Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008
Contra a devassa!
 
Numa semana marcada por dois acidentes brutais que provocaram a morte de vários portugueses numa auto-estrada em Espanha e num desastre de avião em Angola, as manchetes e reportagens sucederam-se dia após dia relatando factos, mostrando imagens, levantando questões e fazendo suposições. Num e noutro caso era obrigatório dar as notícias e acompanhar a evolução dos acontecimentos. Com mais ou menos sensacionalismo, os jornalistas fizeram o seu trabalho e cumpriram a missão de informar. Até aqui tudo normal.
O pior foi quando os directores das revistas sociais decidiram mandar as suas baterias de fotógrafos para as portas da igreja e do cemitério. Aí acabou o jornalismo dito factual e começou a devassa da intimidade de toda uma família em profundo sofrimento. Falo da família de Vasco Mendes de Almeida, um dos empresários portugueses que morreram no Huambo no fim-de-semana passado e o único que mereceu as atenções destas revistas.
Aparentemente alheios à dor e à perplexidade provocadas pela morte súbita de um homem muito novo que também era pai de dois filhos demasiado novos para o perderem, esta casta de colunistas concentrou-se apenas no facto de ele ser socialmente muito conhecido e avançou para a linha da frente sem pedir licença à família.
Depois de longos dias de ansiosa espera até os corpos serem resgatados dos destroços do avião para depois serem dolorosamente identificados e, finalmente, trazidos de volta ao nosso país, houve uma primeira missa de corpo presente na Basílica da Estrela. Era noite adiantada mas a igreja transbordava de familiares e amigos que se juntaram para se apoiarem mutuamente e para celebrarem unidos a memória de alguém muito querido. Apesar da multidão, o clima era de intimidade e homenagem. Aquela hora pertencia única e exclusivamente a um círculo íntimo de pessoas. O facto de ser um círculo muito alargado tem apenas a ver com as características da família de origem de Vasco Mendes de Almeida, com as famílias que ele próprio criou, com a maneira como ele viveu a sua vida e com os mundos que cruzou pessoal e profissionalmente. Mais ninguém.
Embora as revistas sociais saibam fazer a distinção entre um casamento e um enterro, uma festa e um velório, uma vernissage e uma missa, na realidade as fronteiras ficam esbatidas e os critérios obliterados quando se trata de alguém conhecido que pode ajudar a vender mais exemplares numa semana. Ou seja: para os editores destas publicações Vasco Mendes de Almeida morto vale muito mais do que a sua família inteira viva e, por isso, nem hesitaram em fazer a reportagem. Não um obituário ou uma reportagem de homenagem, note-se, mas a cobertura exaustiva dos VIPs que estiveram presentes nas missas e enterro. E de tal maneira os repórteres estavam briefados para o acontecimento que havia jornalistas emboscados em todas as portas e fotógrafos pendurados em quase todas as árvores. No largo da igreja, primeiro, e nas avenidas do cemitério depois.
O malabarístico trabalho foi feito sem uma palavra à família, sem um gesto de compreensão pelo seu sofrimento, sem o mais vago pudor e, claro, sem um pedido de desculpas pela devassa da sua intimidade. E tudo isto podia ser apenas absurdo se não fosse grave por ter ofendido os sentimentos dos mais próximos e cavado ainda mais fundo a dor dos dois filhos.
 
 
A saga das barreiras arquitectónicas
 
 
Como se tudo o que ficou dito e visto fosse pouco, a circunstância de Salvador Mendes de Almeida se deslocar numa cadeira de rodas revelou-se uma penosa agravante nestes dias que antecederam o enterro do pai. Como é do conhecimento público, o filho mais velho de Vasco Mendes de Almeida, de 25 anos, teve um acidente que o deixou tetraplégico há dez anos. A história do Salvador aliás foi escrita por ele próprio e por António Paisana e está publicada num livro que teve ampla divulgação e muito eco nos Media. Tive o gosto de o apresentar publicamente em Novembro passado, ainda na presença do pai, da mãe, da irmã, da namorada querida, da mulher do pai e de uma legião de familiares e amigos quase tão grande como aquela que agora se juntou para a derradeira despedida.
No livro, Salvador conta a sua história de vida depois do acidente e dá um testemunho muito lúcido e corajoso. A ideia de falar sem preconceitos sobre o seu quotidiano de tretraplégico revela a sua grande aposta: expor as condicionantes reais das pessoas portadoras de deficiência, esclarecer dúvidas, desfazer equívocos, desmistificar tabus e contribuir para uma mudança geral de atitude.
Salvador vive diariamente uma realidade que afecta 6% da população. Não existem 600 mil tetraplégicos em Portugal mas há 600 mil pessoas no nosso país com limitações graves para quem as acessibilidades são uma questão essencial. Pessoas que todos os dias, a toda a hora, são confrontadas com barreiras arquitectónicas invencíveis e com obstáculos incontornáveis. Nesta lógica e porque sabe o que custa ser diferente numa sociedade que valoriza os iguais, Salvador escreveu um livro e fundou uma associação para promover justamente o direito à diferença, lutar pela igualdade de oportunidades e mobilizar a opinião pública para uma causa que tem que ser de todos.
Numa semana particularmente devastadora o próprio Salvador esbarrou constantemente na falta de acessos aos locais onde era imperioso estar para acompanhar a família mais próxima. A dramática sucessão de impedimentos culminou nas escadas exteriores e interiores da Basílica da Estrela, em pleno centro de Lisboa, onde não existe uma única adaptação para cadeira de rodas. Por incrível que pareça, foi preciso encomendar e pagar a uma empresa particular uma rampas para que o filho pudesse ter acesso à capela onde estava o corpo do pai.
Se em dias normais a dificuldade de acessos já é muito injusta e enervante, em circunstâncias especiais torna-se verdadeiramente perversa. Apetece gritar ao mundo que pare de excluir os que são diferentes e apetece sentar todos os políticos, todos os legisladores e executores em cadeiras de rodas e obrigá-los a andar pelas ruas e praças, pelos edifícios e corredores, pelas instituições e repartições até perceberem o que sofre quem vive a saga diária da falta de acessos e condições.
Percebo que o Salvador e tantos como ele se indignem e lutem incessantemente por mudar esta realidade e transformar esta mentalidade. Percebo-os e estou radicalmente com eles. Por eles.  
 
 
 
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publicado por Laurinda Alves às 19:12
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