Hoje uso uma fotografia de Manuel Correia para contar um pequeno episódio eloquente do caracter de alguém que tenho como exemplo de vida, de generosidade e de bondade, alguém que amo com todo o coração, mas com quem nem sempre tenho um diálogo fácil. Falo do meu pai, que é uma das melhores pessoas que conheço, que consegue superar todas as barreiras e os obstáculos, transcendendo-se em cada dia. Como todos os bons pais, o meu está sempre atento aos filhos e cuida dos mais ínfimos detalhes. Por vezes exagera e nós reagimos. Neste fim-de-semana estávamos em família à lareira, mais ou menos calados, num daqueles serões em que uma filha lê, a outra conversa, os pais estão por ali e chega. De repente apeteceu-me engraxar as minhas botas e pedi-lhe a caixa de madeira com as graxas. Ele, igual a si próprio, trouxe tudo, mas foi-me dizendo que não devia fazer isso à noite, porque de dia se vê melhor e por aí adiante. E eu: "mas está-me mesmo a apetecer fazer isso agora, pai. Vá lá, não esteja sempre a dizer-me o que devo fazer, já não sou uma criança" (esta minha versão é muito chata, devo dizer. Tenho pena mas é verdade). E o meu pai a insistir: "de dia vê-se muito melhor, mas tu é que sabes." E eu, achando que sim que sabia, lá ia espalhando graxa nas botas de que mais gosto, que são pretas e uso quase todos os dias. Ele calado e eu também. Até que a luz das chamas fez rebrilhar uma cor esquisita na bota que eu estava mesmo a acabar de engraxar. De repente olhei e num sobressalto vi o desastre que acabara de acontecer: a bota estava impecavelmente engraxada de castanho! Nem queria acreditar. Olhei para o meu pai a tentar avaliar se ele estava a ver o mesmo que eu, mas ele continuava a ler o jornal aparentemente esquecido do nosso diferendo e da minha teimosia. Por breves segundos ainda pensei esconder as botas e fingir que estava tudo feito e bem feito, mas não fui capaz. Acabei por interromper a sua leitura. "Pai, tinha razão, olhe o que aconteceu: agora tenho uma bota preta e outra castanha!". E ele, sem me condenar, levantou os olhos do jornal e viu o que estava à vista. Não disse uma única palavra, nem lhe passou pela cabeça lembrar-me que me tinha avisado, e é essa a sua grande lição. Não só não condenou, como na manhã seguinte pegou no carro para me levar a uma drogaria da sua confiança para comprarmos uma graxa suficientemente forte e preta para apagar todos os vestígios de castanho. Lá fomos, mesmo em cima da hora do almoço e do fecho da drogaria, eu ainda relutante e meio chateada, ele com aquela atitude querida e verdadeiramente paternal de quem só está ali para ajudar. Comprou a super graxa preta, pagou tudo e viemos embora sem uma palavra de recriminação ou ironia. Grande pinta. Quando for crescida quero ser como ele.
Os nossos pais fazem hoje 52 anos de casados e não podemos estar mais felizes por eles. E por todos nós, que lhes devemos a vida, e que aprendemos com eles todos os dias. Cinquenta e dois anos é uma vida longa para qualquer casamento, especialmente nos dias que correm. Jamais conseguirei traduzir por palavras o orgulho, o amor e a gratidão que sinto pelos meus pais, por terem atravessado tempos fáceis e difíceis sem nunca quebrar, conseguindo sempre fazer das fraquezas, forças. E nunca serei capaz de lhes dizer que é um privilégio sem tamanho ser sua filha. Se hes digo isto sorriem e agradecem, mas acham que não sou imparcial para julgar. Parcial ou imparcial, sei que sou filha de um casal para quem a família é a primeira e a última prioridade. Tiveram 5 filhos e 5 netos (por enquanto) e nunca, nunca os vi indisponíveis para nos acolher, para nos ajudar, para estarem sempre que faz sentido ou precisamos. Mais, a leveza que trazem às nossas vidas impressiona-nos a todos, pois nunca se queixam de nada e tudo é feito com amor e alegria. Graças a Deus estão razoavelmente bem de saúde, são completamente autónomos e vivem uma vida tranquila. São um verdadeiro exemplo para nós, filhos e netos. Defeitos? Devem ter, claro, mas só me ocorrem sempre as virtudes que encontro neles porque são elas que nos marcam e hoje me enchem de uma ternura que transborda por podermos celebrar todos juntos esta data.
