Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
Um eléctrico chamado desejo

 

Este post não tem nada a ver com o filme de Elia Kazan nem com a peça de Tennessee Williams. A Streetcar Named Desire, o filme de Kazan inspirado na peça de Williams, era outra história, mas apetece-me usar o título de um dos filmes lendários dos anos 50 para falar de outro tipo de eléctricos e outro tipo de desejos. Ando diariamente de eléctrico e adoro este meio de transporte, mas (há sempre um 'mas') custa imenso perceber que os ladrões de carteiras continuam activos apesar de todas as operações da polícia que, na semana passada, prendeu quase 20 destes pickpockets.

 

 

A maneira ardilosa como actuam e se fazem passar por simples passageiros é incrivelmente eficaz, e para quem entra num eléctrico mais ou menos desprevenido, de carteira ao ombro, sem prestar muita atenção aos avisos colados nos vidros que alertam para os perigos que corremos dentro dos transportes públicos, uma pequena viagem pode terminar num grande drama. Assisti esta semana ao ataque de choro de uma japonesa que saiu no Chiado depois de reparar que tinha ficado sem carteira, dinheiro e documentos. Olhei à volta e ainda vi o vulto de um homem de camisa escura a dobrar a esquina e a misturar-se com a multidão de pessoas que sobem e descem a Rua Garrett. Eu estava dentro do eléctrico e não pude fazer nada porque já estava em andamento. Vi a japonesa ficar para trás, desesperada, no passeio, e senti uma enorme impotência e frustração. Ao meu lado uma rapariga com ar de estudante de liceu disse-me: "coitada, é turista! Eu cá já os conheço todos, uns andam vestidos de fato e gravata, outros de turista e outros com roupas normais, mas eu sei quem são e nunca fui roubada".

 

 

Saí do eléctrico quase no fim da linha, desconsolada com a cena e com esta certeza de não ser o primeiro nem o último roubo nos eléctricos de Lisboa. A imagem da japonesa perturbou-me tanto como a passividade com que a esmagadora maioria dos passageiros olha para estas cenas. Como se fosse tudo normal. E o pior é que, de certa forma, até é. Que chato existir esta casta de ladrões cheios de expediente e disfarces a 'trabalhar' dia e noite dentro dos eléctricos e autocarros. Deixam-nos a todos intranquilos e transformam as viagens pela cidade numa espécie de suspense permanente. Todas as pessoas que entram e saem são suspeitas e passamos a maior parte do tempo a tentar descobrir se o senhor com bom aspecto que se sentou ao nosso lado vai tentar ficar com a nossa carteira e telemóvel...

 

publicado por Laurinda Alves às 11:54
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4 comentários:
De Carlos Manuel Lopes da Silva a 21 de Julho de 2010 às 13:59
Identifiquei-me em demasia com este relato, porque já fui assaltado num tram (em Praga) e porque há apenas 2 semanas o meu carro foi assaltado em plena garagem, tal como todos os outros lá estacionados.

A situação actual é incrivelmente assustadora. Ninguém anda descansado, toda a gente em todo o lado, está sujeita a ser burlado ou a fazerem-lhe mal... E este cenário já nem sequer se cinge à capital mas vai do norte ao sul de Portugal.

É o reflexo do CAOS em que está o país...
De Tac a 21 de Julho de 2010 às 15:43
Passeiam-se pela Baixa umas raparigas, por acaso romenas, já conhecidíssimas da polícia e que à descarada, em plena Rua da Prata, perseguem o alvo como ave de rapina. Um dia destes, quando dei por mim, tinha invertido percurso por conta de uns turismas-próximas-vítimas que, por sinal, devem ter sentido um par de vultos, meu e delas, o que lhes fez recolher os sacos, máquinas e afins.
Chego ao escritório, incrédula, partilho o assalto-que-poderia-ter-sido-e-não foi e tenho como feedback qualquer coisa do género: "depois não te queixes se te assaltaram". E este país está assim, cheia de gente que "assalta verbalmente" o Outro com verborreia deste calibre.
De Fernanda Matias a 21 de Julho de 2010 às 16:09
Olá Laurinda

Também me sentiria como a Laurinda ( impotente ) porque saiu mais tarde, em não ficar, pelo menos, ao lado da pessoa que foi assaltada e sózinha, no meio de muita gente, seguramente.
Hoje vivemos num mundo a mil ritmos, que serve também de desculpa para não olharmos para os outros e pelos outros. Todos falamos dos direitos de cidadania, que devemos exigir.No entanto também temos deveres de cidadania que não cumprimos.
Muita gente , dá dinheiro aos arrumadores de carros, para em troca, não lhe danificarem ou assaltarem os carros. A Isto eu chamo pagar a violência, ainda por cima.

Um abraço enorme
Nota: quero deixar claro que não sou contra os arrumadores de carros, até porque já tenho efectaudo trabalhol com eles, de modo a que se deixem ajudadar para uma vida limpa e digna.
De Marcolino a 22 de Julho de 2010 às 06:39
Querida, Laurinda!
É um dos pesados prêços, da chamada Globalização...
Abraço
Marcolino

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