num reforço da quilha.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Tony fez esforços sobrehumanos para chegar a esse esconderijo no barco e quando estendeu o braço e procurou com a mão gelada e trémula no interior, encontrou um maço com três cigarros e … um isqueiro secos! Mais tarde contou como geriu esses cigarros e como se aguentou cinco dias sem morrer e esta história, que é real e emocionante, é apenas uma das que podem ser contadas a bordo deste Maxi Catamarã. &lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/UErT0MyizVLnqy8LSmhz&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/UErT0MyizVLnqy8LSmhz/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>para sempre</category>
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  <pubDate>Wed, 01 Oct 2008 23:37:45 GMT</pubDate>
  <title>Medalha de prata em Pequim</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://redland.yourguide.com.au/multimedia/images/large/360908.jpg&quot; /&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://redland.yourguide.com.au/multimedia/images/large/360909.jpg&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(texto escrito para o Público de sexta-feira passada)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Dan Fitzgibbon, 35 anos, australiano (ao centro, na fotografia) foi a medalha de prata de vela nos Paraolímpicos de Pequim. Dan e Bento Amaral (meu amigo e a minha melhor fonte de informação em matéria de olimpíadas) são amigos e disputaram na Austrália o Campeonato do Mundo em 2004.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Nesse ano Dan foi o campeão do mundo e Bento foi vice-campeão. No ano a seguir, em Itália, Bento sagrou-se campeão do mundo e todos nos orgulhámos. Bento diz, com a simplicidade e o humor desarmante que o caracterizam, que só foi campeão do mundo porque Dan não competiu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;“Ele é muito melhor do que eu!”, garante. Acredito mas, para mim, ele é que continua a ser o campeão do mundo. E vou morrer a achar que o Bento é o melhor do mundo em muita coisa. Mesmo que não haja medalhas nem taças a prová-lo. Não são precisas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Voltando a Dan, a sua história de vida interpela-nos irremediavelmente. Ele, Nick Scandone de quem falo no post anterior por ter ganho a medalha de ouro, e o próprio Bento são testemunhos de enorme coragem e grandeza.  Dan era a esperança olímpica australiana quando há dez anos teve o acidente que o deixou tetraplégico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Por ironia do destino Dan tinha acabado de ganhar um campeonato de vela no seu país e no entusiasmo de mais uma conquista que o levaria, mais tarde ou mais cedo, aos Jogos Olímpicos, os outros velejadores cumpriram o cerimonial de o atirar à água. Este gesto de atirar ao mar um campeão é uma tradição antiga da vela que acontece especialmente nos campeonatos importantes. É praticamente impossível escapar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Dan fez o que fazem todos os outros e deixou-se atirar. Acontece que o mergulho foi mal dado e no embate ele fracturou uma cervical. Quando voltou à superfície toda a sua vida tinha mudado para sempre.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Bento conta-me esta história e faz-se silêncio entre nós. E mesmo sem falarmos, há um olhar de reconhecimento de uma situação que, afinal, é muito semelhante. As circunstâncias do acidente de Bento são tão inesperadas (ainda hoje parecem irreais) como as de Dan. Bento retoma o fio à meada e conta-me que Dan também não desistiu nunca.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Cumpriu o calvário da recuperação, viveu toda a frustração e superou os obstáculos, um por um. “Ele tem uma lesão muito parecida com a minha”, diz Bento. E eu, que sei tanta coisa sobre os anos que se seguiram ao seu acidente, percebo o que me está a dizer. Bento repara que pousei a caneta e abre um sorriso para eu não ficar cismática. Conta-me que a boa notícia do australiano nem sequer é ele ter ganho a medalha de ouro em Pequim.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;“Sabes uma coisa? Encontrámo-nos este ano em Rochester, nos EUA, onde estava um velejador sueco de quem também ficámos amigos. Na Suécia as pessoas como nós têm direito a um acompanhante permanente pago pelo Estado e o Gustaf Fresk, o velejador sueco, que é casado e tem filhos, levava com ele uma rapariga muito gira que acabou por se se apaixonar pelo Dan.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;A boa notícia é que o Dan também se apaixonou por ela e está em vésperas de trocar a Austrália pela Suécia. Gosto de bons enredos e de histórias com final feliz.   &lt;/div&gt;</description>
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  <category>as vidas dos outros</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>talentos</category>
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  <pubDate>Wed, 01 Oct 2008 23:20:34 GMT</pubDate>