No dia de Natal temos o nosso Presépio familiar, por assim dizer. O Paulo faz anos e celebramos sempre uma dupla festa. Este é o meu irmão "mais": o mais alto, o mais terno, o mais dedicado, o mais emocional, o mais divertido, o mais criativo, o mais desastrado em gestos (porque é realmente muito alto e a amplitude dos seus braços é enorme, note-se!), o mais original e sempre o mais apostado em ser feliz e fazer os outros mais felizes à sua volta. Parabéns, querido Paulo!
A caixinha de tesouros de Natal do filho de uns amigos meus, onde ele guarda as bolas partidas ou sem pé de arame para pendurar na árvore, e tudo o que sobrou este ano, mais o seu "elepardo" de estimação. Gosto da figura do "elepardo", que é a mistura improvável de um elefante com um leopardo... Bom Natal a todos! Espero sinceramente que apesar de todas as perdas, crises, ausências, dores e sofrimentos, este dia seja vivido o melhor possível por cada um de nós.
Gosto de criatividade nas decorações de Natal e adoro ver o que as crianças inventam. Os filhos de dois grandes amigos meus encheram o presépio de animais do jardim zoológico e colaram nos vidros das portas dezenas de bichos coloridos: papa-formigas, koalas, jacarés, girafas, hipopótamos, tucanos, pelicanos, enfim tudo o que havia no livro de autocolantes do zoo. No Presépio colocaram um macaco de plástico duro muito feio, grande e grotesco, e quando perguntei o que é que ele estava ali a fazer e esbocei um gesto para lhe pegar, eles gritaram: "Não!!! É o macaco do Presépio! Não pode tirar, porque ele tem um bebé ao colo." Concentrei-me melhor naquela figura sinistra, pousada nas palhinhas, e percebi tudo. Para as crianças de 2 e 3 anos qualquer boneco que tenha um filho-bebé ao colo é digno de altar. Seja.
Mais uma fotografia tirada pela Mariana Sabido para celebrar hoje o dia de anos da Catarina, minha irmã. Tirando a mãe, nenhuma de nós está extraordinariamente bem, mas não faz mal porque aquilo que hoje celebramos em família é o amor que nos une e esta alegria que a Catarina trouxe e traz às nossas vidas. Esperei 12 anos por ela, e o dia em que nasceu foi um dos mais felizes da minha vida. Sempre quis ter uma irmã, mas ela demorou a chegar. Valeu a pena esperar porque ela é para todos nós muito mais do que um sonho tornado realidade. Com a Catarina eu aprendo muita coisa, mas o que mais me marca na sua personalidade forte é a sua bondade de coração, a generosidade, a tranquilidade, a força, a integridade e a verdade com que revela a alegria e a tristeza. E o seu lado sonhador e eternamente girlish. Conheço muitas pessoas, mas não conheço ninguém como a Catarina e não o digo por ser sua irmã. Digo-o por ela, por ser quem é e como é. Parabéns, Catarina querida!
Volto às fotografias que a Mariana Sabido tirou à nossa família numa tarde muito divertida, cheia de abraços, cumplicidades e gargalhadas, para dar os parabéns ao meu irmão Mané, que faz hoje anos. Nascemos os quatro em Dezembro e, por isso, este mês é uma alegria permanente e uma festa sem fim. Parabéns queridos pais!
Eis o ramo de flores que o Diogo me entregou no fim de uma tarde de conversa no Colégio do Sagrado Coração de Maria, a propósito do Dia da Filosofia. Devo as flores, a conversa e estas horas tão bem passadas, rodeada de 90 alunos com idades entre os 14 e os 16 anos, à professora Ângela Curral. Leitora assídua deste blog, a Ângela desafiou-me a dar uma 'aula' sobre política e cidadania aos seus alunos e como é professora de Filosofia, esperou pelo Dia da Filosofia no Colégio. Hoje estes teens fizeram a diferença no meu dia! Adorei ter ido ao 'Sagrado' (nome pelo qual também é conhecido o colégio) depois de ter passado a manhã inteira na sala de espera de um hospital, num círculo mais íntimo e familiar, a dar (e a receber!) forças enquanto um bebé muito pequenino e muito querido, filho de dois grandes amigos, era operado ao coração. Os dias que se seguem continuam a ser difíceis e delicados, mas estamos juntos e esta certeza ajuda a atravessar o sofrimento e a viver a angústia. Há casais e famílias inteiras que são verdadeiros monumentos de coragem. É o caso.

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