A memória é uma paisagem infinita, um horizonte que não acaba mais, uma fonte de inspiração mas também uma fábrica de saudades. E tantas vezes um motor de repetição de imagens felizes, felicíssimas, ou um invocador de realidades tristes, tristíssimas.
A memória atraiçoa-nos quando menos esperamos e confunde-nos quando menos precisamos.
Os pensamentos cruzam-se à velocidade da luz, em voos repetidos e fulminantes que nos escapam e não conseguimos controlar. Há momentos em que tudo é motivo para disparar o som de um riso, o eco de uma frase ou a transparência de um olhar. A substância da memória perturba quase sempre. Assusta a profundidade que se descobre e a amplitude que alcança. Às vezes parece um sonho leve, outras um pesadelo. Que pesa.
Apetece, por isso, ser capaz de travar a memória, bloquear os seus caminhos, impedir o seu livre curso. Criativa e dispersa, recolhe vestígios aqui e ali, regista traços e interpreta sinais. Analisa reacções e transforma tudo numa química precisa, quase sempre trespassada de nostalgia. Dá a tudo o que guarda as cores e os sentidos que tinham os instantes quando foram vividos, mas também as cores e sentidos que têm os momentos em que as memórias são recordadas. Daí a perturbação e a dificuldade.
É na memória que fica tudo aquilo que queremos e não queremos e é dela que surgem as imagens quando menos esperamos. Daí a traição, tantas vezes.
Dizem que a memória selectiva é rigorosa e se encarrega de apagar o que não interessa. Mas e o que interessa? O que não queremos apagar mas também não precisamos de estar sempre a lembrar?
Basta haver riscos brancos no céu para haver saudades, luz sobre o azul do rio para lembrar coisas ditas há um ano mas podiam ser de agora. Não é preciso muito para as frases de ontem soarem como se tivessem sido ditas hoje e não é preciso nada para os gestos se desenharem no ar uma e outra vez como se fosse a primeira. É difícil enganar a memória mas é possível ela levar-nos ao engano. Felizmente nem sempre.