  <title>Campeão olímpico de vela adaptada</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/138802.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.latitude38.com/LectronicLat/2006/0106/Jan11/NickScandone.jpg&quot; /&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;230&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://www.sailingscuttlebutt.com/news/07/0130/skud.jpg&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(texto escrito para o Público de sexta-feira passada)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Em Pequim não há mar e, por isso, as regatas olímpicas e paraolímpicas decorreram em Qingdao (ler:Txingdao) a 600kms de distância, num mar adverso e desordenado, com pouco vento e muitas correntes, coisa que torna a competição mais difícil.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Qingdao, a sudoeste de Pequim, é a Suíça da China. Os atletas paraolímpicos estiveram lá em Maio, numa viagem de reconhecimento mas Nick Scandone, o americano que ganhou a medalha de ouro em Pequim, não foi nessa altura porque precisava de se preservar fisicamente, e de se poupar para as 11 regatas da competição olímpica.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Excelente velejador, Nick foi confrontado há seis anos com o diagnóstico de uma doença neuro-muscular degenerativa e foi-lhe dito que teria, no máximo, 2 a 4 anos de vida. A mulher de Nick diz que a vela tem sido a sua sobrevivência e o seu maior desafio mas, também, o seu grande estímulo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Nick ouviu a sentença médica e em vez de baixar os braços, subiu a fasquia. Visualizou uma meta e traçou um plano. Dividiu o seu tempo ao meio e dedicou-se àquilo que sempre foi o maior prazer da sua vida: a vela. Treinava 15 dias seguidos e depois descansava outros 15, e foi neste tempo alternado e nesta vida multiplicada que apurou as suas performances e adquiriu forças para a competição final.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Nas regatas regulamentares de Qingdao, Nick que tem enorme dificuldade em falar e precisa de respirar entre cada sílaba impressionou todos os atletas presentes. Bento Amaral , o velejador paraolímpico português, e os outros sabem que quanto mais exercício físico faz, mais desgasta os músculos e mais depressa destrói as células do seu tecido muscular.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Apesar da irreversibilidade desta sua realidade, Nick Scandone transcendeu-se e os esforços olímpicos valeram-lhe a subida ao pódio para a medalha de ouro, ouvida ao som do hino americano entre lágrimas impossíveis de controlar. As dele e as nossas, quero dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;Agora, que Nick já voltou à Califórnia, Bento contou-me que sabe que ele está feliz por um lado mas infinitamente triste, por outro. A vitória era o seu objectivo e isso enche-o naturalmente de alegria mas há a outra realidade que o entristece e que ele não pode evitar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 10pt&quot;&gt;A doença progrediu e o tempo que se segue pode ser um tempo muito doloroso de espera. Especialmente porque depois de Pequim e do pico da glória, fica um vazio insuportável e uma contagem decrescente para um fim que se anuncia e ameaça ser incontornável. Bento disse-me, com profunda tristeza, que Nick pode não chegar ao Natal e isso é muito duro de aceitar.&lt;/div&gt;</description>
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  <category>as vidas dos outros</category>
  <category>talentos</category>
  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Sat, 20 Sep 2008 17:37:44 GMT</pubDate>
  <title>Rua da Rosa: o meu caminho de todos os dias</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://www.flickr.com/photos/jaypeg/249578157/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img height=&quot;266&quot; width=&quot;400&quot; border=&quot;0&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/91/249578157_7961007608.jpg?v=0&quot; alt=&quot;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;Foto de &lt;/span&gt;&lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://www.flickr.com/photos/jaypeg/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;Jaypeg&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller;&quot;&gt;crónica que escrevi para o Público de ontem)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vou pela Rua da Rosa vezes sem conta. Subo-a de manhã, à tarde e à noite, que ela só tem um sentido e é quase toda a subir. Atravesso o Bairro Alto por ali e perco-me nas horas a olhar para as pessoas, os lugares e as coisas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;De manhã vou sempre com pressa e enervam-me as cargas e descargas já com o sol ao alto. Na primeira esquina tropeço muitas vezes em rapazes de ombros largos e mãos grossas que acartam frigoríficos às costas e os depositam no passeio, mesmo em frente da loja dos electrodomésticos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Depois, na esquina a seguir, está a omnipresente carrinha da Coca-Cola ou a das cervejas a despejar incontáveis grades de garrafas e o barulho do vidro-com-vidro é uma música que me impacienta e me faz olhar para o relógio a cada segundo que passa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mais acima, no terceiro cruzamento, há sempre um carro mal estacionado porque é a única parte da rua em que é possível passarem dois carros. Mesmo assim já me aconteceu ter que esperar por ser a hora em que a ambulância vem a casa buscar uma senhora muito velha e tão doente e tão pálida que só deve ver a luz do dia quando vai deitada naquela maca.