Prémio Pessoa 2008, o arquitecto Carrilho da Graça foi o autor
do Centro Comunitário dos Assentos, onde também desenhou
(ou arquitectou, para ser mais exacta) a Igreja de Santo António
em Portalegre. Estive lá, visitei o Centro e gostei muito da igreja
com vidros ao comprido com rocha e uma linha de água ao fundo.
Inaugurado este ano, há pouco mais de dois meses, o Centro
Comunitário dos Assentos foi construído num bairro social de
Portalegre e hoje em dia é um centro de interesse cultural para
muitos arquitectos e artistas contemporâneos que se deslocam
de propósito àquela cidade para ver a obra de Carrilho da Graça.
A Igreja de Santo António tem 304 lugares sentados, todos em
madeira pintada de branco de linhas rectas e depuradas, num
estilo ao mesmo tempo moderno e acolhedor, que convida ao
silêncio e à interioridade. Apetece conhecer este lugar sagrado.
Digo 'conhecer' no sentido literal e metafórico. Ou seja, a obra
do arquitecto em todo o seu detalhe, e o espaço espiritual de
oração onde cada um aprofunda a sua fé e as suas crenças...
Todo o centro deste Centro se desenvolve atrás de paredes altas
caiadas de branco e aquilo que, num primeiro olhar, parece quase
uma barreira arquitectónica no sentido em que aparentemente nos
impede de ver janelas e esconde um mundo habitado por crianças
e pessoas mais velhas, traduz-se num conceito estético certamente
mas, acima de tudo, numa possibilidade de guardar a frescura no
Verão e o calor nos Invernos rigorosos de Portalegre. Ou seja, mais
do que uma estética, há uma ética arquitectónica que passa por criar
um espaço o mais climatizado possível e com tanta luz natural que as
luzes quase podem ser dispensadas. Parece impossível? Sei que sim
mas acreditem que é uma 'ilusão óptica' pois atrás destas enormes
paredes brancas 'corre' um edifício cheio de janelas, sol, luz e céu azul.
Tive a sorte de jantar ontem com Siza Vieira em casa do Camilo Rebelo,
meu grande amigo, também arquitecto, que o tinha convidado a ele e a
um grupo de arquitectos e artistas plásticos para um jantar de lampreia.
Por acaso não gosto particularmente de lampreia mas adorei o serão à
mesa e a conversa pela noite dentro. Siza Vieira tinha aterrado no Porto,
vindo de Londres, na noite anterior mas estava em grande forma.Contou
histórias divertidas, falou de coisas e pessoas interessantes e fez-nos
rir a todos com algumas descrições e alguns detalhes.Tínhamos estado
juntos no Brasil, em Porto Alegre, na inauguração da sua Fundação Iberé
Camargo, uma obra marcante do ponto de vista estético e arquitectónico,
claro. Gosto muito de muitos edifícios de Siza Vieira e tenho uma enorme
admiração pela sua pessoa. Existe entre nós uma grande simpatia, o que
torna o diálogo muito natural. Achei graça à maneira como Siza descreveu
a coreografia e o protocolo do prémio que acaba de receber da Rainha de
Inglaterra e pedi-lhe se podíamos gravar uma pequena entrevista mais ou
menos impressionista sobre o acontecimento. Apesar de já passar das 3h
da manhã, Siza disse que sim e mudámos da sala de jantar para um quarto
onde existe uma cadeira especial, que pertenceu à sua mãe, onde se sentou.
Gosto da maneira como Siza fala verdade, como pondera as questões e lhes
dá o sentido que quer dar. Não se tratou de uma entrevista sobre a obra nem
sobre o autor mas apenas de um apontamento a meio de um grande serão.
Grande pinta o prémio que Siza Vieira recebeu das mãos
da Rainha Isabel II de Inglaterra! Vê-lo ser mais uma vez
reconhecido pelo seu trabalho, pela sua obra e pela sua
criatividade e modernidade enche de orgulho. É bom ser
português e ver o talento nacional premiado. Há cada vez
mais portugueses reconhecidos pelo seu trabalho, dentro
e fora do país, e é essencial que assim seja por questões
de elementar justiça mas também porque levanta o moral
e estimula o orgulho nacional. Somos um povo de emigrantes
e somos conhecidos no mundo pela nossa capacidade de trabalho
e de adaptação mas nem sempre valorizamos os nossos talentos
e é importante fazê-lo sem vaidade mas também sem tentações de
falsa modéstia. Temos excelentes cabeças nas áreas da medicina
e investigação científica; temos extraordinários exemplos nas artes
plásticas, na arquitectura e na música; temos grandes jogadores de
futebol e grandes treinadores; somos bons em muitas matérias e não
há que ter vergonha de o assumir e de sublinhar os nossos talentos!
Parabéns ao Siza Vieira. Aqui fica uma entrevista importada do Sapo.

As célebres Termas de Vals, na Suíça, uma das obras de referência do arquitecto Peter Zumthor. Geometricamente desenhadas na montanha, construidas com a pedra que existe naquela zona, parecem ter sido escavadas. O xisto local cria a ilusão natural...

Peter Zumthor, um dos grandes arquitectos contemporâneos esteve ontem em Lisboa. Encheu a Aula Magna para uma conferência inaugural da Experimenta Design 2009. Esta edição da Bienal dedica-se ao Tempo. It's about time, disse Guta Moura Guedes no início. Perante uma assembleia transbordante de 1.600 pessoas, apresentou Peter Zumthor como um dos "arquitectos mais fascinantes da actualidade". Que é, sem qualquer sombra de dúvida.

