Sexta-feira, 21 de Março de 2008
Abu Simbel
 
Combinamos atravessar o deserto durante a noite e percorrer a longa estrada recta antes de o sol nascer em Abu Simbel. Queríamos ver a montanha e as grandes esculturas de pedra à primeira hora do dia, ainda com as sombras do amanhecer projectadas nas águas do Lago Nasser. Fomos de camioneta e adormecemos embalados pelo ronco do motor nos solavancos do asfalto. Um embalo temperado pelo vento morno da noite que sopra e levanta a areia em remoinhos à nossa volta.
Demoramos muitas horas na estrada e o sol nasce antes de chegarmos, quando ainda estamos em pleno deserto. São seis e um quarto e paramos para ver o instante sagrado em que a noite se faz dia.
Àquela hora o deserto é um mundo branco enevoado com um véu esbranquiçado, onde não é possível distinguir o fio do horizonte e a terra se confunde com o céu. Não há barulhos no ar nem vestígios de vida na areia. Apenas o desenho do vento nas dunas baixas e os traços de muitos séculos inscritos nas pedras claras. Mais nada.
O sol nasce sem cor nem calor. Demora a subir e a aquecer mas quando chegamos a Abu Simbel o ar está muito abafado.
De frente para os templos guardados pelas figuras colossais de Ramsés II e Nefertari, a sua rainha, é impossível não fazer silêncio. Entramos e percorremos devagar os corredores e salas esculpidos, desenhados e pintados por sábios primitivos.
O silêncio de todos e de cada um fala mais alto do que qualquer palavra que se possa pronunciar naquele lugar.
À saída sentamo-nos perto do Lago e contemplamos o horizonte líquido e infinito onde toda a montanha e as esculturas de Abu Simbel poderiam ter ficado submergidas. As águas do Lago Nasser, um dos maiores do mundo, são águas fecundas e cheias de vida que correm no coração de África e alimentam homens de todos os continentes, infelizmente de formas desiguais dada a cobiça de certos povos e a supremacia de certos negócios.
Abu Simbel, a admirável montanha com esculturas e templos magníficos, foi inteiramente removida pela mão humana no fim dos anos sessenta afim de perpetuar no tempo a memória de Ramsés II e dos egípcios antigos. Muitos países uniram esforços e ajudaram os egípcios modernos a salvar o monumento e as esculturas. Daí também o silêncio e a quietude daquele lugar. Ninguém se atreve a falar muito alto nem a perturbar o mistério que deuses e homens quiseram preservar.
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publicado por Laurinda Alves às 21:07
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