Terça-feira, 18 de Março de 2008
A escrita de Zilda
Zilda Cardoso, escritora que nasceu e vive no Porto, acaba de publicar o seu terceiro livro. Assisti ao lançamento em Lisboa, na livraria Byblos, e ouvi-a falar sobre a sua escrita de uma forma incrivelmente luminosa, divertida e sedutora. Conheci a autora nesse dia mas já tinha lido dois dos seus livros e fascinou-me a surpreendente facilidade com que divagou sobre personagens e narrativas que, sendo seus, também lhe escapam e se constroem sozinhos como se tivessem vidas próprias e pertencessem a um mundo inteiramente vivido e criado por eles. Um mundo que podem inclusivamente deixar como herança a outros que hão-de vir, mesmo que esses outros tenham uma existência real fora do papel.
Zilda tem uma formação académica muito ampla onde cabem especializações tão opostas como a Filosofia e a Gestão Contabilística que ela aplica com a mesma naturalidade nos livros, nos projectos, nos negócios. É admirável esta sua versatilidade e não deixa de me espantar a inspiração com que escreve, o rigor filosófico com que pensa e a disciplina com que gere as casas de família. Ocupa-se das árvores, das flores, das ervas de cheiro, do lago de peixes encarnados e de toda esta existência vegetal e mineral com a mesma dedicação com que se ocupa da alma dos personagens e da sua natureza animal. Tem uma escrita feminina, impressionista e muito cinematográfica. Escreve como sente e não tem medo de usar as palavras. Mesmo quando elas já não se usam ou parecem excessivas.
Agustina Bessa-Luís fez a apresentação pública de “A Rua Paraíso”, o seu primeiro livro, e declarou na altura que Zilda “tem esse peregrino dom da disciplina memorialista. Parece que é hoje que tudo acontece na Rua do Paraíso”. Zilda dedicou-lhe depois o seu segundo livro “Ana Augusta”, que é uma história de família.
Agustina tinha dito que “se não fossem pessoas como a Zilda Cardoso, que da memória fazem uma cidadania adornada de mil carinhos e realidades pensativas, os lugares ficavam mais tristes” e eu concordo inteiramente com Agustina e leio nos livros de Zilda e nas suas personagens o gosto “pelo exercício da inteligência, da imaginação, da curiosidade e da memória” que a própria autora assume e cultiva com a mesma dedicação com que faz crescer as flores do seu jardim.
“Cerejas de Celulóide” (que tal como os anteriores, também foi editado pela Campo das Letras) é o terceiro livro que acaba de lançar. Tem um título sui generis que a autora justifica e me dispenso de explicar e, nas suas palavras, narra a história de uma dádiva irrecusável – uma herança sólida, de pedra e cal, muito mal recebida por dois irmãos que são gente tranquila e moderadamente crentes na verdade e no bem mas que têm reacções e pensamentos agressivos, desejos imoderados de violência. Uso ainda as palavras de Zilda, que fala sempre com elegância e humor, para concluir que os problemas entre estes dois irmãos atingem proporções dramáticas que “não sei como foram resolvidos, se foram…”
 
 
 
 
publicado por Laurinda Alves às 21:12
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