Sentamo-nos a mesa para jantar depois de um breve voo sobre o deserto e uma longa viagem feita num barco que sobe o Nilo devagar, quase sempre encostado à margem direita, a margem onde os búfalos vêem beber ao fim da tarde conduzidos por rapazes descalços vestidos de túnicas brancas imaculadas até aos pés. Depois do sol e da poeira do caminho as crianças entram pelo rio e deixam-se ficar dentro de água com as túnicas molhadas até à cintura, em brincadeiras feitas de exclamações e risos, enquanto os búfalos se afastam, lentos e sedentos, à procura da sombra da tarde. O sol desaparece muito depressa atrás da montanha de areia e pedras mas ainda há claridade no ar e os rapazes permanecem na margem até ser noite. Os búfalos ficam com eles e acompanham-nos quando os rapazes desaparecem nos campos de trigo crescido, mantendo a distância cerimoniosa e íntima que existe entre certos animais e certos homens desde que o mundo é mundo.
A mesa do jantar é comprida e as pessoas começam a chegar, vestidas de cores alegres e fatos elegantes. Muitos ainda não se conhecem e, por isso, trocam apenas olhares educados e meios sorrisos.
Há um homem misterioso que se aproxima mas não se senta. Tem as mãos atrás das costas e parece esconder alguma coisa. Ou guardar, talvez.
As pessoas esquecem-se dele e comecam a conversar umas com as outras. Quando finalmente se levantam para ver a mesa dos doces e escolher entre os mil frutos perfumados sumptuosamente espalhados sobre as toalhas de algodão puro do Egipto, o homem inclina os ombros e cumprimenta em silêncio os que se atravessam no seu caminho. Faz um aceno especial, quase imperceptível, aos que cruzam o seu olhar com o dele. E afasta-se, guardando no bolso do casaco aquilo que traz nas mãos.
Na verdade ninguém lhe presta muita atenção atá ao momento em que ele avança e pousa com solenidade e risco, ao lado de cada um, aquilo que discretamente esteve a fazer enquanto todos comiam, bebiam e conversavam distraidamente. Depois afasta-se mais uma vez e espera ao longe que o chamem.
Os envelopes brancos pousados sobre a mesa têm uma inscrição simples, um carimbo que diz "Mohamed N.Khalil, Slhouette Artist of Egypt". Estão fechados mas não selados e lá dentro têm uma pequena obra de arte: um cartão castanho com o recorte expressivo e mais que perfeito do perfil de cada uma das pessoas que estavam sentadas à mesa.