Terça-feira, 5 de Maio de 2009
A obra de Carrilho da Graça ao vivo

 

Prémio Pessoa 2008, o arquitecto Carrilho da Graça foi o autor

do Centro Comunitário dos Assentos, onde também desenhou

(ou arquitectou, para ser mais exacta) a Igreja de Santo António

em Portalegre. Estive lá, visitei o Centro e gostei muito da igreja

com vidros ao comprido com rocha e uma linha de água ao fundo.

 

 

 

Inaugurado este ano, há pouco mais de dois meses, o Centro

Comunitário dos Assentos foi construído num bairro social de

Portalegre e hoje em dia é um centro de interesse cultural para

muitos arquitectos e artistas contemporâneos que se deslocam

de propósito àquela cidade para ver a obra de Carrilho da Graça.

 

 

A Igreja de Santo António tem 304 lugares sentados, todos em

madeira pintada de branco de linhas rectas e depuradas, num

estilo ao mesmo tempo moderno e acolhedor, que convida ao

silêncio e à interioridade. Apetece conhecer este lugar sagrado.

 

 

Digo 'conhecer' no sentido literal e metafórico. Ou seja, a obra

do arquitecto em todo o seu detalhe, e o espaço espiritual de

oração onde cada um aprofunda a sua fé e as suas crenças...

 

 

Todo o centro deste Centro se desenvolve atrás de paredes altas

caiadas de branco e aquilo que, num primeiro olhar, parece quase

uma barreira arquitectónica no sentido em que aparentemente nos

impede de ver janelas e esconde um mundo habitado por crianças

e pessoas mais velhas, traduz-se num conceito estético certamente

mas, acima de tudo, numa possibilidade de guardar a frescura no

Verão e o calor nos Invernos rigorosos de Portalegre. Ou seja, mais

do que uma estética, há uma ética arquitectónica que passa por criar

um espaço o mais climatizado possível e com tanta luz natural que as

luzes quase podem ser dispensadas. Parece impossível? Sei que sim

mas acreditem que é uma 'ilusão óptica' pois atrás destas enormes

paredes brancas 'corre' um edifício cheio de janelas, sol, luz e céu azul.

publicado por Laurinda Alves às 00:01
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Segunda-feira, 2 de Março de 2009
Siza Vieira e a coreografia de um prémio real

 

 

Tive a sorte de jantar ontem com Siza Vieira em casa do Camilo Rebelo, 

meu grande amigo, também arquitecto, que o tinha convidado a ele e a

um grupo de arquitectos e artistas plásticos para um jantar de lampreia.

Por acaso não gosto particularmente de lampreia mas adorei o serão à

mesa e a conversa pela noite dentro. Siza Vieira tinha aterrado no Porto,

vindo de Londres, na noite anterior mas estava em grande forma.Contou

histórias divertidas, falou de coisas e pessoas interessantes e fez-nos

rir a todos com algumas descrições e alguns detalhes.Tínhamos estado

juntos no Brasil, em Porto Alegre, na inauguração da sua Fundação Iberé

Camargo, uma obra marcante do ponto de vista estético e arquitectónico,

claro. Gosto muito de muitos edifícios de Siza Vieira e tenho uma enorme

admiração pela sua pessoa. Existe entre nós uma grande simpatia, o que

torna o diálogo muito natural. Achei graça à maneira como Siza descreveu

a coreografia e o protocolo do prémio que acaba de receber da Rainha de

Inglaterra e pedi-lhe se podíamos gravar uma pequena entrevista mais ou

menos impressionista sobre o acontecimento. Apesar de já passar das 3h

da manhã, Siza disse que sim e mudámos da sala de jantar para um quarto

onde existe uma cadeira especial, que pertenceu à sua mãe, onde se sentou.

Gosto da maneira como Siza fala verdade, como pondera as questões e lhes

dá o sentido que quer dar. Não se tratou de uma entrevista sobre a obra nem

sobre o autor mas apenas de um apontamento a meio de um grande serão.

publicado por Laurinda Alves às 00:55
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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009
Mais um prémio para Siza Vieira

 

Grande pinta o prémio que Siza Vieira recebeu das mãos

da Rainha Isabel II de Inglaterra! Vê-lo ser mais uma vez

reconhecido pelo seu trabalho, pela sua obra e pela sua

criatividade e modernidade enche de orgulho. É bom ser

português e ver o talento nacional premiado. Há cada vez

mais portugueses reconhecidos pelo seu trabalho, dentro

e fora do país, e é essencial que assim seja por questões

de elementar justiça mas também porque levanta o moral

e estimula o orgulho nacional. Somos um povo de emigrantes

e somos conhecidos no mundo pela nossa capacidade de trabalho

e de adaptação mas nem sempre valorizamos os nossos talentos

e é importante fazê-lo sem vaidade mas também sem tentações de

falsa modéstia. Temos excelentes cabeças nas áreas da medicina

e investigação científica; temos extraordinários exemplos nas artes 

plásticas, na arquitectura e na música; temos grandes jogadores de

futebol e grandes treinadores; somos bons em muitas matérias e não

há que ter vergonha de o assumir e de sublinhar os nossos talentos!

