Terça-feira, 25 de Março de 2008
Mãe
 
Viaja incansavelmente porque sabe que um dia pode ter que deixar de viajar. Não a assusta a morte mas apenas a ideia de um tempo parado e denso de espera, em que não é ela que vai e leva, mas os outros que chegam e trazem. Gosta de ser ela a dar e gosta muito de caminhar. De ir ao encontro dos outros, de procurar e achar.
Leve e alegre, sorri com tudo e ri por nada. Contagia os que estão à sua volta sempre. Tem uma luz própria que nada nem ninguém conseguirão nunca apagar. Uma luz que ilumina as sombras, que dá mais claridade ao ar, que enche de ternura e dá mais confiança ao andar.
Magra e elegante, sempre foi muito alta e decidida mas agora que os anos se foram sucedendo e acumulando quase sem darmos por eles, já não parece assim tão alta. Mas tem o mesmo passo firme e a mesma agilidade de sempre. Os ombros estão menos rectos mas o cabelo está mais bonito. Os olhos continuam verdes e limpos. Lindos.
Parece uma rapariga sonhadora. Ou um anjo feliz, não sei bem. Encanta-me a sua alegria e comove-me a pureza de intenções com que vive. Como se os sucessos, os fracassos e todas as lágrimas derramadas lhe tivessem lavado a alma e purificado ainda mais o coração puro.
Vejo-a caminhar entre as pedras antigas, subir aos montes mais altos, errar entre as ruínas dos templos originais, procurar a sombra das colunas e dos muros para se sentar e ficar a olhar. E sento-me e espero por ela. E olho-a para a fixar quando ela não me está a ver. Preciso de o fazer para quando deixar de a ter. E depois ela olha, sorri e vem ter com as duas filhas e vamos as três pela rua de mãos dadas, esquecidas das horas, dos outros e de tudo o que existe à nossa volta.   
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publicado por Laurinda Alves às 21:08
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10 comentários:
De Anónimo a 11 de Abril de 2008 às 11:46
Laurinda querida

Quando estiverem de mão dada, aperta-lhe a mão com muita força. Depois aproveita e dá-lhe um beijinho prolongado. Sente e memoriza o seu cheiro para nunca te esqueceres dele. Mesmo que um dia, daqui a muito tempo, já não te lembres bem do seu cheiro e do tamanho da sua mão, terás a certeza que o vosso tão grande amor permanece incondicional.

Parabéns pelo blog. Este é o meu texto preferido..
Um abraço apertado.
Filipa
De meldevespas a 11 de Abril de 2008 às 15:04
Benvinda ao Sapo!
Revi-me tanto neste texto. Não passa um dia que não tema o vazio que a inevitabilidade da vida me fará sentir. Compreendo na perfeição esse memorizar de cheiros, tiques, sons, gestos, toques.
Amo-a cada dia mais, e nestes dias, em que também já eu sou três vezes mãe, cada hora é testemunho do amor crescente por esta mulher pequenina só por fora.
Beijinho e bom fim de semana
De js. a 11 de Abril de 2008 às 15:49
Um belíssimo texto, com referências de amor, muita admiração e respeito por uma pessoa que lhe é muito querida - a Mãe.

Que o vosso amor continue brilhante, capaz de vos iluminar (sempre) os dias, todos eles.

O meu obrigado pela partilha do texto, gostei muito.

Cumprimentos.
De Celia Esperança a 12 de Abril de 2008 às 14:58
Que homenagem tão bela. Consigo mesmo imaginar a sua mãe!
De Marta Martins a 13 de Abril de 2008 às 00:05
Olá!
Que bom poder ter alguém que leio e admiro há tantos anos ao gesto de clicar...
Parece que a conheço e parece, quando escreve, que conhece o interior de tantos de nós...
Continue aqui, inspirada e inspiradora.
Como sempre.
Um abraço
Marta Nartins
De ensinartes a 14 de Abril de 2008 às 02:16
Um texto sensível sobre a mãe, onde se reverão todas os seres do mundo que tiveram a sorte de ter uma sempre por perto. Pra fechar esse ciclo, convidava-te para leres o texto sobre a definição de avó que há tempos andou a circular por aí, não sei se te chegou, mas que tive a ousadia de plagiar no meu blog...http://ensinartes.blogs.sapo.pt
cumprimentos anónimos
De Maria a 14 de Abril de 2008 às 15:58
Fiquei surpreendida porque não sabia que tinha um blog e feliz por poder ler os seus textos mais assiduamente.Gostei muito do texto, como sempre gosto de todos os seus textos.Vou imprimi-lo para ler aos meus alunos e divulgar o seu blog.
Obrigada pelas suas palavras.
Maria
De padeiradealjubarrota a 16 de Abril de 2008 às 03:22
Entendo tudo. Profundamente.
De tita a 16 de Abril de 2008 às 13:44
Olá Laurinda

Fiquei contente em descobrir que partilha deste novo mundo ... cá me vou convertendo também.
Obrigado por falar mais uma vez sobre a sua MÃE ,mulher de grande nobreza de carácter e, acima de tudo, um exemplo de esperança, generosidade , disponibilidade e de muita fé...quem não gostaria de percorrer a vida de mão dada com ela ???
Já me deu a mão muita vez, já me ouviu muito ...já me ensinou que a amizade não tem limites. Obrigado por
me deixar fazer parte da vossa vida algumas vezes.

tita
De Patrícia a 15 de Outubro de 2008 às 10:49
Laurinda!

Ontem foi um dia em que eram precisas várias janelas para deixar o fresco entrar... e cada vez que pensava nessa imagem ia ler mais um post !
Cheguei a comentar com uma amiga que estava a ficar viciada, até que li este e aí pensei "um dia quero que alguém fale de mim assim!"

Muito obrigada pela companhia e pelas Ideias para Pensar!

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