Primeiro os factos: há precisamente um ano um rapaz de 19 anos, vítima de uma descarga eléctrica brutal num lugar público de acesso fácil, deu entrada nos Cuidados Intensivos, na Unidade de Queimados do Hospital de São José, onde permaneceu entre a vida e a morte durante quase dois meses.
João Reis, o rapaz, chegou ao hospital com 60% do corpo gravemente queimado por ter subido inadvertidamente os degraus de um vagão de carga estacionado na linha de caminhos-de-ferro que termina mesmo ao lado da discoteca Lux, na beira-rio de Lisboa, mesmo em frente de Stª Apolónia.
João Reis não foi o primeiro a ser electrocutado e, pelos vistos também não é o último porque agora, há menos de um mês, deu entrada no mesmo hospital outro rapaz com o corpo dramaticamente queimado que, se sobreviver, corre perigo de amputação de membros.
Quando o João chegou ao hospital, com uma grande extensão do corpo queimado e num coma do qual só sairia um mês depois, estava lá internado um outro homem a quem acontecera o mesmo, no mesmo local. Esse tinha sido o quarto caso em dois anos. João Reis foi o quinto e agora há um sexto. Pelo ‘andar da carruagem’ (salvo seja) muitos outros podem vir a sofrer o mesmo acidente sem que nada nem ninguém se lembre de vedar a maldita linha de caminho de ferro onde os comboios de carga estacionam regularmente e onde permanecem durante o dia e a noite, mesmo ao lado de uma discoteca onde, por definição, as pessoas se juntam, bebem, conversam e dançam e de onde saem a altas horas da noite, ou já de madrugada, nem sempre completamente sóbrias. Justamente por ser um ponto de encontro para saídas à noite e um lugar onde se bebe, todos os cuidados são poucos e todas as medidas de segurança devem ser reforçadas por quem, como a Refer, sabe que os cabos de alta tensão existem, estão mesmo ali ao lado e, pior que tudo, estão demasiado próximos do solo.
No caso de João Diogo o que aconteceu literalmente foi que saiu da discoteca com o grupo de amigos e ficaram na rua em conversas animadas até que ele, sem a menor noção do risco que corria, subiu os degraus do vagão que estava estacionado na linha. Ao subir os degraus entrou num arco voltaico (a terminologia técnica pode não ser a mais perfeita mas parece-me suficientemente incisiva para se perceber) e sofreu uma descarga de 25 mil watts. A roupa incendiou-se, o corpo inteiro pegou fogo e ele foi atirado para o chão pelo raio eléctrico assassino.
Abreviando uma história que mudou toda a sua vida e fez história na família, nos amigos, nos que estiveram sempre próximos e em quem seguiu a evolução do caso nos media, o João passou por fases muito dolorosas marcadas por sucessivos agravamentos do seu estado de saúde. Quando, finalmente, se percebeu que já não corria perigo de vida (passados longos meses de suplícios inacreditáveis) a questão que se punha era saber como seria o resto da sua vida.
Felizmente João Reis tinha apenas 19 anos e por ter também uma excelente condição física, conseguiu recuperar quase completamente. Surfista e jogador de futebol, já retomou os treinos mas não pode voltar ao mar. A sua memória apagou completamente os meses mais aflitivos mas quem esteve à cabeceira jamais esquecerá tudo o que passou e viu o João passar. Uma reportagem televisiva recente que agora se pode rever na net (YouTube: João Reis Acidente) recorda de forma eloquente como tudo se passou.
Se agora enuncio estes factos, é para sublinhar que, nos últimos dois anos deram entrada na Unidade de Queimados 6 (seis!) casos semelhantes aos de João Reis sem nem ninguém tenha feito nada para impedir que mais dramas aconteçam.
A Refer não vedou o acesso dos peões ao dito terminal de caminho de ferro, não colocou nenhuma rede e, muito menos um guarda ou um sinal inequívoco de perigo de morte.
Nos Estados Unidos, acidentes como este são levados à barra do tribunal e resolvidos sem piedade, sentenciando as empresas ou pessoas responsáveis a pagar pesadas indemnizações, associadas à obrigação imperiosa de selarem esta espécie de ‘lugares de morte’ ou de encontrarem maneiras eficazes para prevenir mais acidentes.
Em Portugal as coisas não só não se resolvem com a mesma urgência e eficácia como fica tudo perversamente na mesma. As entidades e as autoridades distanciam-se olimpicamente dos factos e as desgraças vão-se sucedendo.
Por tudo isto e porque me arrepia saber que hoje mesmo, esta noite, amanhã, depois e depois, o pior pode voltar a acontecer a jovens e adultos que inadvertidamente se aproximem dos aparentemente inofensivos comboios de carga estacionados perto de uma discoteca, pergunto à direcção da Refer quantas mortes, amputações ou invalidezes crónicas são precisas até que os senhores decidam colocar uma vedação e um sinal de ‘perigo de morte’ no sinistro terminal?