Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008
Um amor com quase vinte anos

 

 

(crónica escrita para o Público de hoje)

 

Lembro-me da primeira vez que a vi. Tinha curiosidade em saber como era a cara daquela mulher de voz decidida que aceitou ao telefone uma proposta de emprego sem a menor hesitação, apesar de nunca ter trabalhado a dias. Tinha uma pequena lavandaria de bairro, era senhora das suas horas, dona da sua casa e do seu tempo, mas queria mudar de vida. Casada com um homem vinte anos mais velho que não trabalhava há muito e se limitava a fumar a modesta pensão que recebia, estava cansada de o ouvir queixar-se e enjoada do fumo dos cigarros em toda a casa. Toda a casa é uma forma de expressão pois trata-se de uma sala e um quarto que caberiam facilmente no hall de entrada de uma casa maior. Em todo o caso é a sua morada e apesar de ter um espaço exíguo é bonita e sempre muito arranjada, com traves de madeira clara no chão e uma luz que se derrama do alto da Graça e brilha com os reflexos do rio.

 
No dia em que se apresentou em minha casa tocou à porta lá em baixo e depois teve que subir cinco andares a pé. Fiquei cá em cima, a vê-la subir, tentando adivinhar como seria. Precisava de alguém como ela mas ainda não sabia se seria ela. Reparei no cabelo bem cuidado, com um penteado ao alto, e no estilo impecável de senhora que também não sabe exactamente ao que vem. Estendeu a mão para me cumprimentar e abriu um sorriso franco. Tímido também, talvez.
Sentámo-nos, ela com a sua carteira pousada no colo e as mãos cruzadas, eu com um bebé de três dias nos braços a dormir. Perguntei-lhe o nome e o que fazia. Explicou a lavandaria de bairro, contou vagamente e com algum pudor que o marido era doente reformado e porque tinha uma pensão muito pequena ela precisava de trabalhar mais. Teve o cuidado de avisar que nunca tinha trabalhado em casa de ninguém mas estava disposta a isso porque a vida é assim e o trabalho nunca a assustou.
 
Olhava para mim enquanto falava e gostei dessa sua maneira de olhar nos olhos. Pareceu-me nova mas experiente apesar de não ter tido filhos. Imaginei que andasse pelos quarenta anos e mesmo sem perguntar ela disse que sim mas que trabalhava desde os nove. Percebi de onde vinha o ar experiente e essa capacidade de olhar sem desafio nem dúvida. Gostei dela e da sua verdade e impressionou-me a sua história de vida, claro. Uma infância de conto de Dickens, com trabalhos pesados em invernos gelados em que todos os dias começavam de madrugada e acabavam depois da ceia. Adoptada por uma tia impiedosa, era forçada a tarefas hoje impensáveis para uma criança de 9 anos. A tia nunca se comoveu com o frio nem o calor, muito menos com os sonhos ou os pesadelos de uma rapariga arrancada à sua família demasiado cedo. Obrigou-a a trabalhar sempre e muito, e foi assim que ela cresceu e se fez uma mulher. Como um azar nunca vem só, casou muito nova com um homem muito mais velho que lhe exigiu o que só ela e Deus sabem.
 
Sabemos que a história das mulheres e a história dos homens não têm nada a ver uma com a outra. Os mesmos séculos, as mesmas épocas, as mesmas guerras e os mesmos tempos de paz, mas uma história sempre desigual. Um abismo de distância a separar uns e outras. Os homens e as mulheres, quero dizer. A vida desta mulher foi uma exigência permanente e muitas vezes um desafio atroz. Sem tréguas, sem ajudas, sem consolos nem descanso e sem se poder queixar sequer. O homem que lhe tocou e podia ser seu pai veio cavar ainda mais fundo este abismo de distâncias e acrescentar infortúnio. Há histórias assim e há mulheres que cumprem fielmente este destino mesmo sabendo que o que as distingue dos seus homens é a inteligência com que aparentam uma servidão mas cultivam a liberdade no seu coração. Paradoxalmente esta mulher tantas vezes seviciada e escravizada soube manter-se livre interiormente. De certa forma também escapou ao seu destino quando decidiu dar o passo que a levou até minha casa naquele dia. Olhando para ela, bem apresentada e cuidada, ninguém diria de onde vinha e para onde voltava. Para uma casa sem espaço onde um homem arrasta os pés e os queixumes entre nuvens de fumo que sufocam mas não matam e, sobretudo, não lhe quebram a força com que continua a gritar, a acusar e a martirizar a mulher que o sustenta e atura.
 
Conversámos um pouco naquele dia. O suficiente para ficar decidido que entraria no dia seguinte em minha casa. Agora, que passaram quase vinte anos, a casa já é tão nossa como dela. Não sei precisar onde nem quando é que as coisas se transformaram ao ponto de nos sentirmos da mesma família, de olharmos uns para os outros sem distância nem diferenças, de a reconhecermos como uma mãe, uma tia, uma avó ou uma amiga de toda a vida. A confiança radical que senti no primeiro dia afinal era absolutamente real, não tinha nada de enganador, e foi-se revelando nos pequenos gestos de entrega no dia-a-dia.
Nos primeiros tempos cabia-lhe cuidar de um bebé e de uma casa grande onde moravam quase sempre cinco pessoas. Mais tarde começou o ritual de ir buscar o ‘seu’ menino à escola a meio do dia e ia e vinha com ele pela mão como se fosse o filho que nunca teve. Vi-a algumas vezes subir a calçada com ele e comoveu-me sempre o amor com que o tratava e o orgulho com que avançava com ele pela rua. Perguntaram-lhe muitas vezes se era filho ou neto e ela respondia que não mas sei que tinha outras certezas do seu coração. E sei porque ainda hoje fala dele como o ‘nosso’ menino. Meu e dela, claro.
Há quase vinte anos que esta mulher forte e dedicada faz parte da nossa vida e eu acordo e adormeço dia após dia com a noção do privilégio que é viver com este apoio em casa. Com a presença alegre de uma mulher para quem a vida familiar é um triste deserto (martírio seria a palavra certa) mas cuja aridez nunca a deixou vazia ou amarga. Muito pelo contrário.
 
Ouço-a falar de coisas da vida, da sua vida, e percebo a dificuldade que é aguentar tudo e tanto. E, no entanto, raramente a vejo chorar ou desanimar. Entra e sai da casa sempre bem vestida e mesmo nos dias piores em que qualquer pessoa desiste facilmente de si e de se arranjar, ela encontra forças para se cuidar. Tenho admiração por esta força que a anima e que a leva a carregar uma cruz pesada sempre ao alto. A prumo e nunca arrastada pelo chão. Poucas mulheres com a sua vida e a sua história seriam capazes desta proeza diária e daí também a minha admiração. Não vive a queixar-se e raramente conta tudo o que poderia contar mas nos dias piores percebo a dimensão da sua realidade e a extensão da sua dor. E admiro-a ainda mais por não desistir nem quebrar.
Nunca falta ao trabalho nem nunca deixa nada por fazer e também nisso é admirável. Fazia-o quando éramos cinco em casa e havia um bebé que pedia colo e chorava por mimo ou por causa dos dentes a nascer, e fá-lo agora que somos menos em permanência a viver mas quase sempre muitos à mesa para comer.       
 
