Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
A minha ida ao Colégio das Doroteias de Lisboa

 

Esta semana voltei à escola para falar para mais de 250 alunos. É sempre uma experiência fascinante chegar a um auditório e ver entrar nuvens de alunos de várias idades. Desta vez eram turmas dos 10º, 11º e 12º anos, e a ideia era falarmos sobre mais e melhores maneiras de mudarmos o mundo. Não o mundo como um todo pois ninguém muda todo o mundo, mas o pequeno-grande mundo à nossa volta e, em especial, o mundo que há em nós. Era um tema vasto e abrangente mas a conversa valeu a pena e as perguntas no fim também. É incrível como nestas idades estes alunos se mantêm em silêncio durante horas quando os temas lhes interessam. Foi o caso. Muito bom. Muito obrigada ao professor Carlos pelo convite. E muito obrigada à Alexandra Artur por se ter lembrado de mim. Conhecemo-nos nos corredores da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz quando o seu pai esteve internado, pouco antes de morrer. Fiz voluntariado de cabeceira ao Sr. João Artur, que era uma fonte de ternura e de alegria para nós, e agora passados estes meses todos, eis que fui à escola da sua neta Mafalda falar sobre a maneira como todos nos influenciamos uns aos outros. É incrível a maneira como a vida se tece e como estamos todos tão ligados. São estas pequenas-grandes coisas que mudam o nosso olhar e transformam o mundo. O nosso e o que existe à nossa volta!   

 

publicado por Laurinda Alves às 11:53
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
A vida tal como é, com luz e sombras

 

Esta imagem tem 3 meses certos. Publiquei-a aqui no dia 1

de Novembro e volto a publicá-la hoje por motivos fortes mas

muito tristes. O Bruno morreu esta tarde e é duro aceitar esta

perda. Deixo aqui a imagem das suas mãos por elas serem,

para mim, uma das memórias mais marcantes do Bruno por

estarem sempre muito quentinhas. Esta semana estivemos

de mãos dadas em silêncio e a imagem de umas mãos tão

fortes e tão queridas como as dele ficam-me para sempre...

O Bruno fez 32 anos em Janeiro e era demasiado novo para

partir. Era um homem corajoso e foi um testemunho de vida

incrível para todos os que estivemos perto dele, em especial

nesta fase da doença. São muito raros os que atravessam o

sofrimento sempre com sentido e se recusam a desistir ou a

baixar os braços. O Bruno lutou até ao fim e a mãe e o irmão,

a tia, o tio, o primo e todos os que o amam e acompanharam

até hoje tiveram uma força extraordinária. Agora não há mais

palavras para exprimir a dor pela sua perda, a não ser falar

do Bruno como alguém que permanecerá para sempre vivo

no coração e na memória dos que tiveram a sorte de se cruzar

com ele. É o meu caso. Neste dia tão cheio de acontecimentos,

de conquistas e de vidas cheias, em que acordei com a notícia

do nascimento do quarto filho de grandes amigos e adormeço

com a notícia da morte do Bruno, deixo um abraço à sua mãe.

Um abraço demorado, terno e eterno, que não se desfaça nunca!

 

publicado por Laurinda Alves às 23:00
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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
A vida é difícil e ponto final parágrafo

 

Os pesos presos ao fundo da cama são para manter a perna

esquerda imobilizada e tanto quanto possível sem dores e só

assim é possível esperar pela operação. O dia de hoje correu

tranquilo e as dores foram suportáveis mas sempre presentes

porque esta fractura lembra outras fracturas do passado, pela

posição a que obriga. Há 10 anos um acidente grave provocou

lesões irreversíveis na coluna e desde então a posição mais

dolorosa de todas é permanecer deitada de costas. Agora não

há alternativa e o maior massacre é aguentar dia e noite nesta

mesma posição sem se poder mexer. Enfim, há coisas muito

piores e no mesmo piso onde a minha mãe está internada há

muitas famílias em sofrimento por doenças ou circunstâncias

agravantes. Hoje morreu uma senhora de quarenta anos com

duas filhas mais novas que o meu filho; num quarto mais ao

fundo há um pai internado há semanas entre a vida e a morte;

