Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
Atendimento médico muito sui generis

A minha mãe partiu o braço direito na zona do pulso e mais uma vez chegou ao hospital cheia de dores e desconforto. Nos últimos anos o seu fadário tem sido andar de gesso e ser operada vezes incontáveis, com todo o sofrimento físico e emocional que as quedas ou acidentes e respectivas recuperações implicam. Nestas idas e vindas ao hospital tem encontrado de tudo em matéria de atendimento médico. Do melhor ao pior, já ouviu de tudo. Hoje estivémos com uma médica infinitamente querida e atenta, que nos levou pela mão a duas ortopedistas igualmente disponíveis e profissionais, mas no dia em que chegou ao hospital depois da queda, o médico que a recebeu (estando ela cheia de dores) ao ver que tinha sido professora, passou todo o tempo a queixar-se das reguadas que levou em criança e a troçar dos professores que batem nos alunos. A minha mãe ouviu tudo com toda a paciência do mundo e só quando ele lhe perguntou se ela também era das que davam reguadas, é que ela respondeu que era especializada em crianças deficientes, com paralisia cerebral. Ele percebeu tarde demais, mas acho que percebeu.
De inês a 7 de Outubro de 2011 às 10:22
Não é ofender nem generalizar, é a maneira como os médicos e nenhum outro profissional são criticados publicamente. Há sempre alguém que tem qualquer coisa a dizer acerca do mau atendimento médico mas não dos "outros maus atendimentos". É um assunto que abre telejornais e motiva lamentos acalorados por parte de todos.
Mas, acredite, há um outro lado não visível que por vezes motiva (da parte dos médicos) um desgaste indisfarçável. Mesmo que insultado, humilhado, ameaçado, agredido, um médico não pode preencher o livro de reclamações a fazer queixa do doente. Mesmo que exausto não pode dizer "preciso de uma pausa" e retirar-se porque ninguém numa sala de espera lotada entende a necessidade de pausa de quem está a fazer 24 h de trabalho seguidos. Espera-se que o médico das urgências não se afaste nunca do seu posto e esteja sempre sorridente e imperturbável (coisa humanamente impossível) mesmo que não tenha almoçado, ou esteja fisicamente indisposto, ou tenha um pai gravemente doente, ou tenha os filhos à espera de um transporte que falhou no recreio da escola. Espera-se que seja um personagem de filme, asséptico e iluminado pela certeza dos diagnósticos mais improváveis, constantemente alerta e incansável, com um humanismo à prova da arrogância com que os utentes e familiares o brindam frequentemente ("sou eu que pago o seu ordenado","passam a vida a passear e nós à espera", etc).
É um desabafo cansado, esta minha resposta, fruto de anos seguidos de exposição a pessoas que nos olham como desalmados mercenários e não se coíbem de o dizer mesmo que isso seja mentira e tremendamente injusto na maioria das vezes. Um desabafo triste.
De Paula Amaral a 15 de Outubro de 2011 às 14:13
As pessoas queixam-se mais dos médicos porque o contacto dá-se em situações em que as pessoas (doentes e seus familiares) estão fragilizadas, carentes, em dor.
Bons e maus profissionais há em todas as áreas.
A forma como se lida com os idosos em geral, em todas as áreas da nossa sociedade, é no mínimo deprimente. Educação cívica, precisa-se!
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