Conhecendo-a como conheço sei que é uma mulher invulgarmente inteligente e atenta ao mundo à sua volta. Se tivesse estudos seria ministra, provavelmente. Digo-lhe isto e ela ri mas sei que as suas gargalhadas francas têm quase sempre lágrimas escondidas. Espanta-me essa capacidade de calar fundo as dores mais antigas mas também me espanta sempre o sentido de humor com que reage às situações e lida com a adversidade. Faz-nos rir a nós e também por isso a sua ausência nota-se mais quando fecha a porta ao fim do dia e vai pela rua abaixo apanhar o eléctrico, com o seu cabelo ao alto sempre bem penteado e as suas roupas elegantes de senhora fina. Quem a vê não adivinha a vida que vive nem as dores que a trespassam.
Agora que escrevo sobre ela e a vejo andar para trás e para a frente na sua lida em silêncio, sem saber exactamente sobre o que escrevo no computador, dou comigo a dar mais uma vez razão a todos os que a conhecem e adoram e me dizem que não há muitas pessoas assim. Eu sei que não há e sei o que lhe devo e é por isso que escrevo.    
           
publicado por Laurinda Alves às 19:29
link do post | comentar | ver comentários (28) | favorito
Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
Crónicas do Público de hoje

 

 

As Tristes Luzes de Lisboa
 
Da noite para o dia a cidade apareceu enfeitada de Natal mas este ano as luzes de Lisboa são tristíssimas. À excepção de dois ou três passeios considerados mais nobres e, por isso, com direito a uma iluminação quente e vibrante, todas as ruas têm luzes azuis, frias, geladas, sem graça e pior, luzes que choram. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, o efeito mágico mais natalício que se inventou foi pôr lágrimas de luz a escorrer pelos fios, numa ilusão permanente de um choro silencioso que entristece e não apetece. Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única? Pior do estas luzes azuis e frias do Terreiro do Paço e das avenidas só um Pai Natal vestido de pijama azul eléctrico.
Sugiro que no próximo ano os responsáveis pelas iluminações revejam os catálogos de cores e ajustem os preços das lâmpadas festivas com os patrocinadores, negociando com eles a possibilidade de recuperar para o Natal as cores do Natal.    
 
 
Teste a sua inteligência dominante 
       
 
 
Desde que Daniel Goleman e os seus discípulos enunciaram outras formas de inteligência para além da que era possível medir através dos convencionais testes de QI, passámos a saber que existe um espectro largo de inteligências nas quais se incluem a emocional, a espacial, a corporal, a relacional, a artística, a existencial, a lógica, a afectiva, a relacional, a espiritual, a intuitiva e outras.
 
Ou seja hoje em dia não é possível falar de inteligência única mas sim de inteligências múltiplas, numa amplitude e profundidade que interpelam e obrigam a pensar. Desde já porque a aceitação de uma realidade investigada e provada pelas neurociências estabelece novos patamares de avaliação e outro poder de encaixe.
 
Os professores, os educadores, os empregadores e as pessoas em geral deixaram de poder contar com um teste que durante décadas foi um modelo universalmente usado para medir e rotular a inteligência de cada um. Hoje em dia poderemos talvez testar a nossa inteligência dominante mas não a inteligência em absoluto, pois os testes de QI não têm em conta a variedade possível.
 
Um teste de QI convencional não mede as competências relacionais, os dons manuais ou a inteligência artística, por exemplo. Nem avalia a capacidade de introspecção e pode nem sequer chegar a medir a inteligência lógico-verbal se não tiver em conta a capacidade de pensar e usar a linguagem para exprimir ideias.
 
Uma vez que não sobram dúvidas científicas sobre a quantidade e a qualidade das inteligências múltiplas é urgente complementar os testes de QI (para quem os faz e porque podem ser importantes em casos concretos) com outras formas de avaliação que compreendam o potencial de evolução de cada um, a sua capacidade de adaptação ao meio (e a circunstâncias mais ou menos adversas), que avaliem as competências sociais e relacionais, que testem a inteligência lógico-matemática e analisem a originalidade e a criatividade. Tudo isto num esforço de aceitação de que o lendário QI por si só é um critério perigoso, redutor e, por isso, muito enganador.
 
 
Outras coisas que faltam nas nossas escolas
 
 
No meio de tanto barulho e perturbação nas escolas, numa fase de braço de ferro em que muitos se desentendem, poucos se ouvem e menos ainda se acertam, vale a pena trazer à discussão outras questões tão ou mais importantes do que a avaliação dos professores e o sistema de faltas dos alunos.
 
Falo de lacunas graves em matérias essenciais no sistema de ensino português, falhas que mais à frente, na idade adulta e segundo os critérios do mercado de trabalho, se revelam perversas na medida em que condicionam as escolhas profissionais e até a progressão em certas carreiras.
 
Nas escolas portuguesas os alunos não são ensinados a argumentar e a defender pontos de vista, não são treinados no debate de ideias e muito menos estimulados no improviso e na expressão oral. Não existem aulas para aprender a falar em público nem as matérias relacionadas com a comunicação são muito exploradas e é pena pois os portugueses apresentam sérias desvantagens num campo cada vez mais exigente e determinante.
 
Numa era claramente marcada pela comunicação, ter dificuldade em exprimir ideias, em alimentar um debate ou manter uma polémica com quem tem opiniões divergentes é um handicap tremendo. A diversidade de dons é e será sempre enorme e hoje em dia ganha mais quem comunicar melhor aquilo que sabe.
 
Tão importante como pensar e fazer bem as coisas é saber comunicá-las. Acontece que no sistema de ensino nacional não existem cadeiras específicas de comunicação e o resultado é que a generalidade dos portugueses não se sente confiante na expressão verbal das suas ideias e competências.
 
Passo a vida em conferências, seminários, workshops, encontros e discussões públicas sobre inúmeras questões e saio de lá quase sempre com a frustração de ver que os conferencistas nacionais são os mais chatos e os mais abstractos. Usam powerpoints palavrosos e incrivelmente densos, limitando-se a debitar em alto o que está escrito no ecran que é projectado ao lado.
 
Sempre que alguém fala para uma plateia desta forma dá um tiro no pé. A audiência não consegue acompanhar nem as palavras escritas nem as palavras ditas e, por isso, a comunicação é nula. Um desperdício em toda a linha, portanto.
 
Há os que escrevem o que querem dizer para não correrem o risco de se esquecerem ou para manterem uma coerência discursiva impecável ao longo da sua intervenção mas também estes falham muitas vezes a comunicação por uma razão simples: enquanto lêm o papel não olham para a plateia e não falam verdadeiramente com quem está presente. Até podem dizer coisas bem articuladas do ponto de vista literário mas como não adaptam o discurso às circunstâncias, não percebem para quem falam nem se detêm na eficácia daquilo que comunicam.
 
