Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
Lições de vida

 

Hoje uso uma fotografia de Manuel Correia para contar um pequeno episódio eloquente do caracter de alguém que tenho como exemplo de vida, de generosidade e de bondade, alguém que amo com todo o coração, mas com quem nem sempre tenho um diálogo fácil. Falo do meu pai, que é uma das melhores pessoas que conheço, que consegue superar todas as barreiras e os obstáculos, transcendendo-se em cada dia. Como todos os bons pais, o meu está sempre atento aos filhos e cuida dos mais ínfimos detalhes. Por vezes exagera e nós reagimos. Neste fim-de-semana estávamos em família à lareira, mais ou menos calados, num daqueles serões em que uma filha lê, a outra conversa, os pais estão por ali e chega. De repente apeteceu-me engraxar as minhas botas e pedi-lhe a caixa de madeira com as graxas. Ele, igual a si próprio, trouxe tudo, mas foi-me dizendo que não devia fazer isso à noite, porque de dia se vê melhor e por aí adiante. E eu: "mas está-me mesmo a apetecer fazer isso agora, pai. Vá lá, não esteja sempre a dizer-me o que devo fazer, já não sou uma criança" (esta minha versão é muito chata, devo dizer. Tenho pena mas é verdade). E o meu pai a insistir: "de dia vê-se muito melhor, mas tu é que sabes." E eu, achando que sim que sabia, lá ia espalhando graxa nas botas de que mais gosto, que são pretas e uso quase todos os dias. Ele calado e eu também. Até que a luz das chamas fez rebrilhar uma cor esquisita na bota que eu estava mesmo a acabar de engraxar. De repente olhei e num sobressalto vi o desastre que acabara de acontecer: a bota estava impecavelmente engraxada de castanho! Nem queria acreditar. Olhei para o meu pai a tentar avaliar se ele estava a ver o mesmo que eu, mas ele continuava a ler o jornal aparentemente esquecido do nosso diferendo e da minha teimosia. Por breves segundos ainda pensei esconder as botas e fingir que estava tudo feito e bem feito, mas não fui capaz. Acabei por interromper a sua leitura. "Pai, tinha razão, olhe o que aconteceu: agora tenho uma bota preta e outra castanha!". E ele, sem me condenar, levantou os olhos do jornal e viu o que estava à vista. Não disse uma única palavra, nem lhe passou pela cabeça lembrar-me que me tinha avisado, e é essa a sua grande lição. Não só não condenou, como na manhã seguinte pegou no carro para me levar a uma drogaria da sua confiança para comprarmos uma graxa suficientemente forte e preta para apagar todos os vestígios de castanho. Lá fomos, mesmo em cima da hora do almoço e do fecho da drogaria, eu ainda relutante e meio chateada, ele com aquela atitude querida e verdadeiramente paternal de quem só está ali para ajudar. Comprou a super graxa preta, pagou tudo e viemos embora sem uma palavra de recriminação ou ironia. Grande pinta. Quando for crescida quero ser como ele.

