Zanzibar ao amanhecer parece mundo de outro mundo. Céu muito baixo azul brilhante, nuvens ainda carmin, quase sem espessura, rentes ao mar cruzado pelas velas brancas dos pescadores ao longe, pessoas que vão e vêm descalças para todo o lado, mulheres altas e magras com panos em volta do corpo e cestos à cabeça que atravessam a praia e caminham com passos veementes pela areia molhada, entre troncos de árvores frondosas, ruínas de casas e restos de navios naufragados que aparecem e desaparecem consoante as marés. As marés no Índico avançam e recuam com uma força que faz a água percorrer distâncias improváveis em pouco tempo. Num minuto estamos à janela a ver o mar e poucos minutos depois esse mesmo mar já está lá ao fundo, encostado ao fio do horizonte, deixando a descoberto árvores, ruínas e destroços inimagináveis. Uma cidade dentro de outra cidade que ora está submersa ora fica exposta à luz do dia.
A luz de Zanzibar rebrilha sobre a transparência do mar e inunda a ilha de uma claridade fina que amplia o branco das casas brancas. Também há casas azuis e amarelas e de cores ocre desmaiadas pelo calor dos séculos. Há casas muito velhas e casarões antigos vividos, largos com palmeiras a prumo, pátios de cal com os muros a descascar, passeios irregulares, mercados e avenidas onde todos se encontram a todas as horas do dia.
Os homens usam roupa gasta, fatos de calças estreitas fora de época ou longos vestidos de cores e andam pela rua de mãos dadas. As crianças dividem-se entre as que andam despidas, as que têm camisolas cheias de buracos e as que usam fardas inglesas de saias ou calções impecavelmente engomados com camisas imaculadamente brancas vindas de colégios que lembram outros tempos. As mulheres são belas, altivas e usam panos e saias coloridas pelos tornozelos.
Ao fim do dia os corvos de Zanzibar vêm pousar nas copas das árvores redondas e o seu grasnar alado soa como um canto intenso que o vento da tarde espalha pelo ar. Debaixo das árvores onde os corvos pousam e levantam com golpes de asa perfeitos, há uma brisa doce e um tempo demorado que é o dos homens e das mulheres que chegam devagar e se sentam no chão para conversar, para cantar ou simplesmente para ficarem a olhar o infinito para lá do mar. As vozes baixas, as gargalhadas mais ou menos abafadas pelo voo rápido dos pássaros e pelo rumor vegetal das folhas e os silêncios contemplativos daquela mistura de gente alegre e triste que nunca mais voltei a ver nem sei se ainda existe continua a ser a substância de alguns dos meus sonhos.
Nos jardins de Veneza
Entre o labirinto de ruas e canais existem árvores de todos os tamanhos e feitios, linhas de pinheiros mansos vergados pelo tempo, arbustos crescidos e arbustos aparados, hibiscos de cores ardentes e trepadeiras antigas que cobrem os muros de pedra escura que emergem da água e contornam jardins poéticos onde apetece demorar. Os jardins dos palazzos têm portões altos de ferro trabalhado que deixam ver as flores e as árvores mas permanecem fechados, inacessíveis a quem não é da casa. Os jardins públicos têm muros mais baixos e portas sempre abertas por onde se entra e sai sem olhar para as horas. Nestes jardins, como noutros, há velhos sentados à sombra, crianças em bandos barulhentos, namorados abraçados em conversas íntimas, pessoas que atravessam de um lado ao outro com passo mais ou menos apressado e senhoras de bata com carrinhos de bebé pela mão. Aos domingos à tarde o jardim maior enche-se de mulheres eslavas mas também vindas de outros continentes, mulheres que deixaram as fardas em casa dos senhores e vestem roupas ousadas, estudadas, mulheres que falam muito alto, riem de tudo e nada, que têm maquilhagem por vezes exagerada, fumam com gestos sensuais e usam penteados elaborados. Chegam à hora combinada, juntam-se ruidosamente em volta do lago onde durante a semana entretêm os filhos dos senhores de Veneza a dar miolo de pão aos patos e pousam as carteiras no chão. Dividem-se em grupos, conversam e riem sem contenção. Algumas vestem saias de leopardo e usam saltos agulha, outras preferem roupa prática mas nem umas nem outras dispensam os cintos de pedrarias brilhantes, os acessórios excessivos e os óculos escuros de marca comprados na rua.