perto de nós deu entrada um outro pai de 3 filhos com sintomas

de doença muito grave; na ala da esquerda está um senhor com

uma perna recém-amputada; no lado oposto há doentes cujas

famílias nem sempre aparecem à hora das visitas e se agora

falo de toda esta realidade tão próxima e tão concreta é para não

nos esquecermos que por mais adversas que pareçam certas

coisas, ao nosso lado há sempre alguém pior e a sofrer mais...  

Como disse Scott Peck " a vida é difícil" e ponto final parágrafo.

  

P.S.: Obrigada do coração por tantas e tão boas mensagens hoje.

 

publicado por Laurinda Alves às 01:27
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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
O meu postal de Bom Natal deste ano

 

Nestes dias de sol o entardecer é um momento sagrado em

que o horizonte se incendeia e tudo parece arder entre o céu

e a terra. Fico calada, voltada para este poente, e só consigo

falar quando já não há luz ao fundo. Gosto do silêncio destes

momentos e faço deles a minha oração de gratidão por tudo

e tanto que me é dado viver. Pela proximidade dos que amo,

pela saúde que temos, pelos laços que nos unem, por não

ter perdido nestes últimos tempos mais ninguém importante,

por continuar inteira na vida apesar de tantas perdas lá atrás,

tantos fracassos, tantas crises, tantas coisas tão difíceis que

foram acontecendo. Amanhã é Natal e tenho a imensa sorte

de o poder viver em família, com alegria e saúde. Se insisto

na saúde é justamente por ter à minha volta e no 'meu' serviço

de Cuidados Paliativos tanta gente em sofrimento. Mesmo que

a dor física esteja controlada, existe sofrimento emocional e dor

moral provocada pelas circunstâncias da doença. É difícil estar

no hospital em qualquer altura mas especialmente se é Natal...

Deixo aqui o meu postal de Natal e os votos mais que sinceros

de Festas o mais felizes possível para os que por aqui passam.

 

publicado por Laurinda Alves às 18:30
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Que balanço fazem do próximo ano?

 

Que balanço que fazem do ano 2009? E qual dos quatro é

o mais estúpido de todos? Estas e outras perguntas têm

respostas porque estes rapazes nunca viram as costas às

grandes questões. Quase nunca, quero dizer. Só às vezes

e em certos dias. Como hoje, por exemplo, para este blog.

 

 

Cruzei-me com os Gato Fedorento nos corredores do IPO

de Lisboa onde hoje havia a festa de Natal das crianças e

suas famílias. Eles cantaram, eu não. Divertidos e sempre

inspirados, deram colo às crianças que vieram ter com eles

com uma naturalidade e alegria contagiantes. Fizeram-nas

rir e cantar, mesmo sem eles próprios terem a mais vaga

afinação. No fim, a sala desabou em palmas e deram-lhes   

um ramo de flores que o Miguel não quiz segurar. O Tiago

guardou-as atrás das costas e andou com elas com evidente prazer ...

 

 

Uma Bimby para o Natal é uma ideia genial. Uma para cada um, claro!

Obrigada aos quatro por este momento gravado no corredor do hospital.

 

publicado por Laurinda Alves às 00:02
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008
Não se preocupe nada, estou aqui para isto!

Deixo aqui um breve enunciado de frases e gestos que ficaram a fazer eco depois de mais uma tarde inteira de voluntariado na Unidade de Cuidados Paliativos da Luz.

