Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
Escritos sobre futebol em tempo de Mundial

 

Não resisto a transcrever para aqui algumas frases da primeira crónica do último livro de Mia Couto. O pré-lançamento foi ontem mas como sei que o livro ainda não está nas livrarias, deixo aqui alguns excertos. Ontem fui directamente do lançamento do livro para o almoço combinado com amigos para ver o jogo de Portugal (12 homens e eu, até chegar a Ana AC, que também é uma entusiasta e grita e enerva-se tanto como eles!) e confesso que não fui capaz de não ler o primeiro texto do livro. Entre os nervos do jogo, as meias apoplexias provocadas pelas bolas ao poste ou à figura, e a frustração pela ausência de golos, ia lendo a crónica que inaugura este livro do Mia. Por coincidência fala de futebol, coisa que me deixou ainda mais 'agarrada' à leitura (esta imagem foi tirada num jogo entre o Real Madrid e o Altéltico de Bilbao mas é a única foto de futebol que tenho aqui à mão, na minha máquina).

 

No meu bairro, o futebol era a grande celebração. Preparávamo-nos para este momento, como os crentes se vestem para o dia santo. Aquele domingo era um tempo infinito. E o campo, aberto num descampado da Muchatazina, era um estádio maior que o mundo: O jogo ainda por começar e o coração no peito já cansado: não havia relógio onde coubessem aqueles noventa minutos (...)

De repente o nosso lugar migrava e a nossa identidade transitava para mundos onde tudo era grande e brilhante. Era esse o segredo do atropelo no peito, desse vício que nos fazia fugir de casa, faltar à escola, e deixar a namorada à espera. Quando jogávamos deixávamos de ser nós. Deixávamos de ser. E éramos tudo, todos. (...)

Na minha equipa, eu era avançado de centro. Um eufemismo, talvez, designar-me desse modo. Porque eu apenas fintava, nunca rematava. A minha alcunha em chissena já dizia dessa habilidade: eu era o "kiywa", o fintador. Um fintabolista, como chacoteavam os outros. Faltava, porém, um nome para a minha inabilidade.

- Caraças, para ganhar é preciso marcar, pá! Esse gajo é um poeta. É o que ele é: um poeta.

 

Esta crónica é maravilhosa e tem um título sugestivo: Fintado por um Verso. Se puderem, não percam. O livro vai estar à venda muito em breve e chama-se "Pensageiro Frequente" porque é uma colecção de textos escritos para a revista de bordo das Linhas Aéreas Moçambicanas. Muito bom.

 

publicado por Laurinda Alves às 11:37
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