Durante quase duas horas este homem falou na penumbra de uma sala a abarrotar de arquitectos, designers e criativos. Mostrou o seu trabalho e projectou num écran gigante aquilo a que chamou "3 Buildings, 5 Projects, Lecture for Lisbon". Falou sem pressas do que já fez e de muito do que ainda quer fazer. Vive numa pequena vila na montanha e construiu o seu atelier com vidros muito altos rasgados para as árvores que mudam de cor conforme as estações. A imagem que mostrou, com os plátanos de Outono no auge da folhagem encarnada e amarela, foi um arraso. Um dia gostava de ter um escritório como o dele. Vou sonhar com isso e...vou fazer por isso!

Peter Zumthor disse coisas profundas e sérias mas também falou com leveza da sua obra. Gosto de pessoas que não se deslumbram demais consigo mesmas. Não sei se é o caso mas pareceu-me que o homem e o arquitecto são muito coerentes.

Aprecio o minimalismo na arte e gosto particularmente do despojamento de uma certa arquitectura contemporânea. E ontem gostei muito de ouvir Peter Zumthor e de ter ficado quase duas horas sem conseguir ver a cara do homem que subiu ao palco sem luzes e falou e explicou o seu trabalho sempre na intimidade da penumbra de uma sala que habitualmente é muito fria e impessoal. Valeu a pena ter ido ouvi-lo a meio da tarde de um sábado de sol sem vento no Guincho, quando a tentação maior era ir à praia ao entardecer deste Verão que está a acabar...
Isto era um antigo posto de electricidade numa quinta a sul
de Lisboa. Era muito mais do que uma caixa metálica sem
graça, era um verdadeiro obstáculo na paisagem porque
além de estar desactivado e ser feio, ocupava espaço visual.
Nesta quinta, perto de Palmela, fazem-se retiros de silêncio
e existem capelas grandes e pequenas mas não havia uma
ermida. Até ao dia em que as Irmãs Escravas, que lá moram,
decidiram pedir a um arquitecto que transformasse o posto
eléctrico num espaço de oração e silêncio.
O arquitecto pintou a estrutura metálica de cinzento, limpou o
terreno em volta, delimitou um patamar de entrada que cobriu
de pedrinhas brancas e reconstruiu o interior do antigo posto.
Manteve todas as árvores que já havia e o reflexo das mais
próximas vê-se agora no vidro da porta de entrada.
Esta porta tem um som e um ritmo próprios quando se abre
e fecha. Faz uma espécie de vento surdo que não chega a
perturbar quem está lá dentro a rezar.
Um som e um movimento lento que não resisto a mostrar.
Sou 'impressionista', gosto de fragmentos, olhares, gestos
e coisas avulsas que me tocam e é por isso que passo
a vida a gravar 'impressões'. Estive em Palmela com amigos
este fim-de-semana. O silêncio foi demorado e rezado, claro.
Nesta ermida a luz vem de cima e ilumina um espaço branco,
de ângulos rectos e gosto depurado.
A estética também importa quando se trata de fazer silêncio.
Para além do vidro da porta de entrada e da clarabóia no
tecto existe uma pequena janela quadrada, rente ao chão,
por onde se vê como cresceram as guias de vinha virgem
que o arquitecto se lembrou de mandar plantar há um par
de anos, para cobrir o posto eléctrico e transformar um sítio
banal espaço muito especial. Um verdadeiro lugar sagrado.
O nome do arquitecto inspirado? Bernardo Pizarro Miranda.
Mais de duas mil pessoas assistiram ontem à inauguração da Fundação Iberé Camargo do arquitecto Álvaro Siza. A cidade de Porto Alegre estava em festa e os media cobriram massivamente o acontecimento.
Estiveram presentes ministros, governadores, políticos, artistas, intelectuais e arquitectos de muitos países. A nata da nata, disseram os jornalistas brasileiros.
Siza é venerado no Brasil e sempre que falam dele fazem questão de dizer que é um dos 5 melhores arquitectos vivos do mundo. Alguns dizem que é um dos 3 melhores do mundo.
A festa foi um verdadeiro acontecimento. A garagem da Fundação transformou-se num imenso loft chic, elegante e altamente performativo. Um espaço onde tudo era branco sobre branco: sofás brancos, mesas com panos brancos, telas brancas onde os focos coloridos e os écrans gigantes projectavam luz e cores. O movimento ao longo da noite foi intenso.
Tive a sorte de pertencer à comitiva de acompanhantes do arquitecto Álvaro Siza e assim pude percorrer toda a Fundação antes de entrarem os convidados. Fiz o caminho descendente com Gilberto Gil, o ministro da Cultura brasileiro, e a bateria de fotógrafos e câmaras que o seguem permanentemente. Foi divertido.
Esta fotografia está repetida mas é de propósito porque não me canso de admirar as linhas curvas desenhadas por Siza e a beleza do encaixe nas linhas rectas. Gosto dos detalhes e em particular das janelas de navio que Siza rasgou no betão para ver o sol sobre o rio.
Depois de longos discursos sobre a arquitectura inteligente de Siza que soube calibrar a intensidade dramática da pintura de Iberé Camargo com a branquidão do betão, a multidão de convidados dispersou mas permaneceu na festa até muito tarde e foi um prazer conhecer alguns dos melhores arquitectos e engenheiros dos melhores museus do mundo. Muito bom.

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