Quarta-feira, 21 de Março de 2007
No hospital
Estive com o João na tarde de sábado. Já não o via há algum tempo e achei-o diferente. Ainda mais giro (uma brasa, mesmo!), mais crescido e mais homem mas com o mesmo sorriso de criança. Louro, ar de surfista, João é um futebolista apaixonado e sobredotado. As raparigas adoram e os rapazes admiram.  
No primeiro dia em que pôde ter uma visita nos Cuidados Intensivos, nem sequer deu por ela. No segundo dia estava muito agitado e ao terceiro continuava entubado, ventilado e com o corpo todo ligado mas mais desperto. O tio, que apesar de ter apenas 35 anos é mais do que um pai para ele, permaneceu firme à cabeceira durante todo o tempo que lhe foi permitido. Desinfectado e enfiado num fato asséptico para prevenir qualquer hipótese de infecção (coisa que seria fatal nesta fase), o tio foi falando, desenhando, contando, ouvindo e repetindo em alto as palavras que o João queria dizer mas não podia.
Se bem o conheço, guardou todas as lágrimas para mais tarde, para o silêncio da sua intimidade, e ali mostrou apenas o seu lado alegre, forte e confiante.
- A minha cara está fixe? – escreveu o João, com letra hesitante, numa folha de papel.
O tio pegou na mão dele e passou-a demoradamente sobre a testa, os olhos, o nariz, a boca e o pescoço até chegar às ligaduras. Aí, parou.
- Posso voltar a jogar futebol?
Acenou que sim, claro. Deu-lhe a mão, apertou-a com cuidado para não fazer doer e, mesmo sem palavras, encheu-o de certezas.
publicado por Laurinda Alves às 19:59
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