publicado por Laurinda Alves às 00:05
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14 comentários:
De João Delicado a 8 de Fevereiro de 2011 às 00:00
São uma delícia, estes pequenos episódios que a vida traz! Obrigado pela partilha!
De batidasfotograficas a 8 de Fevereiro de 2011 às 00:13
Quando não se segue um conselho de um sábio, tudo pode acontecer! Até mesmo adormecer sem reflectir. Pai é sempre a verdade da boa experiência. Adoro o meu Pai.
Abraço
De Isabel a 8 de Fevereiro de 2011 às 07:11
Bom dia Laurie,
Sim... que delícia esta partilha. E que forte traço na atitude do teu pai. Beijinhos. Não... não te preocupes. Sabes, às vezes não acontecer aquilo que esperamos também nos ajuda e prepara para situações parecidas, mas mais sérias. Não te preocupes.... penso que as voltas da vida às vezes nos ajudam a crescer, e neste caso a Mariana cresceu um bocadinho. Custa estar a transmitir-te isto... deves achar-me uma mãe insensível, mas não sou... às vezes ver crescer custa, e tu sabes disso... és mãe... mas depois, um dia vemos os filhos com "almas" saudáveis e encontramos algum sentido de retorno porque estivemos lá para o segurar se caísse e... não caíu, cresceu. Beijinhos grandes e anda, corre e salta imenso com as tuas botas, agora muito mais giras e... muito mais "valiosas"... tenho a certeza!
Isabel
De PAS a 8 de Fevereiro de 2011 às 09:01
Laurinda, GRANDE Pai!!!! Eu também gostava de ser assim para os meus filhos. Abraço PAS
De Maria Suzana Ferreira a 8 de Fevereiro de 2011 às 10:14
Obrigada por esta partilha tão simples e tão cheia de conteúdo.
"Serviu-me a carapuça"! Quer com os pais, quer com o marido, quer por vezes com os filhos...
Estamos sempre a aprender e o silêncio é, por vezes, um professor e educador muito mais precioso do que mil palavras.
Um beijinho Laurinda e obrigada.
De Paula Seixas a 8 de Fevereiro de 2011 às 10:31
Bom Dia Laurinda :-)
Obrigada por mais esta partilha :-) E pela mensagem que ela nos deixa e nos faz pensar :-)
Eu também costumo dizer aos meus pais: "...já não sou uma criança " :-)
Beijinhos.
Paula Seixas
De Lina a 8 de Fevereiro de 2011 às 12:28
Ai Laurinda, revi-me completamente no texto...
Apesar de adorar o meu pai, são esses aspectos em que entro em conflito com ele.
Obrigada pela partilha.
Abraço
Lina
De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2011 às 12:51
Laurinda obrigada por esta partilha extraordinária. És uma excelente contadora de histórias, já me estava a ver envolvida na cena também. Mas a realidade do acontecimento é de facto uma grande Lição de Vida. Os pais são fabulosos, tenho muitas vezes "bons desentendimentos" com o meu, que diz que sou muito teimosa ( e quero sempre levar a minha àvante - expressão sua) e muitas vezes reconheço o quanto ele tem razão no que diz, à posteriori...
Também como mãe não sei se tenho essa grandeza do silêncio na devida altura, tenho de me "educar" mais nisso. Sou mais explosiva e quando dou por mim, já disse: Eu bem que avisei....
Não me vou esquecer desta grande lição.
Grande Beijinho
Carmen
De Marta M a 8 de Fevereiro de 2011 às 16:03
Lindo Laurinda. E humano, e com limitações, como somos todos e como devem ser as relações verdadeiras.
Não tendo essa sorte, tentei fazê-lo com os meus filhos...
Nem sempre o consegui, a "grandeza" do silêncio- como já li por aqui- só a aprendi a dominar há pouco tempo...
Tinha presenciado tanto desacerto e temia vê-lo reproduzido na geração seguinte.
Avisei, avisei e...Se calhar, nem era preciso tanto.
Enfim, dizem que passamos a vida a tentar corrigir os erros que cometeram connosco na infância. Mas o pior é que os personagens já são outros e, por isso, esse resgate posterior, pois....resulta mal... ;)
Temos que parar de cometer esse erro, não acha?
Felizes os que têm pais assim: carinhosos, sábios e humanos, mesmos nos desacertos
:)
Abraço grato pela partilha tão pessoal
Marta M
De Cristina Torrão a 8 de Fevereiro de 2011 às 19:36
Bem, eu, sinceramente, acho que a Laurinda é que teve a atitude mais bonita. Em vez de esconder as botas, teve a "ousadia" de interromper a leitura do pai, para dizer: "Pai, tinha razão, olhe o que aconteceu: agora tenho uma bota preta e outra castanha!"



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