Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
A melancolia é a alegria que existe na tristeza?

 

Victor Hugo, escritor, dizia que a melancolia é a felicidade de se ser triste e embora esta espécie de definição remeta para muitas outras questões metafísicas, mais ou menos filosóficas ou existenciais, não deixa de ser uma frase que fica a fazer eco. Este desenho do ilustrador Sempé, de quem sou fã há anos sem fim, é de uma melancolia indizível. Uma única luz acesa na madrugada de um quarteirão inteiramente adormecido... As luzes acesas (ou que ficaram por apagar) dentro das casas interpelam-nos sempre, por vezes desta forma melancólica, outras vezes com a nostalgia de uma vida que gostávamos de viver ou ter vivido de outras maneiras. Há estudos que falam do impacto psicológico e emocional das luzes acesas dentro das casas, nas pessoas que vivem na rua ou que moram sozinhas. Dizem os especialistas em comportamento que as luzes acesas perturbam porque convocam a uma familiaridade, a um aconchego e a um espírito de união que podem nem sequer existir dentro dessas mesmas casas de luzes acesas, mas que parecem uma certeza certa para quem mora na rua ou vive desprovido de família, em casas porventura mais sombrias e silenciosas. Nem sequer é preciso ser homeless para perceber o efeito das luzes e aquilo que faz disparar no imaginário comum. As luzes de Natal, as montras bem iluminadas, as luzes amarelas e baixas de certos cafés, restaurantes ou espaços públicos, e tantas outras luzes atraem-nos e fazem-nos parar. Enfim, hoje deu-me para divagar sobre tudo isto a propósito deste desenho de Sempé, que apesar de parecer muito simples, está cheio de mistério e é de uma complexidade fascinante. Bom domingo! 

 

publicado por Laurinda Alves às 00:01
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10 comentários:
De paulo,sj a 26 de Fevereiro de 2012 às 00:51
Laurinda,

Quase poderíamos dizer: o silencioso brilho da alma. Eu vejo o desenho e, sim, evoca-me o silêncio nocturno das grandes cidades. Estando eu a morar em Madrid, no meio do bairro onde vivo há um silêncio nocturno imenso... e pensar que por aqui vivem milhares de pessoas. Cada uma com a sua "luz" mais ou menos discreta, acesa. É mesmo um mistério... a melancolia, ou o desejo de encontrar a felicidade fora desse registo pesado da solidão. Infelizmente há cada vez mais pessoas a observar as "luzes" dos outros, deixando-se apagar na sua. Para mim, o desafio é ajudar a pessoa a encontrar o sentido da iluminação que tem (não posso deixar de recordar a parábola dos dons ou talentos. Deixando-se de comparações, dar passos para a iluminação com o que se tem...

Tenho reflectido sobre estes temas através dos textos que tenho escrito ultimamente n'oinsecto. Parece-me cada vez mais pertinente "escutar" quem vive nas cidades com as luzes acesas ou apagadas.

Um Abraço! Bom Domingo!
De Marcolino a 26 de Fevereiro de 2012 às 01:48
Olá Laurinda,
Gostei desta sua dissertação!
Beijinho
Marcolino
De Um Jeito Manso a 26 de Fevereiro de 2012 às 02:06
Laurinda,

Gostei de ler o que escreveu. Fez-me lembrar quando eu namorava e, à noite, regressava a casa na companhia do então meu namorado. Ele deixar-me-ia e regressaria a casa dele. E, enquanto íamos na rua, íamos reparando nas luzes acesas das casas por onde passávamos, invejávamos a intimidade que se adivinhava lá dentro, a felicidade que seria não termos que nos separar à porta de casa. Acho que foi por isso que me casei tão novinha...

Belo texto o seu e como a compreendo bem, portanto.
De concha a 26 de Fevereiro de 2012 às 13:36
Um texto que me agradou muito e um desenho que me fez divagar. É engraçado que neste prédio de esquina, talvez o autor do desenho tenha procurado acentuar a luz na terceira janela do quinto andar de um prédio de sete! Eu e o meu gosto pelos números principalmente os ímpares, faz-me por vezes dar sentidos ao que talvez não o tenha.
Bom domingo Laurinda com muita luz na sua vida.
Beijinho grande
De AEfetivamente a 26 de Fevereiro de 2012 às 17:08
Em total acordo que a luz significa aconchego, calor, mais felicidade. O sol é energia vital que revigora e alegra as pessoas. O sombrio não, daí nos países nórdicos haver muitos suicídios e nos países tropicais as pessoas serem alegres apesar das condições de vida e da pobreza, em algs casos. E na falta do sol, que é a luz sadia por excelência, as luzes trazem vida ao inverno e à noite.
Belíssimo post. Bom restinho, Laurinda!
De susana l.c. a 26 de Fevereiro de 2012 às 22:39
Que bonito este seu post, gostei tanto...
De Marta M a 26 de Fevereiro de 2012 às 22:54
Laurinda:
Que saudades tinha destes seus textos poéticos :)
Ainda bem que reabriu este oásis...
Hoje, quando a li, vinha de Lisboa onde estive na Vigília professores de 24h frente ao ME. Dormi ao relento pela primeira vez na minha vida e partilhámos a noite com 2 sem-abrigo. Foi uma lição de vida,acredite-me .
E o mais interessante foi que algumas vezes olhei para as luzes das janelas dos prédios que nos rodeavam e senti que queria aquele conforto..E foi só uma noite...
Nem imagino como será viver assim.
Um abraço de boas vindas.
Marta M
De Maria do Céu A a 27 de Fevereiro de 2012 às 10:15
Repetindo o que outros já disseram nos seus comentários...já tinha saudades dos seus textos para aconchegar o meu dia!

E eu a pensar que seriam poucos os que, como eu, se sentiam atraídos pelas luzes quentes das casas dos outros, ao final do dia.
Gostei muito do seu post!
De Zilda Cardoso a 27 de Fevereiro de 2012 às 16:19
Desejava tanto voltar a ler um texto seu destes! Que bom! E que significado terá?
O desenho é de tal modo sugestivo... é terrivelmente sugestivo! Magoa... sabe? Aperta o coração. Sem saída. E aquela luz única...no começo.

Vamos olhar para outro lado... cheio de sol. E sorrir. ZM
De an a 28 de Fevereiro de 2012 às 13:08
...Luz é vida? ...
Também gostei deste quadro. Estimula a nossa imaginação...
Mas , "a melancolia é a felicidade de se ser triste", isto sim, que é difícil de entender. Aqui neste caso, se olhamos este quarteirão de um lugar bem acolhedor e iluminado, sim que ficamos alegres e gostamos do "melancólico triste", mas, se estamos no «desiluminado »,a melancolia, acho, que ficará mais triste...
Pelo menos, seja como for, obrigou-nos a reflectir, que é o principal.Olharmos um bocadinho para dentro de nós, é preciso!
Texto bom...

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