Salvo as raras e honrosas excepções dos que têm essa maravilhosa capacidade de ler um texto como quem conversa, usando um tom coloquial e um estilo simples, todos os que lêm um papel em alto tornam-se monótonos. Pior, como trouxeram as coisas escritas de casa e não fazem nada de improviso, tudo aquilo soa a ‘minuta’. Ou seja, a coisa que tanto pode ser dita aqui como repetida ali.
 
Por tudo isto e porque é nas escolas e nos liceus que estas competências devem ser adquiridas e treinadas não me canso de falar sobre a gravidade desta lacuna no nosso sistema de ensino. O que me cansa é ouvir chatos muito chatos. 
 
 
       
imagem tirada deste blog
 
 
 
    
publicado por Laurinda Alves às 20:01
link do post | comentar | ver comentários (12) | favorito
Sábado, 8 de Novembro de 2008
Esta é a América que Rosa Parks sonhou!

 

 (Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, dia 7 de Outubro)

 

Se fosse viva, Rosa Parks teria agora 95 anos e teria certamente votado Obama. A lendária activista que no dia 1 de Dezembro de 1955 se recusou a levantar-se no autocarro para dar o seu lugar a um branco, e depois lutou arduamente contra a segregação racial durante toda a sua vida, teria ficado muito contente com esta vitória e sentiria que era finalmente esta a América dos seus sonhos.
 
Obama referiu Ann Nixon Cooper no discurso de vitória, no momento em que celebrava a sua eleição num país ainda minado de preconceitos raciais, e ao dar um nome e uma cara a esta pacífica mulher negra de 106 anos que vive em Atlanta e contribuiu para que fosse eleito presidente dos Estados Unidos, Obama recordou obrigatoriamente Rosa Parks, Irene Morgan, Sarah Louise Keys e tantas mulheres e homens que heroicamente contribuíram para que a igualdade de direitos fosse uma realidade, personificada agora nesta sua eleição.
 
Obama declarou que Ann Nixon Cooper “nasceu apenas uma geração depois da escravatura e viveu numa época em que não havia automóveis nas estradas nem aviões no céu; em que uma pessoa como ela não podia votar por duas razões: porque era mulher e por causa da cor da sua pele” e ao proclamar este exemplo sublinhou a sua vitória histórica num país profundamente marcado por divisões de classes e confrontos raciais.
 
Há pouco mais de um ano Obama declarava no seu livro The Audacity of Hope que é um homem prisioneiro da sua biografia. “Não posso deixar de contemplar a experiência americana pelos olhos de um negro com origens mistas, que carrega para sempre no espírito a forma como eram subjugadas e estigmatizadas gerações de seus semelhantes, bem como as formas mais ou menos subtis como a raça e a classe social continuam a moldar as nossas vidas. Mas não sou só isto.”.
 
Obama ganhou, meio mundo vibrou e ainda não se calou. Este homem que fatalmente há-de desiludir muitas pessoas, como ele próprio sempre soube e admitiu logo no discurso inaugural, ganhou muito mais do que uma eleição presidencial. Venceu o preconceito, renovou a esperança e provou que “é pelo sonho que vamos”.
publicado por Laurinda Alves às 01:22
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Detesto estes gestos obscenos no meio do trânsito!

(Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, 7 de Outubro)

 

Detesto gestos obscenos feitos com raiva, arrogância e desprezo no meio do trânsito. Detesto más maneiras e gente castigadora que usa e abusa de palavrões a propósito de tudo e de nada.

 

Numa semana marcada por situações de descontrolo ao volante, em que assisti a duas cenas caricatas protagonizadas por pessoas aparentemente de bem, gente que habitualmente não se excede nem grita, ocorre-me falar do conceito road rage que, afinal, é um fenómeno universal.

 

Está estudado que todos ficamos potencialmente mais agressivos quando estamos ao volante, e é interessante explorar o que dizem os especialistas em comportamento nesta matéria tão sensível como explosiva da fúria de guiar.

 

Dos mais pacatos aos mais nervosos todos temos alterações de comportamento quando guiamos um carro. Ninguém escapa à regra e, ao que parece, não há excepção.

 

Pais dedicados e tranquilos gritam obscenidades em frente dos filhos só porque o taxista da frente parou na berma sem fazer pisca; mulheres educadas e competentes perdem a cabeça e dizem palavrões de rajada porque um carro se atravessou no seu caminho; senhores todos postos por ordem fazem gestos ameaçadores quando se sentem pressionados por uma buzina mais insistente; jovens ditos normais transformam-se em seres coléricos quase bizarros se alguém não os deixa ultrapassar, e até velhinhos e velhinhas podem transformar-se em pessoas verdadeiramente hostis na estrada.

 

Feliz ou infelizmente ninguém é imune à raiva nem ao espírito de retaliação quando está ao volante. Todos somos vulneráveis à ira e todos somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal.

 

Há uns anos atrás escrevi sobre este assunto na revista XIS e agora retomo-o justamente pelas duas cenas de rua que presenciei em pleno centro de Lisboa e só não acabaram mal por absoluto milagre.

 

Leon James, psicólogo norte-americano que investiga as razões daquilo a que se convencionou chamar road rage e orienta cursos de traffic psychology há mais de 30 anos, tem um método de investigação, ensino e treino muito particular: pede aos seus alunos que instalem câmaras de filmar dentro do carro e propõe-lhes que gravem livremente e sejam actores dos seus próprios filmes.

 

Em sucessivos anos de gravações, Leon conseguiu resultados prodigiosos na medida em que consegue analisar com muita precisão a forma como cada um reage a pequenos e grandes acidentes de percurso.

 

O efeito espelho proporcionado pelas gravações é profundamente embaraçante mas altamente eficaz na correcção dos excessos. Isto porque devolve a cada um dos protagonistas e exacta medida da sua raiva, e revela até onde pode ir a sua agressividade. Mais, os vídeos permitem perceber a rapidez e a desproporção com que reagimos a estímulos insignificantes.

 

A teoria sobre o fenómeno road rage é vasta e abrangente e na impossibilidade de a resumir aqui, deixo as referências sobre a matéria e uma pista sugerida por Leon James que aconselha a adoptar uma atitude de latitude na estrada. Ou seja, a ganhar distância e a resistir ao desejo de vingança ou retaliação que tantas vezes nos assalta quando estamos ao volante e tudo nos parece uma provocação.

 

Esta atitude de latitude consiste em antecipar os erros dos outros, em concentrarmo-nos na eficácia e prudência das nossas próprias manobras em vez de nos desperdiçarmos a castigar perversamente os que se atravessam no nosso caminho.

 

Acima de tudo importa manter sempre uma certa distância de quem vai à nossa frente, ao nosso lado ou atrás de nós. Parece óbvio, não parece? Dito aqui, sim, mas vivido na estrada no cúmulo de nervos e stress habitual, as coisas não são assim tão fáceis.

