Terça-feira, 6 de Novembro de 2007
Memórias de uma mãe
 
Agora que já passou uma semana sobre o dia da morte e as suas cinzas foram lançadas com amor e solenidade ao mar, a mãe passou a viver no coração do filho de uma maneira que ele não sabia possível. Mais presente, mais próxima, porventura ainda mais viva.
Os últimos dez meses foram passados a caminho do hospital e culminaram num longo período de internamento. O filho morava noutro país mas voltou para poder acompanhar a mãe na doença e permaneceu firme à sua cabeceira até ao último momento.
A mãe tinha só este filho e viajou muito com ele pelo mundo. As viagens que fizeram e as fotografias que tiraram em lugares mais ou menos remotos ajudaram agora a ampliar o tempo final e resgataram uma memória permanentemente ameaçada pela doença invasiva, erosiva.
O filho passava os dias no hospital e levava as fotografias no computador ou impressas em grandes telas onde o horizonte se estendia com mais profundidade. A mãe olhava para as imagens e com a ajuda do filho ia recordando palavras, recuperando memórias, reaprendendo as coisas. Não fazia esforço, não eram precisos especialistas para treinar a fala ou forçar a expressão. Bastava a presença do filho, a confiança que lia no seu olhar e a alegria de poderem lembrar juntos os caminhos que percorreram ao longo da vida.
Comoveu-me saber alguns detalhes desta história porque conheço bem o filho e sei quem era a mãe. Ou melhor, sei como era a mãe.
Ele tem 35 anos e ela ainda não tinha o dobro. Passou tudo muito depressa e o fim chegou demasiado cedo mas o filho diz que a mãe teve tempo para tudo. Para estar com quem amava, para rever todos os que foram ficando para trás, para resolver questões antigas, para perceber razões que se calhar nunca tinha conseguido perceber, para se reconciliar com as suas próprias fraquezas e até para fazer as pazes com uma pessoa outrora muito querida mas de quem as circunstâncias afastaram.
Metódica e organizada, nunca em toda a sua vida perdeu nada nem se esqueceu de coisa nenhuma até ao dia em que perdeu um avião por uma questão de minutos. Contrariada, foi para a fila do balcão onde tinha que fazer um novo check-in e, no momento em que entregou o bilhete para que a menina fardada verificasse a hora e fizesse a troca, alguém ao seu lado entregou também um bilhete de avião e ordenou com voz forte e educada:
- Ensemble!      
Ela voltou-se e ali estava, mesmo ao seu lado, quem tanto amara e com quem tanto se desperdiçara também durante tantos anos. Era a única pessoa desencontrada na sua vida e aquela que menos esperava encontrar ali.
A viagem de avião, feita ‘ensemble’, ombro com ombro, olhos nos olhos, foi uma longa conversa onde tudo ficou para sempre acertado. Despediram-se à chegada e cada um voltou à sua vida com a certeza de que tudo tinha ficado certo.
O abraço nunca se chegou a desfazer porque passados poucos meses ela foi pela primeira vez ao hospital e percebeu que um novo tempo tinha começado. Dali para a frente a sua vida foi passada dentro e fora do hospital e o abraço foi renovado de cada vez que se encontraram ali, ela deitada na cama, ele sentado ao seu lado, os dois com tempo para acabar as conversas que algum dia pudessem ter ficado a meio.
O filho assistiu a alguns destes encontros e sentiu a mesma alegria, a mesma certeza e a mesma paz da mãe. E do pai.
E foi porque tudo foi vivido em paz, com tanta alegria e certezas que há dois dias encontrei o filho de sorriso franco, quase feliz, na festa de anos de um grande amigo nosso. Tinha os olhos naturalmente tristes mas estava ali a comemorar os anos e a celebrar a vida. Percebi mais uma vez que quem vive inteiro e entregue aos outros aceita melhor a morte. Ele fez-me acreditar que só quem não tem medo da vida é que também não tem medo da morte.    
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publicado por Laurinda Alves às 18:58
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