Viaja incansavelmente porque sabe que um dia pode ter que deixar de viajar. Não a assusta a morte mas apenas a ideia de um tempo parado e denso de espera, em que não é ela que vai e leva, mas os outros que chegam e trazem. Gosta de ser ela a dar e gosta muito de caminhar. De ir ao encontro dos outros, de procurar e achar.
Leve e alegre, sorri com tudo e ri por nada. Contagia os que estão à sua volta sempre. Tem uma luz própria que nada nem ninguém conseguirão nunca apagar. Uma luz que ilumina as sombras, que dá mais claridade ao ar, que enche de ternura e dá mais confiança ao andar.
Magra e elegante, sempre foi muito alta e decidida mas agora que os anos se foram sucedendo e acumulando quase sem darmos por eles, já não parece assim tão alta. Mas tem o mesmo passo firme e a mesma agilidade de sempre. Os ombros estão menos rectos mas o cabelo está mais bonito. Os olhos continuam verdes e limpos. Lindos.
Parece uma rapariga sonhadora. Ou um anjo feliz, não sei bem. Encanta-me a sua alegria e comove-me a pureza de intenções com que vive. Como se os sucessos, os fracassos e todas as lágrimas derramadas lhe tivessem lavado a alma e purificado ainda mais o coração puro.
Vejo-a caminhar entre as pedras antigas, subir aos montes mais altos, errar entre as ruínas dos templos originais, procurar a sombra das colunas e dos muros para se sentar e ficar a olhar. E sento-me e espero por ela. E olho-a para a fixar quando ela não me está a ver. Preciso de o fazer para quando deixar de a ter. E depois ela olha, sorri e vem ter com as duas filhas e vamos as três pela rua de mãos dadas, esquecidas das horas, dos outros e de tudo o que existe à nossa volta.