 

Leon aconselha muito sentido de humor e uma capacidade de encaixe superiormente ensaiada, na certeza de que os erros que os outros fazem hoje não são maiores do que os que nós fizemos ontem ou faremos amanhã. 

publicado por Laurinda Alves às 01:13
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
Sábado, 1 de Novembro de 2008
O pequeno livro de um grande homem

(crónica escrita para o Público de sexta-feira, dia 31 de Outubro)

 

Tenho na minha secretária um livrinho estreito e comprido, de apenas 70 páginas, que passou quase despercebido enquanto esteve enfiado numa das pilhas que se multiplicam sobre a madeira clara e ampla onde há de tudo, desde o colossal Paraíso Perdido de John Milton ao último micro-conto escrito por Juan Manuel de Prada, passando pelas Opiniões Fortes de Nabokov, pelos Scritti Sull’Arte de Rothko, uma de várias biografias de Yourcenar, os Retratos e Auto-Retratos de Vasco Pulido Valente, revistas de culto, colecções de contos, livros mais ou menos avulsos, muita poesia e um cúmulo de papelada chata sempre em atraso.
 
 
 
 
Olho para o pequeno livro, entalado entre Brodsky e Beckett, tiro-o da pilha e abro-o ao acaso. É uma colectânea de crónicas escritas no ano de 1990 por Alberto Vaz da Silva, com fotografias de Jorge Molder. As crónicas, publicadas no jornal Semanário, têm um título exclamativo e são eloquentes do espanto-à-flor-da-pele de Alberto, coisa que sempre me fascinou nele. “Ah!” era o título das páginas efémeras do jornal e é agora o nome do livro cujo destino é permanecer, mesmo quando teima discretamente em sumir-se entre as lombadas dos fortes e poderosos da escrita.
 
Li este livro quando me foi oferecido pelo próprio Alberto e lembro-me de o ter lido sempre com um sentimento especial. Qualquer coisa de indizível mas que aqui e ali se traduziu num sorriso pelo reconhecimento íntimo de uma figura; numa pausa provocada pela curiosa abstracção de quem (d)escrevia ou pela precisão de uma elaboração mais incisiva e interpeladora. Hoje voltei ao livro e tive a mesma sensação. Começa por haver uma página lisa e limpa onde se lê, em letra impressa, a palavra “Dedicatória”. Gosto desta ideia de abrir uma página especial para dedicar o livro, sem ter que disputar depois os espaços em branco entre títulos e sub-títulos.
 
Esta página, onde Alberto escreve à mão aquilo que quer dizer a quem oferece o seu livro ou onde uns assinam para dedicar a outros, é apenas um detalhe eloquente da sensibilidade e delicadeza de alma de Alberto Vaz da Silva, que é um homem grande no sentido literal mas também no sentido mais profundo do termo.
 
 
Conheci o Alberto há 25 anos numa casa muito bonita que tem numa pequena aldeia no alto de um monte debruçado sobre campos lavrados, com mar ao fundo. Helena e Alberto sempre revelaram o melhor de si mesmo nas casas que habitaram e esta era invulgarmente bonita. Acima de tudo, muito vivida e bem vivida. Ali chegavam e partiam filhos, netos, amigos e amigos dos amigos, e para todos eles havia um gesto acolhedor, um lugar próprio, um pequeno nada que fazia toda a diferença. Em dias frios, de vento salgado, a casa estava sempre quente e a cheirar a forno. Nos dias quentes as janelas ficavam abertas dia e noite e havia pátios e terraços para ficar a ver as estrelas e a ouvir os barulhos do mundo.
 
Nessa casa havia e há um pequeno mirante onde Alberto passava longas horas a olhar para o céu com o seu eterno espanto de rapaz que não se cansa de perguntar e voltar a perguntar.
 
Os anos passaram e mesmo quando estivemos mais ausentes sabíamos que estávamos presentes. Aconteceram coisas muito boas e muito más, ganhos fantásticos e perdas dolorosas que partilhámos por pertencermos a um núcleo alargado de pessoas que se querem bem e gostam muito. Fomos cruzando caminhos e actualizando estórias, às vezes em festas ou casamentos de amigos, outras vezes em lanches que também eram tertúlias no jardim de Lisboa, outras ainda em conversas breves nos encontros de rua ao acaso.
 
Alberto Vaz da Silva foi advogado uma vida inteira sabendo de coração que o seu maior dom é o da decifração cósmica, esse desvendar consciente dos sinais do universo, essa interpretação maravilhosa dos mistérios da vida. Fascinado pela Astrologia e pela Grafologia (escritas com maiúsculas, note-se) correu mundo, conheceu gente, explorou bibliotecas e chegou muito longe. Sabe coisas que mais ninguém sabe e fala de traços e pontos com uma assurance e uma luz admiráveis. 
 
Encanta-me esta sua ciência e apaixona-me o seu entusiasmo e, por isso, nunca me canso de o ouvir falar. Inscrevi-me num dos seus cursos de grafologia para saber mais sobre esta linguagem íntima que nos revela e surpreende. Fiquei a saber muito pouco mas a culpa não é do Alberto, é minha porque fiz apenas o primeiro módulo. A Grafologia é de tal maneira densa e complexa que são precisos anos de estudo aturado para começar a entrar na lógica e desenho das letras escritas por mãos que pousam no papel e deixam marcas indeléveis da personalidade.
 
Alberto tem uma voz forte e um discurso vibrante sempre que fala destas e outras matérias que nos transcendem. É impossível não ficar suspenso das suas palavras, dos seus raciocínios, da sua arquitectura mental e afectiva tão extraordinária como sedutora.
Hoje lembrei-me dele por causa do livrinho pousado sobre a secretária. Ia escrever sobre outras coisas mas ele prendeu-me a atenção e obrigou-me a mudar de ideias. E de rumo.
É incrível como um pequeno objecto, tão fino e discreto pode impor a sua presença desta maneira. Escondido entre obras volumosas, hoje gritou e eu ouvi. Não sei explicar estas coisas mas o Alberto sabe de certeza. E se, por acaso, não souber explicar pelo menos sabe compreender.
 
E termino a minha deriva com uma citação do livro, da primeira crónica em que Alberto se pergunta o que aconteceria aos homens se estabelecessem e mantivessem contacto com uma inteligência extraterrestre, e onde se interroga sobre quais as melhores pessoas e os saberes mais elevados que os terrestres poderiam levar consigo numa embaixada que pudesse dar aos outros uma imagem da Terra?
 
“Seria preciso meter à pressa num saco velho as guerras e os genocídios, a política mais primitiva, a palidez da imprensa, o mais ou menos vergonhoso abuso generalizado do poder sob a forma de dinheiro. Reunir-se-iam certamente os estandartes Galileu; Newton e Einstein, Leonardo, Miguel Ângelo, Homero, Shakespeare, uma selecção dos poucos vestígios autênticos da Antiguidade, talvez Empédocles, livros sagrados, Mozart e alguns mestres, sábios, santos e homens pacíficos do Oriente. Se fosse hoje, Gandhi, João XXIII e Gorbachev. Umas quantas formigas, marsuínos, frésias. E os cumes dos Himalaias.”  
              
publicado por Laurinda Alves às 15:55
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008
The New Philanthropists

 

 

A New Gen

 

Para muitos o conceito new gen diz respeito às novas gerações. Está certo mas está, porventura incompleto. New gen também se aplica a uma casta especial de novas e velhas gerações sempre que se fala da new generosity dos filantropos modernos. De gente de todas as idades, raças, credos e feitios que têm em comum serem ricos e altruístas.
 
