Olho para o tempo que passou e vejo a vida como um filme. Tantos anos, tantas memórias, tantas imagens gravadas, tantas coisas vividas, ditas e caladas.
Lembro-me do primeiro dia, há vinte e tal anos, como se fosse hoje. Aqui e agora.
A casa onde moravam todos, eles os dois ainda tão pequenos, a cara que fizeram quando me viram entrar, o sorriso querido mas tímido de um e outro, sentados no mesmo sofá a verem televisão na salinha pequena. Olharam os dois para mim com aquela curiosidade infantil que nunca perderam e a mesma surpresa alegre com que continuaram a descobrir a vida. Lembro-me da maneira como estavam vestidos, das cores das camisolas, do corte de cabelo dele e do ar nórdico dela. Ele com a franja desalinhada sobre os olhos verdes, enormes e profundos, ela magrinha e elegante, de pernas altas, com o seu cabelo pelos ombros muito liso, muito fininho e muito louro, impecavelmente penteado.
Eram duas crianças invulgarmente bonitas, com uma luz e um mistério muito próprios. Sem exuberâncias nem gestos apressados, aceitaram educadamente o pequeno presente que levava para eles: um pacote de amêndoas de chocolate. Talvez fosse tempo de Páscoa, não sei, nunca me lembro das datas porque só guardo os momentos.
Voltaram a sentar-se e eu sentei-me ao seu lado. Eles fingiam que viam televisão mas eu sentia que iam olhando para mim e trocando olhares entre si. Permanecemos calados, eu a olhar em frente para o ecran mas a vê-los muito mais a eles do que ao programa; eles a olharem de lado, para mim, sempre a achar que eu não reparava. Todos nos sentimos observados mas todos nos sentimos também incrivelmente próximos. Recordo esta cena inaugural como a parte do filme em que trocamos poucas palavras mas dissemos muitas coisas uns aos outros.
Começou ali uma história de quase vinte anos de vida em comum e uma amizade sem tempo, terna e eterna.
Os anos foram passando e as coisas acontecendo com a naturalidade e a intimidade próprias de uma família.
Durante anos a fio os fins-de-semana eram passados numa casa caiada no alto de um monte que se estendia sobre um mar batido, com rochas. A memória dos passeios a pé, de mãos dadas, pela extensa encosta lavrada, ao som de incontáveis perguntas (os eternos porquês dos porquês), de histórias improvisadas no instante ou contadas e repetidas com mais ou menos detalhes, é uma memória feliz.
Os banhos de mar em manhãs cinzentas naquelas praias sempre cobertas de nevoeiro, as tardes em que o sol abria e ficava finalmente quente, as caminhadas na areia no Inverno, as gargalhadas infantis, as correrias, os jogos jogados à lareira, os amigos que iam e ficavam, os serões pela noite de dentro na sala de cima, as estações frias e os dias curtos mas também as estações quentes e os dias compridos, as noites estreladas, a casa ao lado onde alguém construiu, no cimo, um pequeno quarto com uma janela de vidro rasgada para o céu para observar essas mesmas estrelas, o silêncio puro da noite, o rebanho de ovelhas que passava todas as tardes à mesma hora, os ouriços do mar assados sobre brasas, os almoços de mesa comprida, as idas ao mercado da vila, o peixe fresco pousado na banca de pedra e pouco depois posto na grelha, o cabrito assado no forno com alecrim, azeite e ervas perfumadas, acabadas de colher da terra, os fumos e os cheiros do entardecer, o terraço com cobertura de madeira e heras cheias de flores, o arrepio de frio que nos fazia querer voltar para casa, as horas sem horas, o tempo com tempo, tudo isto e muito mais é um filme real que vejo e revejo com lentidão e uma música que sublinha toda a ternura e emoção.
Gosto do som do piano, que agora é tocado por outras mãos, e gosto de ficar em silêncio a lembrar os momentos em que nem em sonhos existia o rapaz que, ao meu lado, estuda Satie e treina repetidamente o ritmo lent et doloureux da Première Gymnopédie.
A nostalgia com que toca evoca memórias sem fim mas a alegria com que, logo a seguir ensaia a Sonatinade Clementi, num ritmo spiritoso, também me faz recordar outros tempos e outras vidas vividas.
O tempo em que eles os dois começaram a ler livros de muitas páginas, a fazer perguntas com mais profundidade e outro sentido, a revelar um espírito crítico cada vez mais acentuado, a estar mais atentos ao que se passava à sua volta, a sair com os amigos à noite, a querer viajar, a aprender todos os dias mais e mais coisas novas. Um tempo longo, de abertura e descoberta, de desafios e superações, de crises e conquistas, de acertos e desacertos, que encerrou para sempre a infância, que os fez como são hoje e os preparou para a vida que vivem agora.
Ele tinha e tem um sentido de humor permanentemente atravessado de uma ironia fina, por vezes cáustica, que nunca deixa de surpreender. Sensível como poucos, está sempre atento ao detalhe, aos gestos, às palavras que usa e escreve. Ou que ouve.
Divertido, ri e faz rir com gosto os que estão à sua volta. Reservado ou, se calhar, ainda tímido, é um pensador de ‘águas profundas’ que procura no mais fundo de si as respostas aos dilemas e inquietações que sempre o acompanham. Homem de múltiplos dons mas gestos contidos (reparo que acabo de escrever a palavra homem quando, para mim, ele continua a ser um rapaz) guarda alguns dos seus melhores talentos para os mais próximos. Não se desperdiça muito, portanto.
Lembro-me de o ver sozinho a atravessar o pátio do liceu onde os colegas se juntavam em grupos barulhentos mas também recordo o círculo de amigos que cultivou desde cedo e sempre foram como família. Solitário mas não isolado, criou um mundo à sua medida onde cresceu mais seguro e se sentiu de bem consigo e com a vida.
O facto de ser reservado nas emoções e contido nos gestos fez com que, em anos passados, tivesse tido alguma dificuldade em dar abraços ou deixar-se abraçar. E foi por ter sido obrigado a viver a dor mais funda de todas e a ultrapassar a perda mais irreparável que também foi capaz de vencer esta sua dificuldade. Durante longos meses permaneceu firme à cabeceira da pessoa que mais amava, mãos nas mãos, porventura a reparar com palavras e gestos toda a ternura que sempre sentira mas nunca fora capaz de demonstrar.
E é porque o conheço desde criança, porque o ajudei crescer e cresci tanto com ele, porque o vi sofrer e perder, mas também amar e ganhar, que agora celebro com ele o nascimento do seu primeiro filho. Um filho que ainda agora começou a respirar e, por isso, não sabe decifrar toda a alegria contida nas lágrimas que a mãe e o pai choraram por o verem nascer. E mais, que ainda não teve tempo para perceber que este pai que também acaba de nascer é o melhor pai que ele podia ter.