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Na esquina a seguir há mercearias com caixas cheias de legumes coloridos no passeio, onde as pessoas param e escolhem criteriosamente o que querem comprar. Nessa esquina não é preciso esperar porque ninguém atrasa o passo de ninguém mas é o ponto da rua em que eu própria vou mais devagar porque gosto de ver o filme dos gestos com que cada pessoa toca, pesa e escolhe a fruta que há-de levar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há por ali mulheres gordas de peito farto e pernas cansadas, velhos magrinhos de muletas, homens de camisa preta aberta no peito e fio dourado muito grosso ao pescoço, rapazes giros com ar de artista e raparigas de piercings que se abastecem nestas mercearias mas também há senhores de calça beige e blazer azul escuro que chegam com aprumo, puxam um saco de plástico transparente e, com gestos sábios e demorados, escolhem o feijão verde ou os pêssegos do dia.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;A Rua da Rosa é uma espécie de laboratório social urbano. Há de tudo nesta rua. Lojas alternativas, restaurantes gourmets, bares boémios, casas onde moram estudantes sozinhos, prédios cheios de inquilinos antigos, montras rasgadas sobre o passeio onde estão expostos objectos muito gráficos, portas e fachadas cheias de grafittis, lixo aqui e ali, paredes com camadas e camadas de posters colados uns sobre os outros a anunciar espectáculos, festas, performances, noites avulsas, dias melhores e vidas mais felizes.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Também há avós com netos pela mão, meninas de maillot e totós que sobem a rua de mochila às costas prontas para uma aula de dança no Conservatório, mulheres que conversam umas com as outras de ombros colados e costas ligeiramente vergadas para se ouvirem melhor, pessoas que passam distraídas, raparigas modernas com roupas criativas que mais ninguém usa, rapazes mal vestidos quase sem dentes que estendem a mão para receber uma moeda mas também são capazes de estender o braço à velhinha que precisa de atravessar a rua, senhoras apressadas e bem penteadas de tailleur impecável que não cruzam o olhar com ninguém e vizinhos que falam dos outros vizinhos.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Subo a rua mais do que uma vez por dia, todos os dias, e nunca me canso deste filme interminável. Às vezes enervo-me por estar atrasada mas não sou capaz de trocar esta rua e este meu caminho por nada.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;http://www.flickr.com/photos/20792787@N00/830290338/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; style=&quot;border-color: black;&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/1034/830290338_209bd60aa0.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; Foto de &lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://www.flickr.com/photos/20792787@N00/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Jaime Silva&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
  <category>pessoas e lugares</category>
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  <pubDate>Sat, 13 Sep 2008 19:14:45 GMT</pubDate>
  <title>Mulheres completamente explosivas</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/p0slPytrYvtKgEz2lU9P&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;181&quot; width=&quot;320&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/p0slPytrYvtKgEz2lU9P/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt; (3ª crónica do Público de sexta-feira)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei o nome das vozes femininas dos &lt;b&gt;Massive Attack&lt;/b&gt;, só sei o dos criadores iniciais da banda, no fim dos anos 80, e dos que como &lt;b&gt;Tricky&lt;/b&gt; cantaram com eles ou produziram novos sons e novas músicas.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vinte anos depois, os&lt;b&gt; Massive Attack&lt;/b&gt;, conhecidos por terem criado um novo género musical – o &lt;b&gt;trip hop&lt;/b&gt; que resulta de uma fusão de jazz, hip hop e rock, com elementos soul - são quase um grupo de veteranos que continua em grande forma e marca a cena mundial pela qualidade da música e dos espectáculos que produzem.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Fui ao concerto deles no Surf Fest em Agosto, e gostei muito da performance de todos os que tocaram e cantaram. O espectáculo de luzes e sons foi muito ‘à frente’ e os &lt;b&gt;Massive&lt;/b&gt; estiveram no seu melhor.