Muito se tem dito e escrito sobre as fundações dos Bill Gates deste mundo que usam a veia para enriquecer e a fortuna para apoiar os mais pobres. Não é uma novidade, portanto. Mas é um tema que apetece explorar até porque é interessante saber mais sobre a maneira como uns e outros põem os talentos a render. Os que ajudam e os que são ajudados, quero dizer.
 
Um dos livros mais apetecíveis sobre a matéria foi escrito e fotografado por Charles e Elizabeth Handy, um casal de ingleses (ele irlandês, radicado em Inglaterra) que publicou The New Philantropists (editora William Heinemann, London), uma colecção de perfis e retratos de homens e mulheres com propósitos humanitários em todos os cantos do mundo.
 
 
Charles Handy, economista com muita experiência na City de Londres mas também na Malásia, coordenou a London Business School, onde ainda é professor convidado,
e é conhecido por ser o ‘filósofo da gestão’. Charles Handy analisa e sintetiza a substância da modernidade económico-financeira, neste tempo marcado por ciclos de mudança e evolução permanentemente trespassados por grandes paradoxos e incertezas. Alguns dos seus livros são referências incontornáveis para quem gosta ou precisa de interpretar os sinais dos tempos, e este de que falo não é excepção.
 
The New Philantropists é um livro extraordinário até do ponto de vista estético pois as fotografias de Elizabeth Handy enchem as páginas de detalhes poéticos de alguma forma invulgares em escritos sobre estas matérias mais ou menos áridas.
 
O casal decidiu entrevistar 23 filantropos de todas as nacionalidades para conhecer melhor os seus projectos e as suas motivações de fundo e o resultado é uma colecção muito sedutora de retratos, no sentido literal e literário do termo. As imagens de Elizabeth inspiram e o facto de ter pedido aos entrevistados que deixassem fotografar também um conjunto de objectos pessoais importantes para cada um deles revela uma intimidade desafiadora e uma profundidade maior.
 
Neste livro de capa dura e edição cuidada só há histórias de gente apostada em deixar este mundo melhor do que o encontrou e a variedade dos percursos profissionais, das histórias de vida e das derivas pessoais é fascinante. Citar aqui um exemplo é difícil pelo embaraço da escolha. Todos os entrevistados me parecem sugestivos. Por isso deixo a sugestão, passe a redundância.
 
 
...........................................................................................................
 
 
 
 
O Poder dos Insensatos
 
E por falar em livros que prendem e modificam o nosso olhar sobre a realidade, não resisto a falar de um outro, ainda mais recente, editado há poucos meses pela Harvard Business Press, Boston.Também é um livro elegante de capa dura (adoro livros de bolso e livros de capa dura, vá-se lá saber porquê) e tem um título igualmente atraente: The Power of Unreasonable People.
 
Escrito por John Elkington e Pamela Hartigan, desperta para esta cultura emergente dos empreendedores sociais que medem o sucesso dos seus negócios pela quantidade de pessoas que conseguem ajudar e não pela quantidade de dinheiro que são capazes de ganhar. Soa demasiado romântico? Talvez. Utópico até, quem sabe. Mas é verdade que esta gente existe e anda por aí.
 
Pertenço a duas redes recém-criadas, uma de jovens empreendedores sociais e outra de seniors comprometidos com projectos de responsabilidade social e esta proximidade tem sido muito inspiradora. Revela outras pessoas e outra mentalidade. E indica que há coisas que estão mesmo a mudar. Ou seja há empresários de sucesso a criar mercados que transformam o mundo e o tornam um lugar possível.
 
E não falo apenas de Muhammad Yunus, note-se. Falo de outros como ele, mais ou menos anónimos, que contra toda a lógica investem em coisas que parecem impossíveis e mais à frente se convertem em soluções possíveis.
 
O livro começa com uma citação de George Bernard Shaw: “the reasonable man adapts himself to the world, the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man.”
 
A definição assenta a muitos ‘loucos’ que conhecemos ou de quem ouvimos falar por terem criado projectos que aparentemente não encaixavam nos padrões habituais mas acabaram por revolucionar o sistema. Sabemos que os tempos de crise são, também, tempos de oportunidade e o que estes insensatos provam é que é possível remar contra a maré e até tirar proveito dos ventos mais desfavoráveis.
 
Livros como este e o outro de que falo no texto anterior rasgam o horizonte e mostram um universo em transformação. São livros poderosos que explodem como bombas na nossa vida, especialmente se o quotidiano é vivido numa lógica de sequência ou daquilo a que chamamos ‘mais do mesmo’. Aconselho um e outro, para ler com atenção e manipular com cuidado, portanto.
publicado por Laurinda Alves às 18:20
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
As minhas crónicas do Público hoje

(Textos escritos para o jornal Público de hoje. Fotos de João Francisco Moura, in Flickr)

 

Já não há nada a fazer? 

 

Ao longo da vida todos vamos ouvindo frases mais ou menos desagradáveis e daninhas mas nenhuma é tão perversa como esta: “já não há nada a fazer!”. Dita a um doente em fase terminal ou com doença incurável, é uma frase verdadeiramente assassina.

 

Quem nunca a ouviu, dê-se por muito feliz. Quem nunca a disse, tente permanecer deste lado da barricada. Quem alguma vez a proferiu perceba o alcance do tiro que deu porque quem a ouve, morre sempre um bocadinho. Começa a morrer naquele preciso minuto.

 
Condenar os vivos a uma morte em vida, é a pior condenação que conheço. E sei do que falo porque há anos que vivo com a memória do olhar de um amigo que me contou como era viver essa condenação num corredor de terminais de um hospital oncológico. Explicou-me como era acordar e adormecer todos os dias à espera de saber se era finalmente aquele o dia em que morria.
 
O meu amigo chamava-se Paulo, tinha a idade de um dos meus irmãos, fazia mergulho com eles e não lhe apetecia nada morrer. Muito pelo contrário, adorava viver, tinha uma predilecção especial pelo fundo do mar e contava tudo o que via. Passava horas a fio dentro de água e tinha o sonho de viver uma vida longa, que lhe permitisse explorar aquele mundo líquido de luz e sombras.
 
Aos 20 anos diagnosticaram-lhe um cancro e como era novo tudo aconteceu muito rápido. A doença evoluiu demasiado depressa e em poucos meses ele estava acamado na ala dos doentes terminais. Era duro visitá-lo porque era Verão. Fora do hospital havia sol e fazia calor, todos estávamos de férias, íamos à praia e mergulhávamos no mar de consciência pesada por podermos fazê-lo com inteira liberdade.     
 
“ Disseram-me que já não havia nada a fazer e puseram-me aqui nesta ala onde só estamos à espera de morrer. É terrível. À noite tenho pesadelos e não consigo dormir mas há quem chegue a pôr as campainhas de urgência fora do nosso alcance para não podermos chamar ninguém. Acham que é tempo perdido porque vamos morrer e não sabem o que nos hão-de fazer.”
 