Trazem cestos com comida e improvisam uma mesa na relva com toalhas descombinadas. Durante horas a fio ficam por ali em conversas indecifráveis pontuadas de gestos universais. Percebe-se à distância quando estão a ser cúmplices ou provocadoras, quando desabafam sobre coisas graves, quando falam bem ou mal de alguém e quando sonham alto. Divertem-se e são divertidas. Às vezes dançam e enchem o espaço de perfumes e cores extravagantes. Nunca estão caladas e permanecem muito fiéis aos grupos que fazem à chegada. É raro a amiga da outra sentar-se ao lado da amiga desta mas tudo é feito com conhecimento íntimo e uma intuição apurada pelos anos de exílio forçado numa cidade que todo o mundo venera menos elas, que conhecem as suas entranhas menos apaixonantes. Estão em Veneza como poderiam estar em qualquer outro lugar. Não escolheram a cidade pela beleza mas também não se pode dizer que não são sensíveis à atmosfera. Muito menos ao romance.
Embora tenham origens diferentes, ambições diversas e percursos desiguais, ali são capazes de ficar próximas e quebrar fronteiras. Dizem piadas entre grupos, calam-se para ouvir as reacções e voltam a falar animadamente. Quando o sol declina apagam os cigarros, compõem a pose, verificam o fundo das garrafas de vinho e de cerveja e começam a arrumar as coisas. A esta hora as vozes ficam subitamente menos alegres e os gestos menos exuberantes. E é a esta hora que cada uma segue o seu caminho e todas voltam ao seu destino. Despedem-se até domingo.
Tempestade no mar
O barco saiu do porto antes do sol nascer, numa noite quente e húmida já sem estrelas no alto do céu. As pessoas embarcaram na penumbra de mais um dia que se anuncia mas ainda parece incerto. A esta hora os olhos ainda pesam e não há alento para conversas. O silêncio da manhã é um silêncio íntimo que cala sonhos e pesadelos, que decifra os enigmas de uns e outros, que ajuda a compor a cara e a limpar o olhar.
A viagem era longa e muitos vinham de lugares remotos, de cidades cosmopolitas de onde partiram em navios maiores, em viagens de luxos e festas.
O céu foi abrindo e uma luz primeiro púrpura, depois amarela, inundou as águas e encheu de cores o mundo ainda penumbroso. O tempo que dura esta luz inaugural é doce e misterioso todos os dias. O instante em que a noite se faz dia parece sempre um milagre. O entardecer é mais lento, anuncia um fim e tem, por isso, uma poesia diferente. O amanhecer abre à novidade, traz a luz e a surpresa de um novo dia mas é igualmente exaltante.
No barco algumas pessoas começaram a conversar, outras saíram para apanhar o ar fresco da manhã e escolher as melhores cadeiras do convés e outras ainda permaneceram em silêncio, naquela abstracção matinal que tantas vezes apetece prolongar.
Saímos e sentámo-nos nas cadeiras mais à frente, de onde se vê apenas o mar e os breves pássaros que conseguem acompanhar o barco quando a distância de terra ainda é possível.
Durante muitas horas o único som que se ouve são as vozes lá atrás, o ronco pesado do motor do barco e o barulho chapinhado da água a ser separada em dois pelo casco de madeira que faz ondas e deixa uma esteira de espuma branca no horizonte líquido. O dia está cada vez mais quente e é preciso procurar uma sombra mas a tentação é permanecer ali no posto mais avançado. Ficamos.
Percorremos as longas milhas do Golfo do México que nos separam das ilhas sonhadas e chegamos depois do meio-dia. A esta hora no fundo do céu, muito ao fundo, começava a desenhar-se uma tempestade escura. Nuvens cinzentas muito pesadas pareciam tocar o mar e ameaçavam fechar o dia.
Percorremos as ilhas durante a tarde e depois o calor era tanto que fomos nadar. A água era quente e transparente e a areia muito branca e muito fina. Apetecia ficar mas o ar estava cada vez mais sufocante e o céu ficava cada vez mais negro. Alguém com autoridade deu ordens para sair da água e todos cumpriram sem hesitações. O céu metia medo.
Nessa noite voltamos no mesmo barco, pelo mesmo caminho, e a tempestade desabou quando estávamos em pleno mar. E é também a memória ao mesmo tempo assustadora e fascinante dos raios que explodiam nos quatro cantos do céu, dos trovões que pareciam um prenúncio do fim do mundo, da chuva morna e desabalada, do vento quente e do ar salgado e denso que me vem à memória nos dias em que a luz de Lisboa é de tormenta, em que o céu fecha, a água cai e, no fim, percebemos que tudo passou pelo arco-íris grosso que se desenha sobre o rio, dum lado ao outro da cidade.