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Se agora volto ao concerto de Sagres é mais para falar da vocalista negra, gorda, de voz poderosa e vibrante do que para recordar a sucessão de músicas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Havia duas vozes femininas em palco e as duas tiveram um impacto brutal. Stéphanie (afinal sei o nome de uma delas) é loura, bonita e tem aquele ar meio-frágil que faz muitos homens apaixonarem-se à primeira vista. Foi esse ar que certamente fez com que um rapaz da plateia tivesse gritado aos ventos e a plenos pulmões “és a nora que a minha mãe sempre quis ter!” (nota: escrevi sobre isto no blog no dia a seguir ao concerto).&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Stéphanie cantou, tocou e todos aplaudiram. O rapaz esteve no auge enquanto ela não saiu do &lt;i&gt;plateau&lt;/i&gt;. Depois dela entrou a outra vocalista. Negra, cabelo exuberante pintado de ruivo, muito gorda e muito sensual, atirou com a voz ao alto e electrizou a plateia. Num contraste total com a fragilidade e a beleza de catálogo de Stéphanie, esta mulher obviamente feia (segundo os critérios e padrões actuais, note-se) arrasou naquela noite.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Com uma voz arrebatadora e a atitude descontraída de quem vive extraordinariamente bem com o seu corpo, cantou de olhos fechados e um sorriso aberto, por vezes meio-ausente, numa entrega apaixonante acentuada pelo embalo com que dançava. Homens e mulheres ficámos todos suspensos daquela imagem envolvente.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Enquanto cantou ninguém conseguiu tirar os olhos dela e, de repente, a loura-bonita e frágil passou à história. A bela da noite afinal era esta mulher enorme, de formas excessivas, transbordante de sensualidade e feminilidade, cujo corpo dançou e cantou sempre mais alto do que a sua própria voz.&lt;span&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Fri, 12 Sep 2008 17:35:35 GMT</pubDate>
  <title>Mulheres do nosso tempo</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/128839.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;a target=&quot;_blank&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/TemSm9ynTo0yrzAWMvUj&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; height=&quot;240&quot; alt=&quot;&quot; width=&quot;186&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://fotos.sapo.pt:80/TemSm9ynTo0yrzAWMvUj/s320x240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(crónica do Público de hoje)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Antes&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;de publicar aqui a crónica que escrevi para o Público de hoje quero dizer duas coisas sobre a &lt;b&gt;Maria Angélica Andresen Castro Henriques&lt;/b&gt;, que sorri na fotografia tirada pela fotógrafa &lt;b&gt;Rita Olazabal&lt;/b&gt; para uma entrevista que lhe fiz ainda para a &lt;b&gt;XIS&lt;/b&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Primeiro, &lt;b&gt;Maria Angélica&lt;/b&gt; é uma referência incontornável em matéria de Psicologia e aos 87 anos continua a dar consultas e a trabalhar 8h por dia. Segundo, conheci-a há anos e fiquei fascinada pela luz e sabedoria que emanam desta mulher admirável, sem idade. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Ficam ditas estas duas coisas essenciais mas muitas mais haveria a dizer. Coisas eloquentes da atitude e fibra de quem atravessa a vida com a certeza de estar inteira neste tempo.E agora sim, passo a publicar o que escrevi para o jornal, onde também sublinhei a minha admiração por &lt;b&gt;Zilda Cardoso&lt;/b&gt;, outra grande mulher sobre quem já falei várias vezes neste blog.    &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(2º texto das Crónicas do Público de hoje)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Na lógica do que escrevi no texto anterior não resisto a referir também no Público um blog recém-criado que associei aos meus favoritos diários, que leio com interesse e acompanho com surpresa. Falo do blog de Zilda Cardoso, escritora, contemporânea de Sophia e Agustina, de uma geração de grandes mulheres onde incluo as intelectuais mais óbvias de todos os quadrantes literários, científicos e ideológicos, mas também algumas porventura mais desconhecidas como Maria Angélica Andresen Castro Henriques (na foto), psicóloga, mulher admirável pela luz, frescura e alcance das ideias em matéria relacional e comportamental.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Inspiradas e inspiradoras, Maria Angélica e Zilda (curiosamente ambas do Porto e ambas formadas em Filosofia) continuam activas e radicalmente actuais. Os anos passam e elas ficam cada vez melhores. Apuram critérios, recriam talentos e afinam pelos que vão mais à frente neste tempo. É incrível a maneira como integram a novidade e como trabalham a contemporaneidade. E como exprimem toda esta realidade, cada uma na sua área de especialidade.