Parabéns ao Siza Vieira. Aqui fica uma entrevista importada do Sapo.

 

publicado por Laurinda Alves às 00:05
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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Peter Zumthor em Lisboa, pela ExperimentaDesign

 

As célebres Termas de Vals, na Suíça, uma das obras de referência do arquitecto Peter Zumthor. Geometricamente desenhadas na montanha, construidas com a pedra que existe naquela zona, parecem ter sido escavadas. O xisto local cria a ilusão natural... 

 

 

Peter Zumthor, um dos grandes arquitectos contemporâneos esteve ontem em Lisboa. Encheu a Aula Magna para uma conferência inaugural da Experimenta Design 2009. Esta edição da Bienal dedica-se ao Tempo. It's about time, disse Guta Moura Guedes no início. Perante uma assembleia transbordante de 1.600 pessoas, apresentou Peter Zumthor como um dos "arquitectos mais fascinantes da actualidade". Que é, sem qualquer sombra de dúvida.

 

 

Durante quase duas horas este homem falou na penumbra de uma sala a abarrotar de arquitectos, designers e criativos. Mostrou o seu trabalho e projectou num écran gigante aquilo a que chamou "3 Buildings, 5 Projects, Lecture for Lisbon". Falou sem pressas do que já fez e de muito do que ainda quer fazer. Vive numa pequena vila na montanha e construiu o seu atelier com vidros muito altos rasgados para as árvores que mudam de cor conforme as estações. A imagem que mostrou, com os plátanos de Outono no auge da folhagem encarnada e amarela, foi um arraso. Um dia gostava de ter um escritório como o dele. Vou sonhar com isso e...vou fazer por isso! 

 

 

Peter Zumthor disse coisas profundas e sérias mas também falou com leveza da sua obra. Gosto de pessoas que não se deslumbram demais consigo mesmas. Não sei se é o caso mas pareceu-me que o homem e o arquitecto são muito coerentes.

 

 

Aprecio o minimalismo na arte e gosto particularmente do despojamento de uma certa  arquitectura contemporânea. E ontem gostei muito de ouvir Peter Zumthor e de ter ficado quase duas horas sem conseguir ver a cara do homem que subiu ao palco sem luzes e falou e explicou o seu trabalho sempre na intimidade da penumbra de uma sala que habitualmente é muito fria e impessoal. Valeu a pena ter ido ouvi-lo a meio da tarde de um sábado de sol sem vento no Guincho, quando a tentação maior era ir à praia ao entardecer deste Verão que está a acabar...

publicado por Laurinda Alves às 12:15
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Domingo, 6 de Julho de 2008
O lugar do silêncio e outras coisas

 

 

Isto era um antigo posto de electricidade numa quinta a sul

de Lisboa. Era muito mais do que uma caixa metálica sem

graça, era um verdadeiro obstáculo na paisagem porque 

além de estar desactivado e ser feio, ocupava espaço visual. 

Nesta quinta, perto de Palmela, fazem-se retiros de silêncio

e existem capelas grandes e pequenas mas não havia uma

ermida. Até ao dia em que as Irmãs Escravas, que lá moram,

decidiram pedir a um arquitecto que transformasse o posto

eléctrico num espaço de oração e silêncio.

O arquitecto pintou a estrutura metálica de cinzento, limpou o

terreno em volta, delimitou um patamar de entrada que cobriu 

de pedrinhas brancas e reconstruiu o interior do antigo posto.     

Manteve todas as árvores que já havia e o reflexo das mais

próximas vê-se agora no vidro da porta de entrada.  

 

 

 

Esta porta tem um som e um ritmo próprios quando se abre

e fecha. Faz uma espécie de vento surdo que não chega a

perturbar quem está lá dentro a rezar.

Um som e um movimento lento que não resisto a mostrar.

 

 

Sou 'impressionista', gosto de fragmentos, olhares, gestos

e coisas avulsas que me tocam e é por isso que passo

a vida a gravar 'impressões'. Estive em Palmela com amigos

este fim-de-semana. O silêncio foi demorado e rezado, claro.

Nesta ermida a luz vem de cima e ilumina um espaço branco,

de ângulos rectos e gosto depurado.

A estética também importa quando se trata de fazer silêncio. 