Lembro-me do gesto que desenhou no ar com o braço, para me mostrar o que queria dizer. Era alto, tinha sido um desportista e, por isso, ainda tinha uma amplitude de gestos notável dado o seu estado clínico mas, mesmo assim, a mão não chegava à campainha pendurada num fio que alguém tinha posto num lugar realmente impossível de alcançar. Impressionou-me na altura e ainda hoje me faz impressão que haja profissionais de saúde sem vocação nem coração.
 
Paulo passou o último mês da sua vida naquele corredor de terminais. Morreu num dia que amanheceu igual aos outros, cheio de sol e luz. Nunca mais me esqueci da luz desse dia.E se agora conto tudo isto é porque hoje é (foi!) o dia de apresentar publicamente o primeiro estudo sobre Cuidados Paliativos que se fez em Portugal.
 
Às 15h30, na Fundação Gulbenkian, vamos falar sobre a importância de receber cuidados paliativos na doença crónica, progressiva, incurável e terminal. Digo vamos porque vou estar na mesa com Isabel Galriça Neto, especialista em CP, Carlos Liz o investigador que orientou e interpretou o estudo feito pela Apeme, e Marcelo Rebelo de Sousa que comenta os resultados do estudo em questão.
 
Eu estou na qualidade de voluntária numa Unidade de Cuidados Paliativos, onde testemunho semanalmente a preparação técnico-científica e a atitude humana e humanizante de toda uma equipa de profissionais especializados em proporcionar qualidade de vida aos doentes.
 
Naquela equipa nunca ninguém disse nem dirá que “já não há nada a fazer!” pela simples razão de que todos sabemos que “há tudo a fazer para dar qualidade de vida a uma pessoa doente!”.
 
 
O maior tabu da Humanidade
 
A morte é o grande tabu da Humanidade. Todos estamos a prazo mas todos temos dificuldades em lidar com a morte.Nesta lógica e porque a esmagadora maioria das pessoas ainda associa Cuidados Paliativos a doentes terminais ou a ‘acompanhamento para velhinhos’, insisto que vale a pena abrir esta discussão e torná-la o mais abrangente e esclarecedora possível.
 
A simplificação do discurso ajuda imenso à compreensão e torna as coisas menos abstractas. Antes de definir exactamente o que são Cuidados Paliativos e a quem se destinam, gostava de contar só mais uma história que vivi à cabeceira de alguém muito querido e também muito novo, com um diagnóstico igualmente fatal.
 
No hospital onde estava internado não havia profissionais especializados em Cuidados Paliativos mas apenas uma Unidade de Dor. Este serviço prestava um enorme apoio aos doentes e seus familiares mas tinha um grave ‘senão’: por questões administrativas esta Unidade apenas estava aberta das oito da manhã às oito da noite. Depois fechava e só abria na manhã seguinte. Ou seja, durante a noite não havia apoio aos doentes com dor. Isto, num piso onde as noites eram dolorosamente longas para todos os internados.
 
De noite tudo dói mais. O corpo massacra e o espírito atormenta. Se nos acontece sentirmo-nos perdidos quando temos uma ‘simples’ dor de dentes durante a noite, como será ter um tumor cerebral que dá dores lancinantes e impossíveis de traduzir por palavras?
 
Neste cenário de um hospital que tem uma Unidade de Dor cujo guichet fechava pontualmente às oito da noite para abrir doze horas depois, vivi momentos de profunda angústia e assisti a crises horríveis que também jamais poderei esquecer. Dói sempre a dor dos que nos são queridos. Não sofremos o que eles sofrem mas magoa a impotência. Enche de raiva e frustração.
 
Passaram quase dez anos sobre esta história que agora conto e sobre a qual ainda me custa falar, e não voltei mais àquele hospital. Espero nunca ter que lá voltar.
 
Por ter estado à cabeceira de três pessoas que me eram muito próximas e especialmente queridas e por ter assistido a sofrimentos desnecessários nos três casos, fiquei sempre mais atenta a esta realidade dos Cuidados Paliativos.
 
Os meus dois amigos morreram sem estes cuidados e a Joana, minha afilhada que teve um cancro aos dez anos, sobreviveu a um calvário de operações e tratamentos sem este plus de ter uma equipa especializada em controlar e prevenir o seu sofrimento. Falo do sofrimento físico, que requer uma ciência muito sofisticada para afinar os cocktails de químicos, as terapias e os tratamentos, mas também falo do sofrimento moral e emocional dos doentes e de quem os acompanha.
 
Posto isto, importa desfazer o mito urbano que diz que Cuidados Paliativos são cuidados humanos prestados por pessoas boazinhas a velhinhos e doentes que estão a morrer. Não são. Esta ignorância sobre a matéria prejudica gravemente a nossa dignidade na medida em que nos impede de reconhecer um direito humano fundamental.
 
Todos temos direito a CP se tivermos uma doença grave, progressiva, incurável ou terminal. Ou seja, os Cuidados Paliativos aplicam-se a todas as idades e em várias doenças e não apenas a pessoas em estado terminal.
 
Mais, os CP são cuidados especializados, técnica e cientificamente muito sofisticados, insisto, que exigem preparação técnica e estratégias de abordagem específicas. Também neste campo é essencial perceber que não se trata de uma legião de pessoas de boa vontade mas de equipas compostas por médicos, enfermeiros, auxiliares, psicólogos, terapeutas, técnicos e voluntários que prestam cuidados aos doentes e suas famílias adequados às suas necessidades únicas.
 
E concluo sublinhando que numa era que os cuidados especializados no início da vida são um direito adquirido, é vital que este direito se estenda ao fim da vida e aos períodos em que estamos no auge da nossa fragilidade. Lutar pelos nossos direitos, mesmo quando eles mexem com o maior tabu da Humanidade é um exercício de cidadania.
 
 
 
publicado por Laurinda Alves às 23:29
link do post | comentar | ver comentários (32) | favorito
Sábado, 4 de Outubro de 2008
As minhas crónicas do Público ontem

 

 
Um almoço
 
Flores frescas nas jarras, compradas a meio da manhã num dia de sol e céu azul, já com aquele sopro do Outono. Um vento leve que toca nos ombros, que levanta o cabelo quando dobramos as esquinas da cidade e que faz com que as folhas que se desprendem das árvores não caiam logo no chão.
 
Na loja das flores há um balcão de pedra em xisto preto cortado aos rectângulos largos, onde se pousam os ramos entre tesouras e fitas.A senhora de avental tira os espinhos das rosas e corta-lhes os pés com gestos rápidos e clics metálicos. Depois embrulha tudo em papel pardo. As flores ficam muito melhor naquele papel do que no celofane enfeitado das floristas de montra a dar para a rua.
 
Em casa separo ou junto as flores conforme as cores, e disponho as jarras em cantos e mesas que apanham sombra, porque as janelas estão sempre abertas para entrar mais luz e calor.
 
Somos seis à mesa para almoçar num dia aparentemente banal. Nem todos se conhecem mas cada um conhece pelo menos outro. Gosto de pontes e de encontros. Chegam à hora combinada e as conversas evoluem primeiro entre a sala e a varanda, onde as vozes ficam mais alegres e descombinadas.
 
Quando nos sentamos há um breve silêncio inicial, sagrado e selado com palavras adequadas.
 