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Zilda Cardoso dedicou a sua vida à arte e à escrita mas associou sempre pequenos gestos e redobradas atenções ao detalhe dos dias. Criou e geriu galerias de arte de referência onde expôs artistas novos e consagrados; apostou sempre na arte dos outros e dedicou-se a construir pontes entre criadores e compradores. Não se limitou a ser &lt;i&gt;marchand&lt;/i&gt;, portanto.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Envolveu-se no processo criativo e ampliou a arte dos artistas. Pintou ela própria alguns quadros que guardou com pudor e escreveu livros que publicou sem temor. A crítica dos críticos interessa-lhe, claro, mas sem exageros. Agustina Bessa-Luís prefaciou A Rua do Paraíso reconhecendo que Zilda “tem esse peregrino dom da disciplina memorialista. Parece que é hoje que tudo acontece na Rua do Paraíso.”&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Este livro, editado pela Campo das Letras, é para mim o melhor que Zilda Cardoso escreveu. Mesmo a quem nunca passou pela Rua do Paraíso, no Porto, tudo aquilo de que fala soa familiar e fascinante. Recomendo-o vivamente por isso mesmo.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Voltando à vocação de parte desta nova geração senior, aquilo que me prende ao blog de Zilda (&lt;/b&gt;&lt;a href=&quot;http://www.zildacardoso.blogs.sapo.pt/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;b&gt;www.zildacardoso.blogs.sapo.pt&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;b&gt;) é justamente a facilidade com que se adaptou às novas tecnologias e a habilidade com que resume em pequeníssimos textos as coisas importantes dos seus dias e o essencial da vida. Espanta-me a capacidade de síntese e surpreende-me a plasticidade mental por revelar o dom literário mas também o talento suplementar de uma adaptação fulminante a este admirável mundo novo.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Fri, 12 Sep 2008 17:35:17 GMT</pubDate>
  <title>Seniors: a tradição já não é o que era</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/128714.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://wwwdelivery.superstock.com/WI/223/1439/PreviewComp/SuperStock_1439R-508031.jpg&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(crónica do Público de hoje) &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Não sei exactamente quantos &lt;i&gt;seniors&lt;/i&gt; existem em Portugal nem sei bem a partir de que idade podemos ser considerados &lt;i&gt;seniors&lt;/i&gt;, mas enfim. Lembrei-me da questão por ter lido algures que em França existem 7 milhões de avós (a estatística está no feminino, note-se, e por isso falo apenas de &lt;i&gt;grands-mères&lt;/i&gt;) que continuam a ter uma vida muito activa e estão inteiras neste tempo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Estas avós francesas têm em média 65 anos e muitas dedicam-se tanto aos netos como à sua vida pessoal e profissional. Ou seja, a tradição já não é o que era. A lendária imagem da avó velhinha de bengala e cabelo branco, que vive recolhida em casa, foi substituída pela imagem mil vezes multiplicada de mulheres muito mais arejadas e contemporâneas que viajam, trabalham e cuidam tanto de si como dos seus netos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Alguma coisa aconteceu nestas últimas décadas que fez com que a geração &lt;i&gt;senior&lt;/i&gt; ficasse mais activa e consciente do seu papel na sociedade. Não sei se a internet potenciou esta necessidade e esta consciência mas tenho a certeza de que em alguma coisa contribuiu para a evolução positiva. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Estar em rede deixou de assustar as gerações mais velhas. Os computadores deixaram de ser uma ameaça e converteram-se numa oportunidade para quem nasceu noutro tempo. A avaliar pelos incontáveis blogues, sites e projectos online criados por pessoas mais velhas ou destinados a elas, a realidade real mudou radicalmente e a paisagem virtual também. Melhor assim.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;Nesta linha não surpreende que existam cada vez mais solicitações entre os &lt;i&gt;seniors&lt;/i&gt;. A Masters Models, agência de modelos (&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;a href=&quot;http://www.mastersmodels.com/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;www.mastersmodels.com&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-size: larger&quot;&gt;&lt;span&gt;), é um exemplo eloquente da nova atitude desta geração. Mas há outros.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
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  <pubDate>Sat, 06 Sep 2008 03:03:14 GMT</pubDate>
  <title>O monge e o filósofo</title>
  <author>Laurinda Alves</author>
