Domingo, 10 de Fevereiro de 2008
A dor dos homens
 
Numa semana em que tanto se escreveu e disse sobre o aborto, em que prós e contras se voltaram a manifestar com veemência a propósito da aplicação da nova lei pós-referendo, gostava de acrescentar à discussão a perspectiva dos homens que ‘abortaram’.
Embora seja intensamente debatida por homens e mulheres, a questão do aborto permanece no imaginário de quase todos como uma questão das mulheres: uma escolha delas, um direito delas, o corpo delas, o alívio ou o trauma delas. Ora as mulheres decidem abortar ou não porque engravidaram dos homens e, nesta lógica, a questão, os interesses, os direitos e deveres são tanto de uns como de outros. Ou seja, o aborto não é um exclusivo das mulheres, muito pelo contrário. Os homens estão envolvidos desde o momento da concepção até ao momento da decisão. Não por uma questão de ‘culpa’, note-se, mas porque na realidade eles são os pais de um filho que há-de nascer ou não, em função da decisão que for tomada.
Embora a esmagadora maioria dos homens não tenha qualquer reserva em discutir em público ou privado o lado jurídico, moral e ético da questão, há uma minoria que tem pudor em revelar os seus sentimentos mais íntimos e em trazer à discussão uma realidade que poucos assumem: muitos homens que ‘abortaram’ também sofrem o trauma pós-aborto ou vivem com desconforto emocional por isso.
Pela primeira vez desde que o conceito de ‘síndroma traumático pós-aborto’ foi aceite pela comunidade médica e científica mundial, no início dos anos 80, foi organizada uma conferência internacional sobre os homens e o aborto. Em Janeiro passado, a San Francisco Men & Abortion Conference reuniu algumas centenas de homens para debater a questão e durante dois dias seguidos vários especialistas enunciaram as causas das coisas.
Houve duas comunicações que tiveram um impacto particularmente mediático na imprensa americana: “Medicating the Pain of Lost Fatherhood” e “Forgiveness Therapy With Post-Abortion Men”. Escusado será dizer que embora a conferência fosse aberta a todos e houvesse especialistas de várias áreas e tendências, os testemunhos para mim mais transformadores vieram dos homens que decidiram dar testemunho da sua experiência e justamente por terem vivido a realidade de um ou vários abortos, decidiram depois tornar-se activistas contra a interrupção voluntária da gravidez. Ou seja, homens que deram a cara por uma causa que também é deles.
Não estive na conferência e não ouvi as histórias de vida destes homens que lamentam profundamente não terem pensado melhor sobre o assunto na altura em que eles próprios ou as mulheres que engravidaram decidiram abortar. Mas li as comunicações que fizeram e os testemunhos que deram e mantive o contacto com Vincent M. Rue, um dos conferencistas que esteve em Lisboa nas vésperas do congresso de S.Francisco.
Vincent vive e trabalha num país onde se faz um milhão de abortos por ano e é um dos terapeutas especializados no acompanhamento de homens e mulheres que sofrem o trauma pós-aborto. A sua experiência de mais de trinta anos a tratar homens, mulheres e casais é muito eloquente do sofrimento que existe em muitas das pessoas que tomaram esta opção.
Sabemos todos que a interrupção voluntária de uma gravidez nunca é escolha fácil e raramente é feita sem condicionantes e, por isso, não se trata de julgar quem faz a opção mas de a evitar ou, não sendo possível, de aliviar as dores de quem é obrigado a lidar a vida inteira com a escolha que fez. Apesar de a lei nos EUA, e agora aqui, proteger a decisão das mulheres, isso não impede que elas se venham a arrepender ou que sofram a perda. E é justamente porque muitas mulheres e homens se confrontam ao longo da vida com a memória dos filhos que geraram mas não chegaram a nascer que vale a pena olhar para a questão do trauma pós-aborto sem preconceitos e começar a trabalhar a montante.
Os homens que lamentam os filhos que não tiveram contam que passaram a ter pesadelos, insónias, graus de irritabilidade maiores, sentimentos de culpa e, em casos agudos, fases de impotência física que assumem ter sido provocadas pela instabilidade emocional decorrente do stress potenciado pelo aborto ou até pela memória das relações sexuais que deram origem a esse mesmo ciclo de ‘mixed feelings’.
Alguns reconhecem a indiferença com que ‘pagaram e levaram’ a mulher que engravidaram a abortar, mas confessam que esta indiferença acabou por se transformar numa consciência profunda do seu acto. Estes, os que assumem a indiferença inicial, dividem-se entre os que vieram a ter filhos e os que nunca chegaram a ser pais. Os que tiveram filhos confessam que a paternidade lhes trouxe uma dor desconhecida e até ali insuspeita: a de serem pais destes filhos mas não daqueles que decidiram não ter.
Os que nunca chegaram a ser pais declaram que muitas vezes sonham com crianças que sentem que são os seus filhos (daí também os pesadelos de que falam) e têm umas saudades absurdas de alguém que não chegaram a conhecer.
E é porque eu própria tenho grandes amigos que passaram por essa experiência não apenas uma mas várias vezes, há muitos anos, mas que ainda agora falam com tristeza desses filhos que nunca chegaram a ter que insisto que vale a pena continuar a trabalhar de forma esclarecida e esclarecedora para evitar que a questão do aborto se ponha com tanta frequência e urgência. Com lei favorável ou sem ela, o sofrimento é real e não é um exclusivo das mulheres.  
 
publicado por Laurinda Alves às 19:20
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