  

 

Para além do vidro da porta de entrada e da clarabóia no 

tecto existe uma pequena janela quadrada, rente ao chão,

por onde se vê como cresceram as guias de vinha virgem

que o arquitecto se lembrou de mandar plantar há um par

de anos, para cobrir o posto eléctrico e transformar um sítio

banal espaço muito especial. Um verdadeiro lugar sagrado.

 

 

O nome do arquitecto inspirado? Bernardo Pizarro Miranda.

 

publicado por Laurinda Alves às 20:44
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Sábado, 31 de Maio de 2008
A festa da inauguração

Mais de duas mil pessoas assistiram ontem à inauguração da Fundação Iberé Camargo do arquitecto Álvaro Siza. A cidade de Porto Alegre estava em festa e os media cobriram massivamente o acontecimento. 

 

Estiveram presentes ministros, governadores, políticos, artistas, intelectuais e arquitectos de muitos países. A nata da nata, disseram os jornalistas brasileiros.

 

Siza é venerado no Brasil e sempre que falam dele fazem questão de dizer que é um dos 5 melhores arquitectos vivos do mundo. Alguns dizem que é um dos 3 melhores do mundo.

 

A festa foi um verdadeiro acontecimento. A garagem da Fundação transformou-se num imenso loft chic, elegante e altamente performativo. Um espaço onde tudo era branco sobre branco: sofás brancos, mesas com panos brancos, telas brancas onde os focos coloridos e os écrans gigantes projectavam luz e cores. O movimento ao longo da noite foi intenso.

 

Tive a sorte de pertencer à comitiva de acompanhantes do arquitecto Álvaro Siza e assim pude percorrer toda a Fundação antes de entrarem os convidados. Fiz o caminho descendente com Gilberto Gil, o ministro da Cultura brasileiro, e a bateria de fotógrafos e câmaras que o seguem permanentemente. Foi divertido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta fotografia está repetida mas é de propósito porque não me canso de admirar as linhas curvas desenhadas por Siza e a beleza do encaixe nas linhas rectas. Gosto dos detalhes e em particular das janelas de navio que Siza rasgou no betão para ver o sol sobre o rio.

 

 

 

 

 

 

Depois de longos discursos sobre a arquitectura inteligente de Siza que soube calibrar a intensidade dramática da pintura de Iberé Camargo com a branquidão do betão, a multidão de convidados dispersou mas permaneceu na festa até muito tarde e foi um prazer conhecer alguns dos melhores arquitectos e engenheiros dos melhores museus do mundo. Muito bom. 

publicado por Laurinda Alves às 20:28
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007
Museu do Côa
Ainda a propósito de museus, concursos e arquitectos, vale a pena lembrar que Camilo Rebelo também é um dos autores do Museu de Foz Côa. Pedro Tiago Pimentel e Camilo Rebelo ganharam o concurso internacional para este ambicioso museu, cuja primeira pedra já foi lançada no dia 26 de Janeiro. A escala, a vocação e a implantação do Museu do Côa foram outro grande desafio para estes dois arquitectos da nova geração, que se destacam por serem ousados, performativos e muito à frente do ponto de vista arquitectónico e estético. Gosto particularmente da maquete do Museu do Côa e espero que esta obra, tão desejada por tantos, não se atra
publicado por Laurinda Alves às 19:00
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Aqrquitectos Premiados
 
Susana Martins e Camilo Rebelo, ambos de 34 anos, apresentaram um projecto de arquitectura muito criativo no concurso internacional para o Museu de Arte Moderna de Varsóvia e ganharam uma Menção Honrosa. O prémio, no valor de 25 mil euros, foi atribuído aos que, não tendo ganho, ficaram entre os dez primeiros. A conquista destes jovens arquitectos é notável se considerarmos que concorriam com verdadeiras lendas vivas da arquitectura contemporânea. Zaha Hadid, por exemplo, entregou um projecto que não obteve sequer uma menção honrosa. A concurso estavam cerca de duas centenas de projectos dos melhores arquitectos do mundo e entre o júri estavam Daniel Libeskind, Christine Binswager e os suíços Herzog & Demauron, os célebres autores da Tate Modern, em Londres.
O projecto de Susana e Camilo era muito desafiador no sentido em que propunha que todo o corpo geométrico do Museu fosse envolvido por uma cobertura vegetal. A ideia era criar uma espécie de grande arbusto que desse continuidade ao parque verde adjacente. Para isso, o museu seria todo coberto com uma estrutura de heras naturais que mudariam de cores consoante as estações do ano. No Inverno o corpo do MAMW seria uma massa branca de neve sobre a qual as pessoas poderiam caminhar, rasgando um novo horizonte numa zona da cidade onde já existe o Palácio da Cultura e da Ciência.
publicado por Laurinda Alves às 18:00
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