Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
Persépolis
 
O filme de que se fala e não se pode perder. Muito já foi dito e escrito sobre Persépolis e Marjane Satrapi mas não me parece demais voltar ao tema.
Persépolis é tudo aquilo que outros classificaram como ‘arte de grande nível, singular, formidável, político, polémico, essencial, terno, provocador, divertido e diferente de tudo o que já foi feito”. Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre isto e muito mais no Ípsilon da semana passada e, noutro contexto, a Newsweek sublinhou a diferença de Persépolis declarando aos leitores que “não é como nenhum outro filme de animação que já tenham visto”. E não é, de facto, embora tenha havido outros radicalmente diferentes em registos cinematográficos igualmente surpreendentes (estou a pensar em Sin City, por exemplo).
Há, no entanto, mais adjectivos que se aplicam a Persépolis e, particularmente, a Marjane Satrapi. Elegante pode ser um deles. Profundo e comovente, são certamente outros. E por aí adiante.
A elegância de Marjane não é uma elegância no sentido comum e, porventura, mais frívolo da palavra. Não é uma questão de moda, trata-se de uma elegância estrutural que se traduz numa contenção inteligente de palavras e gestos, numa depuração narrativa eficaz e num humor fino, por vezes explosivo, que parte sempre da auto-ironia de quem fala na primeira pessoa mas não se leva demasiado a sério.
Há outros pormenores de elegância no filme como a escolha de Catherine Deneuve e Chiara Mastroiani para darem voz às personagens principais e, ainda, o traço das figuras e cenários.
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud fizeram um filme quase todo a preto e branco mas encontraram tonalidades admiráveis para desenhar o amor e o ódio, a confiança e o medo e, também, para retratar a noite escura, ampliar a penumbra dos quartos e projectar as sombras nas ruas. Todo o filme é muito gráfico. Há, inclusivamente, uma espécie de preto-alegria e preto-ternura que aliviam o lado mais negro do filme. Os autores usaram, ainda, um espectro muito largo de brancos que vão do branco-susto ao branco-esperança, passando pelo branco-doce e caloroso que emana do cabelo da avó e do tio Anoush, dois pilares da existência de Marjane.
A atitude e a motivação dos personagens é sempre acentuada por essa mesma paleta de cores (ler: preto e branco) e o contraste entre bons e maus deriva especialmente da mancha negra que estes últimos arrastam consigo. São, quase sempre vultos sinistros que emergem das trevas e usam a noite para agir. Cobardes e prepotentes, claro.
Persépolis conta uma história que todos sabemos mais ou menos, embora com outros contornos. Mais humanos e menos políticos no sentido mediático do termo. Não se trata de um documentário político e muito menos de uma análise fria e objectiva da história recente do Irão. É muito mais que isso. É a história de uma família tocada pela guerra, devastada por perseguições, prisões e execuções sumárias de tios, primos, amigos e conhecidos.
Uma família onde existe uma filha pequena que assiste a tudo e é obrigada a exilar-se demasiado cedo na Áustria. Por ser uma rapariga iraniana e usar véu na cabeça, Marjane vive as circunstâncias das mulheres da sua cultura. Olhada e apontada com desconfiança, revela um humor feroz mas acaba por encontrar o seu lugar no mundo e triunfar. Não de uma forma triunfalista ou moralista mas daquela forma subtil e invisível que tem a ver com a verdade. E com a liberdade de sermos quem somos, aceitando as nossas origens e história.
 
 
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publicado por Laurinda Alves às 19:41
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