Sábado, 5 de Janeiro de 2008
Gestos que salvam
 
Os poetas escutam os rumores dos séculos, observam a passagem do tempo, ampliam a vida. Estão no mundo como se também estivessem fora dele, ouvem os seus barulhos filtrados por uma distância feita de abstracção e silêncio e dizem as coisas de forma despojada ou excessiva mas sempre extraordinária. A poesia é uma espécie de música ancestral que trazemos em nós, um som primordial que reconhecemos mesmo quando não percebemos.
Os escritores, esses, desvendam a memória dos homens, recriam as lendas do mundo, revelam o que foi ficando inscrito entre o céu e a terra, aspiram ao mais alto e ao mais sagrado, prolongam o eco das pedras, exploram o fundo dos abismos, inventam leis, fazem e desfazem princípios, esperam pela noite, sonham e depois traduzem tudo por palavras escritas que podem ser ditas e repetidas. Os livros são como outra respiração, um sopro antigo que nos faz viver outras vidas, em outros mundos.   
Os realizadores de cinema são, ao mesmo tempo, poetas e escritores, que observam e escutam o mundo, que lêem palavras e decifram gestos para depois os repetir com cores diferentes a uma luz escolhida com hora e critério, em lugares tantas vezes distantes, num tempo quase sempre remoto.
Impressiona esta arte de plasmar gestos, de revelar emoções, de projectar num pano branco a vida em toda a sua amplitude, na graça como na desgraça. Perturba o silêncio quando ele é filmado na sua pureza essencial; comovem as falas quando a alegria, a dor ou a inquietação trespassam o olhar e toca sempre que uma transparência de alma fica gravada e a fazer eco dentro de nós. Muito poucos têm este dom de revelar no cinema toda a grandeza que existe na alma humana, imperfeita por natureza.
Alejandro González Iñárritu, o realizador mexicano de Babel é um destes dotados. Ele e os seus fotógrafos de culto, Mary Ellen Mark, Patrick Bard, Graciela Iturbide e Miguel Rio Branco conseguem iluminar as sombras do mundo sem apagar os vestígios da miséria e da glória, sem dar tréguas às tréguas, sem alterar a vibração da humanidade, sem comprometer a respiração do universo e sem dissipar a tal claridade cósmica que nos envolve e guia.
Babel é, passe a redundância, um cruzamento babélico de três histórias sobre a complexidade da vida e das relações humanas num mundo cada vez mais labiríntico e a descompasso. Todos guardamos imagens e sons deste filme marcante e cada um saberá aquilo que mais o impressionou. A mim impressionou-me rigorosamente tudo mas, de forma especial, o gesto de Anwar, o solícito marroquino que finalmente consegue fazer aterrar um helicóptero para evacuar a mulher ferida, a quem Brad Pitt oferece dinheiro como prova de gratidão. Dólares americanos em pleno deserto berber, note-se. Anwar olha para o dinheiro, para a pequena fortuna que lhe é oferecida, e numa eternidade que demora breves segundos, avalia a possibilidade de resgatar ali toda a sua miséria. Num instante percebe o que é que verdadeiramente salva e recusa uma e outra vez, apesar da insistência do americano. E é a profundidade daquele adeus e a natureza da sua recusa obstinada em transformar um acto de generosidade gratuita no habitual expediente dos mais pobres para obterem lucro dos mais ricos que comove, transforma o olhar e permite acreditar que há e haverá sempre quem nos salve também a nós.      
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publicado por Laurinda Alves às 19:11
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