Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Branco-Siza

 (crónica escrita para o Público de hoje)

 

 

Hoje ao fim da tarde inaugura em Porto Alegre, Brasil, a FIC - Fundação Iberé Camargo, de Álvaro Siza Vieira.
 
 
 
Escrevo de frente para o edifício acabado de construir, com o imenso rio atrás de mim.
A Fundação é branca, deste branco-Siza que nos habituámos a apreciar, e foi toda feita em betão de areia muito clara com um acabamento polido que lhe dá um ar de quase porcelana.
 
Dizem os arquitectos entendidos que este acabamento final se consegue com cofragens muito sofisticadas que não deixam vestígios de costuras. A superfície fica mais lisa e mais contínua, portanto. Os moldes interferem sempre com a textura final dos edifícios mas isso é uma coisa que os leigos nem sempre se dão conta.
 
A nova Fundação arquitectada por Álvaro Siza tem uma geometria recortada com mangas suspensas que abraçam o edifício e desenham uma espécie de dupla entrada de luz. No corpo central há um átrio onde o céu parece muito próximo, e no vazio que as mangas abraçam este mesmo céu é uma presença azul expressiva.
 
Atrás da fundação existe uma enorme mancha verde que foi impecavelmente conservada e faz com que o edifício se destaque na paisagem. Como se fosse uma enorme escultura. Siza fez questão de manter as árvores e estimulou a requalificação desta zona. O impacto da pedra branca no verde das árvores é poderoso. E extraordinariamente performativo.
 
 
Se houvesse mais casas ou muitas construções perto da Fundação, os seus contornos assumiriam outras proporções e teriam outra leitura. Assim, este contraste de betão branco (concreto, como se diz aqui no Brasil), copas verdes das árvores, troncos castanhos escuros, céu azul e rio esmeralda em frente amplia toda a escala e vibração do edifício. A escala da Fundação, aliás, é muito humana. Transmite conforto e até uma certa paz.
 
Esteticamente é um projecto muito bonito e depurado apesar de se perceber uma intenção de profundidade e complexidade na multiplicação de mangas e corredores. Esta atitude de Siza, por assim dizer, provoca sensações distintas porque uma vezes o edifício parece grande e amplo, outras pequeno e íntimo. Álvaro Siza criou um espaço que é ao mesmo tempo aberto e fechado, vasto e contido, claro e escuro, voltado para dentro e virado para fora. Tudo isto acontece numa espiral descendente que percorremos através de angulosos corredores que nos conduzem através das galerias de exposição.
 
 
Na entrada o elevador leva-nos até ao último piso e depois descemos pelas mangas de betão branco que nos permitem ver pontualmente o rio e paisagem. Estes corredores também nos levam às salas de exposição e ao pátio central. Ao contrário do que acontece no Guggenheim de Nova Iorque, onde vemos permanentemente a exposição e o átrio, Álvaro Siza diversificou os tempos e ritmos de leitura qualificando o percurso que nos conduz através das obras expostas.
 
Percorrer e contemplar são duas velocidades absolutamente distintas para quem visita a Fundação Iberé Camargo. Dito isto, falta dizer quem é Iberé Camargo, o artista brasileiro que deixou 7 mil obras feitas mas deixo a reportagem para os repórteres e mando apenas as minhas impressões umas horas antes da festa de inauguração onde vim convidada pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira.
 
publicado por Laurinda Alves às 15:29
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2 comentários:
De zilda cardoso a 30 de Maio de 2008 às 18:22
As obras do arq Siza parecem eternas como as obras de arte clássicas, dos museus. Ficam ali instaladas para ficar: passam a fazer parte da paisagem e do nosso mundo. O que ele cria é uma nova paisagem, mais humana, mas não menos bela.
É muito bom que haja Alvaros Sizas Vieiras, se possível...muitos. ZC
De miguel cunha a 30 de Maio de 2008 às 23:33
É muito interessante toda essa sua descrição deste magnifico "monumento" de Alvaro Siza - deve ser extraordinario o branco puro com a mancha verde, mas mais engraçado é pensar nas expectativas que todos nós criamos no nosso imaginário quando vamos conhecer algo, mesmo tendo informação prévia. O sentimento de descoberta e de comparação ao que tinhamos idealizado é muito bom. Conhecer e descobrir monumentos, lugares,... e pessoas é VIDA
Miguel Cunha

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