 

A meio da tarde há uma agitação súbita num quarto onde uma senhora não consegue parar de vomitar. Médicos, enfermeiros e auxiliares entram e saem porque a situação é grave e a senhora precisa de ser assistida. A doente é uma mulher admiravelmente forte e lúcida que, no extremo da dor, revela um enorme pudor:

- Desculpe, não queria dar este trabalho todo.

- Não peça desculpa, porque eu estou aqui para isto. Este é o meu trabalho e escolhi-o por gosto.

 

Ouvi esta frase da boca de uma enfermeira mas já ouvi respostas parecidas ditas por auxiliares e por médicos, e não deixa de me espantar a dignidade com que isto é dito a um doente no auge da sua fragilidade física. Limpar uma fralda suja, mudar uma cama vomitada ou lavar um doente incontinente não é trabalho que ninguém deseje e, no entanto, é o trabalho diário de muitos profissionais de saúde que escolheram cuidar, tratar ou acompanhar pessoas na sua doença. Profissionais capazes de dizer coisas tão redentoras e pacificadoras como a que disseram hoje a esta senhora.

 

Ouço esta e outras frases e percebo como se pode devolver a dignidade (inteira e intacta, note-se!)  a alguém profundamente debilitado e tantas vezes interiormente humilhado pelas circunstâncias ou escatologia da sua doença. Aprendo todas as semanas com esta equipa. Quem me dera ter gente desta à minha cabeceira no dia em que estiver acamada num hospital.

publicado por Laurinda Alves às 00:32
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008
A poesia de Novalis

 

A poesia de Novalis, poeta do Romantismo alemão, inspira

muitos dos meus dias. Em especial os dias mais densos e

mais complexos. Os dias vividos entre pessoas que sofrem

e famílias que esperam que algum milagre possa acontecer.

Às terças vou sempre ao hospital e às quartas preciso de me

voltar a encontrar e a centrar e a poesia ajuda-me a conseguir.

Deixo aqui alguns Fragmentos de Novalis mais luminosos ...

 

Tudo o que é belo é um ser perfeito

que a si mesmo se ilumina.

 

A vida não deve ser

um romance que nos é dado,

mas um romance que nós próprios construimos.

 

Estamos próximos do despertar

quando sonhamos que sonhamos

 

P.S.: Estou outra vez a caminho do Porto, desta vez para dar uma aula na Universidade Lusófona sobre Media e Arte em espaços públicos. Um desafio enorme, este. Amanhã também tenho o dia milimetricamente preenchido e volto muito tarde a Lisboa. Se calhar vou ficar mais ausente mas é por boas razões...  

publicado por Laurinda Alves às 00:55
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
O silêncio do fim do dia

(já depois de ter escrito este post recebi o mail de um amigo querido e solidário a mandar-me este arco-íris. Obrigada Miguel, gostei muito.)

 

Gosto do silêncio e procuro-o com frequência porque preciso dele para regenerar, para recuperar a energia, para processar tudo e tanto que os dias trazem. Certos dias, quero dizer. Dias como o de hoje, onde coube uma viagem de comboio sem história mas também as estórias de vida de pessoas que estão internadas no hospital, na Unidade de Cuidados Paliativos onde passo as tardes às terças. Não há nem haverá nunca palavras para dizer a profundidade de toda aquela realidade e, por isso, fico mais calada. Penso em cada uma das pessoas com quem me cruzo e nas suas famílias mas também nos que cuidam, nos que tratam e acompanham os doentes graves, incuráveis e terminais. A certeza de que existem estes profissionais é, para mim, uma espécie de seguro de consolo. Tranquiliza-me saber que um dia posso ser eu a precisar (ou algum dos meus) e ter com quem contar. Felizmente hoje tenho um jantar em que posso ficar mais calada porque vou com amigos ouvir fados e mornas, combinação musical que adoro. Agradeço a estes amigos do coração o convite para um jantar tão especial a uma terça-feira, o dia em que preciso deste embalo e de me sentir verdadeiramente em casa com os que amo.    

