O entardecer e a noite são horas sagradas para visitar os Templos. As pedras guardam o calor do dia mas a poeira já assentou porque quase todos foram embora. Restam muito poucos e os que ficam andam mais devagar e evitam fazer barulho para não perturbar a quietude dos deuses.
Caminham em silêncio por entre as ruínas colossais, param para medir e contemplar, conhecem a história de séculos e milénios e sabem decifrar. Alguns pousam a mão sobre as paredes inscritas e lêm com as pontas dos dedos os sinais, as formas, o relevo.
Distinguem o significado da cabeça de falcão e da cabeça de crocodilo, sabem o que é uma cruz copta, percebem o sentido da chave da vida, da porta do céu e do círculo da eternidade. Conhecem de cor os nomes e destinos dos adoradores de homens, animais e plantas sagradas e reconhecem os deuses e as deusas adorados. Aprenderam a diferença entre Nefertari e Nefertiti e sabem que entre as duas raínhas houve sucessivas eras de lutas e disputas, amores e ódios, vinganças e paixões, homens e amantes, amigos e inimigos.
À noite sopra um vento quente vindo do deserto e no Templo de Kom Ombo, o único erguido para adorar dois deuses diferentes (com duas portas de entrada, uma para cada majestade) há luzes acesas no chão a iluminar as pedras altas cobertas de hieróglifos magníficos. Abutres de asas estendidas pintados de azul e negro ainda guardam os tectos da última porta da última sala onde só o sumo-sacerdote podia entrar e permanecer.
O lugar de adoração continua a ser um lugar de peregrinção onde apetece ficar. Ficamos.
Quando a noite vai avançada e no Nilo já não há movimento nem barulhos, apagam-se as luzes do Templo e é então que os pássaros deixam de voar entres as pedras e se desenha no céu com fina e cristalina nitidez a lua crescente. E é na hora exaltante do primeiro instante desta lua nova, acompanhada pela estrela da noite, que nos deitamos sobre as pedras quentes e ficamos em silêncio a rezar.
Cada um ao seu Deus.