Moram numa parte de casa, num andar inteiro de um palacete antigo no coração da cidade. Moram sozinhas há tantos anos que já lhes perderam a conta. Têm as três para cima de oitenta anos e contam que há mais duas irmãs que não vivem com elas porque casaram. Também havia um irmão, o único rapaz, mas já morreu.
Duas nunca saem à rua e a única que se atreve a descer e subir os passeios inclinados do Sacramento e da Garrett vai quando é mesmo preciso ir. De resto fica em casa a tratar das irmãs.
Uma está deitada, não fala, não se levanta e está quase sempre enroscada como uma criança pequena. Chora quando quer dizer alguma coisa e as irmãs percebem sempre o que está a dizer.
Outra tem os ossos fracos e as mãos deformadas pelas doenças mas faz tudo como sempre fez. Não sai da cama porque as pernas já não obedecem mas senta-se, trata de si, ri, pergunta e fala com desenvoltura e graça. Irónica, revela uma lucidez invulgar, uma memória prodigiosa e um sentido de observação pouco comum.
A terceira, que é a mais velha das três, toma conta das outras duas porque ainda consegue caminhar. Magra e pequena, parece ainda mais baixa porque as costas foram encurvando à medida em que os anos foram avançando. Tem o cabelo muito branco, liso e fininho e usa-o penteado impecavelmente para trás, preso com um gancho.
Apesar de viverem numa casa grande, as três irmãs habitam apenas o quarto que dá para uma salinha onde as funcionárias da Misericórdia preparam e deixam tudo o que é preciso para cada dia. O quarto tem paredes escuras e tectos altos trabalhados. Há uma janela grande que dá para a copa das árvores do largo histórico mas as irmãs nunca abrem esta janela porque têm medo de se constipar. Também raramente afastam a portada e por isso o quarto permanece na penumbra. Na verdade a luz naquela casa não vem de fora, está lá dentro. A casa em si mesma é sombria, de corredores compridos cobertos de um tecido escuro adamascado. Há no ar um certo frio e um cheiro que se nota à entrada mas se esquece pouco depois. Elas explicam que a casa é grande porque a avó era médica e tinha o consultório na parte de trás. Falam da avó, que nasceu há mais de duzentos anos e dizem com admiração e respeito que foi a primeira portuguesa a especializar-se em ginecologia. Percebe-se de onde vem a fibra das três irmãs.
Vistas ali, nos detalhes e na intimidade daquele quarto onde vivem noite e dia, ano após ano há tantos anos, parecem a mistura improvável de um quadro da Paula Rego com um conto de Tchekhov. Um quadro de humanidade, escatologia e dor; um conto de dignidade, compaixão e luz.
As três irmãs não se chamam Olga, Macha e Irina nem alimentam o sonho de viver em Moscovo ou noutra cidade. Tal como na peça de Tchekhov também entre as irmãs de Lisboa não há conflitos nem cenas dramáticas, mas apenas uma longa história de sobrevivência à monotonia dos dias.
Irina disse uma vez que “virá o dia em que todos saberão o porquê de tudo isto, o porquê destes sofrimentos. Nesse dia não haverá mais mistérios mas enquanto esperamos é preciso viver”. Estas três irmãs não diriam melhor.