  <link>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/125308.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;http://francenepal.com/news_images/Image/fr/Le-Moine-Et-Le-Philosophe-02.jpg&quot; /&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: smaller&quot;&gt;(crónica do Público de sexta-feira)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Pai e filho. Um nasceu em 1924, o outro em 1946; um é filósofo, ensaísta, professor e ex-director do L’Express, o outro é cientista, especialista em Biologia Molecular e ex-investigador no Instituto Pasteur de Paris.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O pai, Jean-François Revel, pertence à Academia Francesa e foi premiado pelo conjunto da sua obra literária; o filho, Mathieu Ricard, abandonou uma carreira brilhante para se converter ao budismo, fez-se monge, tornou-se um dos maiores especialistas mundiais em matéria de espiritualidade tibetana e é há muitos anos o tradutor e acompanhante do Nobel da Paz.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mathieu Ricard pertence ao círculo íntimo do Dalai Lama, fez incontáveis traduções de escritos tibetanos antigos e é autor de alguns livros de referência sobre o budismo.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Há cerca de dez anos pai e filho decidiram sentar-se juntos em Hatiban, no Nepal, no isolamento de um lugar único erguido no cimo da montanha que domina Katmandu, para uma longa conversa que haveria de ser gravada e depois editada em forma de livro.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;b&gt;Le moine et le philosophe&lt;/b&gt; não é um livro recente, portanto. Mas continua actual. Dolorosamente actual, para ser mais exacta. Os factos relativos às perseguições, extermínios e domínios permanecem na ordem do dia e revelam a atitude de impiedosa repressão exercida e mantida pelo governo chinês sobre o povo tibetano.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Ao longo do livro que agora leio com um olhar mais atento por ter acompanhado de perto os ensinamentos do Dalai Lama quando esteve em Lisboa no Verão passado, mas também por ter no meu círculo de amigos alguns budistas, esta realidade do genocídio e de todas as formas de opressão está muito presente e obriga a pensar.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mas há uma outra realidade, infinitamente mais luminosa e inspiradora, que faz parar aqui e ali, sublinhar o que está escrito e até pousar o livro por breves momentos para conferir mentalmente teorias e práticas.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Não sou budista nem nunca serei mas esta certeza íntima não atrapalha em nada o meu fascínio pela espiritualidade tibetana e muito menos impede a minha adesão incondicional à personalidade e mensagem do Dalai Lama.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Mais, aproveito o facto de ter amigos budistas para perceber alguns mistérios existenciais e aceder a algumas práticas de meditação que, devo dizer, ajudam incrivelmente a calibrar as emoções e a aliviar o peso dos dias. Mesmo não sendo dada à meditação budista no sentido mais profundo e radical desta prática oriental, vou tentando perceber uma ou outra coisa que encaixo e adapto ao meu espírito de cristã que recorrentemente precisa de silêncio, contemplação e oração.     &lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O livro foi-me oferecido pelo Pedro, o meu amigo budista que sabe e percebe que há mais coincidências do que divergências entre quem reza e quem medita. O gesto de me oferecer este e outros livros revela uma delicadeza enorme e uma amizade atenta ao essencial, aliás. Não se trata de uma tentativa de conversão mas antes de uma possibilidade de comunhão em questões fundamentais.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Vasco Pinto Magalhães, o padre jesuíta com quem faço muitos dos meus retiros de silêncio de uma semana, usa as técnicas de respiração e meditação dos budistas para nos ajudar a centrar no essencial. Não sei se os budistas usam ensinamentos cristãos para apurar a sua consciência universal e elevarem o seu patamar espiritual nem isso verdadeiramente me importa.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;O encontro de religiões, o ecumenismo dos homens e a atitude de abertura espiritual é que fazem a diferença no mundo. Hans Kung, filósofo alemão contemporâneo de Jean-François Revel, diz que é pela ética que vamos e eu acredito que sim, que a ética é um grande caminho para a humanidade.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;Acima deste caminho há um outro que nos pode juntar e aperfeiçoar, que é o do encontro de religiões. Acredito que o altruísmo, a bondade e a sinceridade são as rectas dessa longa e sinuosa estrada e sei que não são exclusivos de nenhuma fé, culto religioso ou prática espiritual. Melhor assim.&lt;/div&gt;</description>
  <comments>https://laurindaalves.blogs.sapo.pt/125308.html</comments>
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  <category>espiritualidade</category>
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  <category>crónicas do público à sexta</category>
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