 

P.S.: Outro amigo querido, muito querido, também me escreveu um mail a contar que pescou esta barracuda de 9kgs na Guiné. Muito bom. Obrigada João,  por esta imagem poderosa e pelos mails tão coloridos nos meus dias mais cinzentos. Adorei o "estilo Hemingway".

   

 

foto de João Francisco Moura in Flickr

publicado por Laurinda Alves às 20:16
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008
As boas notícias do dia

Várias pessoas têm pedido notícias da viagem do Bruno à Suíça e confesso aqui o meu pudor em devassar a intimidade de uma família inteira que partiu do hospital e voltou passados três dias ao mesmo lugar. Correu tudo muito bem, felizmente, mas eu própria fiz poucas perguntas à chegada para respeitar esta reserva de intimidade. Hoje foi o meu dia de voluntariado e por isso fui naturalmente ter com o Bruno para lhe dar um abraço. A boa notícia é que ele mal teve tempo para receber este abraço porque, primeiro, estava a arranjar-se para ir ao cinema e depois, porque já ia atrasado para a sessão. Demos o abraço, trocámos umas breves palavras e fiquei a vê-lo ir pelo corredor largo, até desaparecer ao fundo. Comoveu-me vê-lo de pé, outra vez vestido, a caminho do cinema. Ia ver o filme do James Bond. Boa, grande pinta Bruno!

publicado por Laurinda Alves às 21:09
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As batalhas de Lisboa e arredores

 

Dia cheio e comprido. Acabei de ver a última parte do Prós

e Contras sobre a Batalha de Lisboa e não precisei de ver

mais porque sou radicalmente a favor dos que defendem

que Lisboa é dos cidadãos. Claro que assinei a petição a

reivindicar os meus direitos cívicos que, aliás, me parecem

muito simples e muito óbvios. A secretária de Estado não 

me convenceu nada mas confesso que também não queria

ser convencida de nada nesta matéria específica. Parabéns

aos que defendem uma beira-rio mais livre e desafogada e

parabéns ao Miguel, claro, que tem sido capaz de se manter

firme e forte nesta causa. Hoje excepcionalmente a televisão

ficou ligada até mais tarde e o meu filho não se deitou cedo

por razões mais que evidentes. Eu cheguei tarde, vinda do

encontro mensal da rede de empreendedores sociais à qual

pertenço. Esta noite o speaker foi o Rui Marques, que tem sido

um agente de transformação social e um exemplo de inovação

em vários campos. Neste momento a sua batalha é renovar a

política e pôr a esperança na agenda dos políticos. Falou bem,

foi eloquente e convincente mas, acima de tudo, muito coerente. 

 

  

 

As ideias e os ideais de um homem que tem tudo a perder

e que aposta em fazer melhor na política dão que pensar...

(quero esclarecer este parágrafo porque me disseram que

podia ser equívoco e dizer precisamente o contrário daquilo

que queria, que é sublinhar a gratuidade e coragem do Rui) 

 

 

 

Este jantar da rede de empreendedores sociais foi a cereja

no cimo do bolo num dia cheio de pessoas e acontecimentos

importantes. Começámos cedo, na Apeme, a empresa de

estudos de mercado que está a analisar a realidade nacional

em matéria de Cuidados Paliativos. Esta manhã um grupo de

pessoas influentes e opinion leaders reuniu-se para debater

a questão e foi um debate esclarecedor e fecundo. Estiveram

presentes a Paula Moura Pinheiro, a Maria José Nogueira Pinto,

o José Manuel Fernandes, o Martim Avillez Figueiredo e o Filipe

Anacoreta Correia e a discussão foi orientada por Carlos Liz, o

cérebro da Apeme e um dos homens que mais insights tem 

sobre a modernidade, a contemporaneidade e o que se segue.

É importante haver boas cabeças nestas e nas outras batalhas!

 

 

  

 

publicado por Laurinda Alves às 01:19
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