A notícia é recente: uma mulher grávida, casada, que finge ter um tumor e passados meses aparece sem barriga e sem doença. Aparentemente mais uma mulher que consegue enganar em casa mas não na rua. O marido não desconfia mas os vizinhos sabem que ela esconde uma gravidez e interrogam-se sobre o paradeiro do bebé.
Uns acham que o deu para adopção mas outros insistem em saber pormenores. E descobrem que o matou e guardou o cadáver no congelador.
Esta mulher é mais uma daquelas que matam os seus próprios filhos à nascença e depois continuam a fazer coisas tão inexplicáveis como pô-los num saco dentro do congelador, mantendo uma certa normalidade e cumprindo as tarefas do dia-a-dia.
A ideia de guardar o cadáver de um bebé no congelador gela qualquer pessoa dita normal e a frieza com que tudo isto é feito é desconcertante. Inquieta e apavora.
Os psis e os especialistas em crimes desta natureza não têm respostas prontas para dar nem existem explicações fáceis para atitudes como estas. Mas há comportamentos que dão pistas e podem ajudar a identificar potenciais infanticidas.
Sophie Marinopoulos, psicanalista e psicóloga clínica francesa especialista na ligação ‘mãe-filho’, autora de estudos e livros de referência sobre estes laços essenciais, acaba de lançar um ensaio sobre a questão. “La vie ordinaire d’une mère meurtrière”, editado pela Fayard, é a história de Eva uma mulher criminosa que faz exactamente o mesmo que fez esta portuguesa e usou igualmente o congelador para guardar o cadáver.
Sophie declara que Eva é uma mulher como as outras. Ou quase. “Boa mulher, boa pessoa, boa vizinha, tem uma vida profissionalmente preenchida e uma casa razoavelmente confortável. Discreta, talvez seja um pouco apagada. Como se estivesse ausente do seu próprio corpo”.
Tão ausente que descobriu tardiamente as suas três gravidezes. A última fê-la precipitar-se para a casa de banho a meio da noite, onde teve um filho que não sabia que esperava. “Com uma mão ajudou-o a nascer e com a outra matou-o.” Sophie escreve que, depois, foi com uma certa ‘naturalidade’ que o enfiou num saco de plástico e abriu a porta do congelador velho para o deixar lá. Sem grande esforço para o esconder, note-se.
Sophie Marinopoulos trabalha há anos com estas mães, em articulação com os tribunais franceses, e garante que muitas não sentem nada. Nem culpa nem arrependimento. Como se fossem desprovidas de emoções. Como se não tivessem sequer consciência do crime que cometeram e cuja motivação não sabem explicar.
O livro de Sophie Marinopoulos não dá soluções mas traz muita luz a um debate complexo sobre questões delicadas. Questões que se prendem com a atitude feminina de negação interior da gravidez, com a forma como certos casais se amam ou envolvem fisicamente sem olharem verdadeiramente um para o outro e com o facto de uma mulher poder não compreender que aquilo que expulsou do seu ventre e, depois, matou é um bebé. Embora a matéria seja violenta e fale de mulheres e crimes que consideramos monstruosos, Sophie consegue ter um olhar profundamente humano e provar que muitas destas mulheres não sabem dar aquilo que nunca receberam. Não faz delas inocentes mas ajuda-nos a perceber que há mais culpados.