Melhor é Impossível!
Mais do que um espectáculo de circo, os próprios criadores do Cirque Du Soleil dizem que é um concerto multimédia acrobático. Ou uma mistura de um concerto rock’n roll com um imenso espectáculo visual, nas palavras de Shawn Kent, director de marketing para a Europa.
Seja o que for e tenha a definição que tiver, é uma sucessão espantosa de performances radicalmente desafiadoras para quem actua e para quem vê.
Assisti, pela primeira vez, a um espectáculo do Cirque du Soleil no dia em que estrearam em Lisboa o seu Delirium, e vi o que todos vimos: artistas com um impressionante domínio do corpo que provocam as leis da natureza e se põem constantemente em risco; dois ecrans gigantes de projecção multimédia a transbordar de efeitos especiais; músicos e bailarinos fora de série; acrobatas inimaginavelmente ginasticados e um elenco de excepção que se move numa espécie de espaço cósmico, que se transforma a cada momento.
É difícil traduzir por palavras os movimentos dos artistas e descrever a maneira como tudo e todos evoluem em cena. Nem vale a pena tentar, acho eu. O delírio é de tal maneira prodigioso que só visto.
Talvez valha a pena fazer um esforço de adivinhação para tentar visualizar o que estava fora de cena. Imagino que no backstage haja um outro espectáculo quase tão espectacular como aquele que nos é dado ver, pois a sincronia é tal e a subtileza com que os artistas aparecem e desaparecem no palco, subindo por etéreos fios que os levam para céus infinitos ou descendo por alçapões que os engolem de forma rápida e silenciosa, tudo é de tal forma mágico que nos leva a tentar adivinhar quem estará atrás, em cima e em baixo, a manobrar esta imensa troupe de marionetes humanas.
Os ecrans mostram sonhos estranhos e pessoas bizarras que saem de portas gigantes mas também amplia o mundo azul do fundo do mar, onde os artistas ganham uma surpreendente fluidez líquida. E quando o oceano se esvazia sem derramar uma gota na sala e todo o palco se transforma numa imensa floresta tropical ou, logo a seguir se incendeia num enorme fogo de chamas ardentes, tudo parece incrivelmente natural.
Delirium é uma espécie de fábula moderna e sofisticada que narra a procura do equilíbrio num mundo cada vez mais fora de sintonia. Há um homem supostamente normal que vive suspenso numa bolha que paira sobre a realidade. Bill, o dito homem normal, está presente ao longo de todo o espectáculo e ora observa, ora intervém criando laços ou provocando rupturas com as pessoas com quem se cruza.
O equilíbrio aéreo de Bill e de todos os personagens que actuam suspensos no alto de céus majestosamente iluminados é conseguido de uma forma maravilhosamente harmoniosa. Prende a atenção e enche-nos de certezas sobre a qualidade dos que estão dentro e fora de cena.
Quando tudo se converte num espaço sideral cheio de anéis de luz onde os astros se confundem no azul-noite e este buraco escuro antecede a explosão final de luz e cor com balões e papelinhos a chover na sala, despertamos e somos obrigados a voltar à realidade real. E é este acordar que não apetece nada depois de duas horas de sonho.