Os telemóveis ficaram desligados dentro do bolso dos casacos arrumados noutra ponta da casa. A conversa correu livre e animada, sem quebras nem hesitações, numa confiança tal que ficou logo tecida uma cumplicidade para a vida, numa intimidade invulgar mas de certa forma anunciada.
 
Aqui e ali foram tocados patamares mais elevados do que é habitual em almoços do dia, onde tudo acontece a correr e as derivas resvalam fatalmente para a crise económica ou vão bater nos políticos e nos enredos partidários. Sem pressas mas com horas marcadas a seguir, todos nos deixámos ficar como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
 
E foi nessa espécie de embalo que nos demos conta que já passava das quatro da tarde. E foi nesse tempo demorado, sem tempo, que reparei que todos os que estavam sentados à minha volta tinham olhos limpos, transparentes. Falo daquela transparência brilhante e rara que revela sempre uma alma lavada.
 
..........................................................................................................

 

 

 
Um lanche
 
Dias antes do almoço, um lanche no Porto, no Club Inglês. Uma tarde igualmente luminosa mas sem vento a trespassar as árvores seculares e sem fazer mexer as pétalas muito quietas das flores plantadas e cuidadas por mãos fortes de homens que ajoelham na terra.
 
Quando cheguei, a minha amiga estava a ler. Não me viu porque estava voltada de costas para a entrada. Tinha chegado primeiro e já tinha encomendado scones e chá para as cinco da tarde. Em ponto.
 
Ficámos por ali em conversas avulsas entre risos e surpresas de agora, contadas como se fossem segredos antigos. Somos de gerações diferentes mas quando estamos juntas temos exactamente a mesma idade. Não consigo sequer lembrar-me que ela podia ser minha mãe. E podia.
 
Uma e outra guardámos a tarde para este encontro e, por isso, não houve questões com horas. Olhámos para o relógio apenas duas vezes: uma para conferir a combinação feita com outra amiga que chegaria pelas cinco e, mais tarde, para acertar a entrada com o quarto deste círculo íntimo, que ficou de aparecer pelas seis.
 
Às cinco chegou a amiga que podia ser minha avó mas também é como se fosse minha irmã e as conversas abriram com a mesma leveza com que se abre um leque de senhora na ópera. A música mudou e o filme da tarde também. Uma e outra são mulheres que atravessaram o século sempre à frente do seu tempo e continuam a abrir caminhos aos outros. Uma numa versão mais literária, outra mais psicanalítica, mas ambas com a mesma poesia e a mesma leveza na vida.
 
 
Licenciadas em Filosofia, falam de Espinoza com a mesma naturalidade com que comentam os acontecimentos do dia ou pedem manteiga em vez de doce para os scones. Não se levam demasiado a sério e é isso que faz delas mulheres sem idade.Por mim ficava ali com elas até ao anoitecer e depois montávamos três tendas, como se diz nas Escrituras.
 
Passava das seis quando chegou ele, o único homem entre três mulheres, e se apresentou com o sorriso de sempre e o olhar vibrante do costume. Também ele tem olhos limpos, transparentes, dou-me conta agora que escrevo. E também ele marca os outros pela maneira como olha e fixa o essencial.
 
Sentado na sua eterna cadeira de rodas é como se tivesse chegado a andar pelo seu pé. Se um dia se levantar e caminhar não me espanto porque é como o vejo: um homem com passo firme, que conhece a terra que pisa.
 
E foi quando finalmente ficámos os quatro à volta da mesa que o tempo parou. À nossa volta cresciam as sombras e o mundo cobria-se de escuro. Antes de ficar noite acendeu-se no céu uma luz púrpura ardente colada ao fio do horizonte e foi essa luz que celebrou o entardecer de um dia que nunca há-de ter fim.
 
(o lanche foi com a Zilda Cardoso, a Maria Angélica Andresen Castro Henriques e o Bento Amaral)
.........................................................................................................
 
 
 
Um projecto
 
Um barco grande, todo branco, muito comprido e elegante chegou recentemente à baía de Cascais, vindo da Nova Zelândia. Dá-se por ele e apetece chegar a ele. É um Maxi Catamarã de 102 pés com um palmarés notável, construído há mais de 20 anos pelo lendário Nigel Irens, o Philippe Starck dos barcos, por assim dizer.
 
Campeão do mundo, recordista de velocidade no mar e várias vezes premiado por proezas fabulosas contadas por velejadores oceânicos, ficou em segundo lugar na Oryx Quest em 2005 (regata à volta do mundo) e é um barco que mantém a sua integridade estrutural. Ou seja nunca virou no mar apesar da velocidade alucinante que atinge (um verdadeiro TGV que pode fazer 900km num dia!) e apesar de enfrentar ventos desencontrados em mares desordenados que quebram mastros e afundam embarcações porventura tão estáveis como esta.
 
Considerado o Maxi Catamarã com mais gabarito do mundo, está em Portugal a preparar-se para uma competição oceânica de circumnavegação que vai acontecer daqui a meses. Neste tempo do meio a tripulação vai afinando técnicas e ensaiando tempos mas, também, apurando (ou depurando, quem sabe) quem vai e quem fica em terra.
 
Gonçalo O’Neil, 42 anos, actual skipper, velejador sábio e experiente que já completou duas voltas ao mundo e obteve vários recordes a bordo deste barco, está neste momento a formar uma equipa totalmente portuguesa misturando velejadores novos e ‘antigos’, numa estratégia que pretende despertar o interesse pela vela oceânica nos jovens.
 
Esta semana estive a bordo do Maxi Catamarã num entardecer de sonho em que o Gonçalo e o Mário Sampaio, dois elementos inaugurais desta tripulação de excelência, falaram sobre os projectos do próximo ano neste barco. Fiquei a saber que a prova de circumnavegação vai ser o culminar de outras provas a disputar ao longo dos próximos meses.
 
E percebi que a campanha deste e de outros barcos inscritos nesta odisseia incluem um projecto educativo que envolve escolas e alunos.Ou seja nos próximos tempos haverá disponibilidade para receber gratuitamente crianças e adolescentes com tempo para explicações técnicas, elaborações teóricas e experiências mais ou menos radicais.
 
Termino com um episódio que envolve o dono do barco, Tony Bullimore, velejador inglês de quase  80 anos, conhecido pelas suas proezas e pela qualidade dos seus barcos mas, acima de tudo, por ter sido dos raros homens que sobreviveram cinco dias e cinco noites dentro de água no Pacífico Sul, a duas mil milhas náuticas de terra, ao perder a quilha da sua embarcação.
 
O barco de Tony virou e ele ficou mergulhado até ao pescoço naquela bolha de ar que fica dentro quando um barco se vira. Vestido com o fato de sobrevivência obrigatório em alto mar, Tony sabia que podia aguentar três dias, no máximo. Não tinha água nem comida e estava imerso num mar gelado. Fumador inveterado, teve momentos em que o único desejo era fumar um cigarro antes de morrer e eis que ao segundo dia se lembrou que um dos rapazes que ajudaram a construir o barco fumava muito e guardava o maço de tabaco num reforço da quilha.
 
