No MoMA, Museum of Modern Art de N.York, há ‘seguranças’ em todas as esquinas, desde o lobby de entrada às salas de exposições; dos corredores ao bar; das escadas rolantes às casas de banho. Tranquilos mas atentos, fazem-se presentes a cada passo. Não intimidam mas inspiram respeito e, naturalmente, transmitem segurança.
No 5º piso, porventura o mais luminoso daquele museu de vidros amplos e espaços desmedidos, há peças de Alexander Calder, outro escultor que me atrai pela criatividade, pelo humor e pela sofisticação inventiva e que, por isso mesmo, não me canso de admirar.
Pousada no chão, a Spider é uma aranha rara de contornos esquisitos, divertidos e criativos, com braços e pernas muito finos mas muito firmes. Ao fundo, mais próxima da parede do canto que faz um ângulo recto, está pendurada a Josephine Baker, móbil célebre de Calder cuja geometria improvável sugere um corpo humano que se move e dança no ar ao menor sopro de vento. Basta uma respiração para Josephine Baker exibir a sua existência suspensa num ballet infantil de marioneta metálica.
Perto da janela por onde entra uma luz torrencial que projecta sombras no chão e nas paredes da frente, um ‘segurança’ segue atentamente os passos dos visitantes. Alguém se aproxima dele para perguntar o nome do arquitecto que desenhou o MoMA e ele, solícito mas sem a resposta pronta, hesita, explica, enquadra, coça a cabeça e procura com os olhos alguém que o ajude a lembrar o nome que realmente não é nada fácil de decorar.
Ajoelhado no chão, debruçado sobre a Spider, um homem novo de aspecto banal, quase indiferente, vestido de fato-macaco azul, limpa meticulosamente a escultura preta com um espanador amarelo. Faz gestos leves e delicados, quase gráficos. Sopra, avança e recua para medir distâncias e dar tempo à poeira que precisa de assentar.
Quem passa não repara no homem banal de profissão menor mas o olhar do ‘segurança’ obriga-nos a destacá-lo da multidão e a determo-nos nos seus gestos de entrega. Detemo-nos mas o instante é breve porque o ‘segurança’ chama-o e ele interrompe o que estava a fazer. Levanta-se devagar, compõe maquinalmente o cabelo e o colarinho da camisa que traz debaixo do fato-macaco, enfia o espanador amarelo no bolso direito e aproxima-se com passos delicados do visitante que espera uma resposta. O ‘segurança’ pergunta ao rapaz da limpeza como se chama o arquitecto do museu e o rapaz, sem hesitar responde: Yoshio Taniguchi. E afasta-se, outra vez invisível e alheio ao movimento e ar de espanto dos visitantes.