Domingo, 16 de Março de 2008
O caminho da Esfinge
 
Durante o dia o calor é de tal maneira denso e insuportável que tudo acontece entre a madrugada e a manhã, ou depois do entardecer. A partir do meio dia só é possível existir nos labirintos subterrâneos dos túmulos do Vale dos Reis, na sombra antiga dos templos mais antigos, na penumbra dos quartos com ventoinhas suspensas no tecto ou debaixo das casuarinas, onde sopra um vento quente que por passar entre as folhas, fica mais fresco e torna possível a vida nas ruas.
As árvores estendem os seus ramos sobre os passeios onde as pessoas se juntam e ficam muitas vezes em silêncio, de olhar fixo num horizonte deserto e distante que dificilmente se consegue alcançar. Os homens riem com os olhos, dão as mãos, cumprimentam-se com beijos e falam entre si numa língua indecifrável mas não primitiva. Perderam a língua egípcia e agora usam o árabe mas muitos ainda preferem o dialecto primordial das suas províncias. As mulheres não se misturam com os homens, vestem de preto ou usam cores neutras, andam quase todas cobertas dos pés à cabeça e caminham com passos apressados apesar do calor. As mais velhas têm um olhar oblíquo e desconfiado mas as mais novas dão gargalhadas na rua e trocam cumplicidades num silêncio sábio, muito feminino.  Algumas olham de frente, com desafio e provocação, lançando olhares que interpelam quem não é da sua tradição nem comunga a sua religião.
Os Núbios, esses, são um povo áparte, uma casta de príncipes negros que se distinguem pela nobreza de traços e carácter mas, também, por terem a pele mais escura de todas. Moram em casas simples, inacabadas e muito afastadas do centro. Falam e vivem como nenhuns outros egípcios e resistem com dignidade e humildade às maiores adversidades dos tempos, perpetuando de muitas formas a raça de faraós negros da 25ª dinastia.  
Mais perto do centro da cidade, os herdeiros milenares dos construtores dos túmulos de alabastro dos reis e rainhas egípcios também resistem à modernidade e ao suposto progresso. Recusam-se a abandonar as suas casas e a mudar para outros lados das montanhas onde a UNESCO e os maiores arqueólogos e especialistas do mundo lhes querem erguer novas moradas para poderem deitar abaixo estas que foram construídas sobre o extraordinário Caminho da Esfinge. Os escultores continuam a trabalhar o alabastro no terreiro das suas casas, alheios aos interesses do mundo inteiro que reclama para si este património da humanidade que permanece enterrado sob o asfalto poeirento da cidade de Luxor. Enquando eles morarem nas casas e lugares que sempre lhes pertenceram e legitimamente consideram seus, muitas das mil esfinges de pedra construídas nos dois lados do caminho que liga os templos de Luxor e Karnak ao rio Nilo vão continuar enterradas. Mas não é só por causa deles que o mundo moderno conhece apenas parcialmente os míticos caminhos da Esfinge e do Carneiro. Muitas outras casas e muitos outros bairros com hotéis de colunas e colunatas de tamanho variado, pintadas de cores improváveis e todas fora de escala, foram sendo construídos sobre monumentos faraónicos e agora seria preciso deslocar meia cidade de Luxor para descobrir toda a riqueza escondida debaixo deste imenso caos de betão e tijolo perfeito.
Talvez seja por saber isto que o homem de túnica cinzenta e cheche azul que acende e apaga todas as noites as luzes que iluminam cada uma das Esfinges responda sempre com um silêncio evasivo às perguntas insistentes dos turistas que querem saber se um dia as mil estátuas vão voltar a estar á superfície. Talvez por isso se deixe ficar acocorado no chão, indiferente ao movimento, a fumar o seu cigarro demorado.
 
 
publicado por Laurinda Alves às 20:36
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