Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
Manhattan
 
Três da tarde. O céu de Manhattan começa a escurecer e a mudar de cores. As nuvens mais pesadas convergem no arco do horizonte que vai ficando espesso e definido. Tingido de púrpura e cinza na base, permanece azul quase transparente no cimo.
No parque, o céu vê-se como se estivesse próximo e inteiro mas nas ruas fica muito distante, fragmentado e multiplicado até ao infinito nos vidros dos prédios mais altos.
Visto de baixo, faz lembrar o Sky Mirror que Anish Kapoor instalou na 5ª Avenida há pouco mais de um ano. Kapoor, artista por quem tenho verdadeira devoção, fez uma escultura minimalista aparentemente simples mas absolutamente genial: montou na rua um gigantesco espelho côncavo voltado para cima, para que todos pudéssemos ver como é humanamente possível fazer baixar o céu à terra.
O Espelho do Céu de Kapoor foi um delírio diário para os nova iorquinos e para todos os que na altura se passearam pelas avenidas de Manhattan. Colocado em frente ao Rockfeller Center, o espelho reflectia imagens maravilhosas das nuvens (a la Magritte), devolvia o topo dos arranha-céus e mostrava as pessoas que se aglomeravam nos passeios. Tudo aquilo parecia um filme sem princípio nem fim, uma espécie de movimento perpétuo em que as cores do dia e as luzes da noite eram permanentemente mostradas, ampliadas e projectadas nos mil vidros da cidade. Um prodígio estético e uma experiência sensual inédita. Como se outro mundo nos pertencesse e como se todos pudéssemos viver dentro do céu.
Breathtaking foi a palavra mais usada pelos críticos e curiosos da obra de Kapoor. E era, realmente, de cortar a respiração. Como são, aliás, quase todas as esculturas deste artista plástico inglês de origem indiana que me apaixona e fascina tantos amantes da arte contemporânea.
Anish Kapoor tem o dom de criar paraísos particulares e espaços eternos. Cumpre esta sua vocação com paixão e rasgo. Imprime a tudo o que faz uma identidade única (tem uma caligrafia pessoal, como alguém disse) e sentimentos profundos. A sua estética comove pelo mistério que encerram as linhas depuradas que cria e recria a partir de formas ancestrais. As suas peças são belíssimas, as suas esculturas são poderosas e as cores e pigmentos que usa são sempre vibrantes. My Red Homeland, exemplo recente e original, é eloquente do poder transformador da matéria formada, deformada e reformada que revela um mundo íntimo e descobre uma ligação cósmica.
Kapoor leva-nos a explorar abismos que são ao mesmo tempo certezas e ilusões de espaços sem dimensão. É difícil explicar o que sentimos quando entramos literalmente nas suas esculturas. Há, na Tate Modern de Londres, um ovo muito grande partido ao meio, pousado ao alto no chão, com casca de pedra branca que não foi polida e, no interior, uma laca brilhante de cor violeta muito escura que se confunde com o azul-noite, no qual podemos entrar para perceber o infinito cósmico. Há neste meio ovo de Anish Kapoor uma intenção claramente espiritual e uma dimensão metafísica e é uma experiência extraordinária partilhar uma e outra. Perdemos a noção do espaço e do tempo, deixa de haver medida, altura e profundidade, se esticamos o braço não conseguimos tocar nada, se damos um passo em frente ficamos fora do tempo. Somos obrigados a confiar que permanecemos seguros neste mundo.  
Todos os seus trabalhos são intensos e muito plásticos. Kapoor usa materiais diferentes e inéditos: velas de barco, argila misturada e massas de vaselina transparente que ele próprio tinge. Uma das suas instalações mais conhecidas é justamente uma destas massas de vaselina pousada no chão como se fosse uma enorme gota de sangue.
Kapoor também trabalha a madeira e o metal mas gosta de usar coisas diferentes como tecidos plastificados. Para a inauguração da Tate Modern cortou longas telas encarnadas às tiras e colou-as até terem uma forma orgânica que não sabemos se é animal ou vegetal, como aconteceu com a célebre instalação que ocupou (ou melhor, invadiu) todo o piso de baixo da galeria de exposições. E é o uso que faz dos materiais, as cores que escolhe e a abstracção das formas que existem por si mesmas que mostram toda a poesia de Anish Kapoor e nos levam a viver a sua arte com emoção e um sentido de transcendência.
 
 
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publicado por Laurinda Alves às 19:32
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