- Tem preferência por algum caminho?
- Não, obrigada. A esta hora prefiro que seja o senhor a escolher.
O taxista lançou um olhar discreto pelo espelho retrovisor, fez um aceno quase imperceptível com a cabeça e foi por onde lhe pareceu melhor. Chovia, a cidade transformara-se num caos e os carros estavam todos parados. O taxista seguia lentamente por onde podia, sem dizer uma palavra.
Mentalmente agradeci aquele silêncio de fim de tarde e esqueci-me da sua presença. Falei ao telefone, resolvi os assuntos urgentes, desliguei o telemóvel e voltei a ficar calada. Estava a ficar enjoada do carro e do trânsito e não me apetecia falar com mais ninguém.
No fim de uma viagem que atravessou a cidade de um lado ao outro, perguntei quanto devia. O taxista olhou para trás e, educadamente, perguntou:
- A senhora não foi madrinha de casamento há um mês?
- Fui. Como é que sabe?
- Porque fui eu que vim buscá-la a casa já com o noivo e o outro padrinho.
- Que engraçado lembrar-se.
- Sabe porque é que me lembro? Porque nesse dia fui buscar o noivo e os padrinhos para os deixar na igreja, mais tarde calhou ser eu a ir a casa da noiva para levar a mala dela para o hotel e, por acaso, ainda apanhei mais dois casais que iam para lá.
O último casal perguntou-lhe se sabia onde era a igreja de São Roque e ele, no seu tom reservado, respondeu:
- Sei, mas os senhores já vão atrasados para o casamento.