Tony fez esforços sobrehumanos para chegar a esse esconderijo no barco e quando estendeu o braço e procurou com a mão gelada e trémula no interior, encontrou um maço com três cigarros e … um isqueiro secos! Mais tarde contou como geriu esses cigarros e como se aguentou cinco dias sem morrer e esta história, que é real e emocionante, é apenas uma das que podem ser contadas a bordo deste Maxi Catamarã. 

 

publicado por Laurinda Alves às 11:12
link do post | comentar | ver comentários (9) | favorito
Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
Medalha de prata em Pequim

 

(texto escrito para o Público de sexta-feira passada)

 

Dan Fitzgibbon, 35 anos, australiano (ao centro, na fotografia) foi a medalha de prata de vela nos Paraolímpicos de Pequim. Dan e Bento Amaral (meu amigo e a minha melhor fonte de informação em matéria de olimpíadas) são amigos e disputaram na Austrália o Campeonato do Mundo em 2004.
Nesse ano Dan foi o campeão do mundo e Bento foi vice-campeão. No ano a seguir, em Itália, Bento sagrou-se campeão do mundo e todos nos orgulhámos. Bento diz, com a simplicidade e o humor desarmante que o caracterizam, que só foi campeão do mundo porque Dan não competiu.
“Ele é muito melhor do que eu!”, garante. Acredito mas, para mim, ele é que continua a ser o campeão do mundo. E vou morrer a achar que o Bento é o melhor do mundo em muita coisa. Mesmo que não haja medalhas nem taças a prová-lo. Não são precisas.
Voltando a Dan, a sua história de vida interpela-nos irremediavelmente. Ele, Nick Scandone de quem falo no post anterior por ter ganho a medalha de ouro, e o próprio Bento são testemunhos de enorme coragem e grandeza.  Dan era a esperança olímpica australiana quando há dez anos teve o acidente que o deixou tetraplégico.
Por ironia do destino Dan tinha acabado de ganhar um campeonato de vela no seu país e no entusiasmo de mais uma conquista que o levaria, mais tarde ou mais cedo, aos Jogos Olímpicos, os outros velejadores cumpriram o cerimonial de o atirar à água. Este gesto de atirar ao mar um campeão é uma tradição antiga da vela que acontece especialmente nos campeonatos importantes. É praticamente impossível escapar.
Dan fez o que fazem todos os outros e deixou-se atirar. Acontece que o mergulho foi mal dado e no embate ele fracturou uma cervical. Quando voltou à superfície toda a sua vida tinha mudado para sempre.
Bento conta-me esta história e faz-se silêncio entre nós. E mesmo sem falarmos, há um olhar de reconhecimento de uma situação que, afinal, é muito semelhante. As circunstâncias do acidente de Bento são tão inesperadas (ainda hoje parecem irreais) como as de Dan. Bento retoma o fio à meada e conta-me que Dan também não desistiu nunca.
Cumpriu o calvário da recuperação, viveu toda a frustração e superou os obstáculos, um por um. “Ele tem uma lesão muito parecida com a minha”, diz Bento. E eu, que sei tanta coisa sobre os anos que se seguiram ao seu acidente, percebo o que me está a dizer. Bento repara que pousei a caneta e abre um sorriso para eu não ficar cismática. Conta-me que a boa notícia do australiano nem sequer é ele ter ganho a medalha de ouro em Pequim.
“Sabes uma coisa? Encontrámo-nos este ano em Rochester, nos EUA, onde estava um velejador sueco de quem também ficámos amigos. Na Suécia as pessoas como nós têm direito a um acompanhante permanente pago pelo Estado e o Gustaf Fresk, o velejador sueco, que é casado e tem filhos, levava com ele uma rapariga muito gira que acabou por se se apaixonar pelo Dan.”
A boa notícia é que o Dan também se apaixonou por ela e está em vésperas de trocar a Austrália pela Suécia. Gosto de bons enredos e de histórias com final feliz.   
publicado por Laurinda Alves às 00:37
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito
Campeão olímpico de vela adaptada

 

(texto escrito para o Público de sexta-feira passada)

 

Em Pequim não há mar e, por isso, as regatas olímpicas e paraolímpicas decorreram em Qingdao (ler:Txingdao) a 600kms de distância, num mar adverso e desordenado, com pouco vento e muitas correntes, coisa que torna a competição mais difícil.
Qingdao, a sudoeste de Pequim, é a Suíça da China. Os atletas paraolímpicos estiveram lá em Maio, numa viagem de reconhecimento mas Nick Scandone, o americano que ganhou a medalha de ouro em Pequim, não foi nessa altura porque precisava de se preservar fisicamente, e de se poupar para as 11 regatas da competição olímpica.
Excelente velejador, Nick foi confrontado há seis anos com o diagnóstico de uma doença neuro-muscular degenerativa e foi-lhe dito que teria, no máximo, 2 a 4 anos de vida. A mulher de Nick diz que a vela tem sido a sua sobrevivência e o seu maior desafio mas, também, o seu grande estímulo.
Nick ouviu a sentença médica e em vez de baixar os braços, subiu a fasquia. Visualizou uma meta e traçou um plano. Dividiu o seu tempo ao meio e dedicou-se àquilo que sempre foi o maior prazer da sua vida: a vela. Treinava 15 dias seguidos e depois descansava outros 15, e foi neste tempo alternado e nesta vida multiplicada que apurou as suas performances e adquiriu forças para a competição final.
Nas regatas regulamentares de Qingdao, Nick que tem enorme dificuldade em falar e precisa de respirar entre cada sílaba impressionou todos os atletas presentes. Bento Amaral , o velejador paraolímpico português, e os outros sabem que quanto mais exercício físico faz, mais desgasta os músculos e mais depressa destrói as células do seu tecido muscular.
Apesar da irreversibilidade desta sua realidade, Nick Scandone transcendeu-se e os esforços olímpicos valeram-lhe a subida ao pódio para a medalha de ouro, ouvida ao som do hino americano entre lágrimas impossíveis de controlar. As dele e as nossas, quero dizer.
Agora, que Nick já voltou à Califórnia, Bento contou-me que sabe que ele está feliz por um lado mas infinitamente triste, por outro. A vitória era o seu objectivo e isso enche-o naturalmente de alegria mas há a outra realidade que o entristece e que ele não pode evitar.
A doença progrediu e o tempo que se segue pode ser um tempo muito doloroso de espera. Especialmente porque depois de Pequim e do pico da glória, fica um vazio insuportável e uma contagem decrescente para um fim que se anuncia e ameaça ser incontornável. Bento disse-me, com profunda tristeza, que Nick pode não chegar ao Natal e isso é muito duro de aceitar.
publicado por Laurinda Alves às 00:20
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
.pesquisar
 
.tags

. todas as tags

.posts recentes

. A minha última crónica no...

. Carta ao Presidente da Câ...

. Crónicas do Público, onte...

. Maravilha, hoje só tive b...

. Crónicas do Público à sex...

. Coisas da vida de hoje no...

. E finalmente a entrevista...

. Crónicas do Público de se...

. Os pedófilos 'amigos' das...

. Ainda o concerto de Alfre...

.arquivos
.mais sobre mim
.subscrever feeds