Ser Feliz Assim
Salvador, 25 anos, formado em Marketing e Publicidade, tetraplégico desde os 16, acaba de lançar um livro onde conta a sua história após o acidente de mota que sofreu há 9 anos. O testemunho de Salvador Mendes de Almeida tem apenas cem páginas e lê-se numa noite mas é precisamente a simplicidade e a capacidade de síntese de quem o escreveu, e de quem o inspirou, que fazem deste livro um colosso. Um verdadeiro monumento de coragem e entusiasmo pela vida.
António Paisana, 27 anos, advogado, autor do romance “Erasmus de Salónica”, fundador e director da revista Lisbon Golden Guide, escreveu o livro depois de longos meses de conversas pela noite dentro.
Salvador e António são amigos de sempre e para sempre. Conheciam-se antes do acidente e ficaram ainda mais próximos depois. Ao longo dos últimos nove anos permaneceram fiéis a uma amizade que se cimentou na forma como um e outro lidaram com a adversidade. Salvador foi, para o amigo, um exemplo de determinação e superação. António esteve firme à cabeceira, ouviu, calou, partilhou muitas dores e frustrações mas, também, extraordinárias conquistas.
Na verdade Salvador transcende-se em cada momento, todas as horas, um dia após o outro, em todos os anos da sua vida e esta sua atitude transforma os que estão à sua volta. António não foi excepção, e percebe-se no livro que o próprio autor revela a sua transformação interior. Ou seja, lê-se nas palavras de António toda a confiança que a coragem do Salvador lhe transmite.
Este pequeno-grande livro começa com um prefácio de João Lobo Antunes, escritor e neurocirurgião, que nos interpela logo nas primeiras linhas.
“ Já não o via há muito tempo. Aliás, não me lembrava de o ter encontrado como “pessoa”. A recordação que tinha dele era a de um “doente” com uma fractura da coluna cervical muito grave, que sofrera todas as complicações que podem suceder neste tipo de traumatismos.”
João Lobo Antunes faz bem em começar por sublinhar esta diferença entre o “doente” e a “pessoa” porque a nossa experiência em hospitais mostra que existe um abismo de distância entre os dois e pior, prova que esse abismo por vezes se torna cada vez mais intransponível. E doloroso.
É uma pena que assim seja mas é uma realidade que não podemos ignorar e, nesta lógica, é importante que seja este médico a pôr o dedo nesta ferida.
Sobre a substância do livro, Lobo Antunes diz o essencial: “Porque sempre entendi que os testemunhos de quem vive a doença ou a incapacidade nos ensinam muito mais sobre o sofrimento humano do que muitos tratados de medicina, leio-os sempre com interesse e, quando numa idade em que se pode pensar que já se viu tudo e nada há a aprender, se aprende alguma coisa nova, é sempre razão de júbilo.”
A satisfação passa, por exemplo, por Lobo Antunes assumir que passou a utilizar a ideia do Salvador de que é a cadeira de rodas que está presa a ele e não o contrário.
Para concluir as citações do especialista, deixo apenas mais um excerto sobre aquilo que Lobo Antunes considera ser uma lição de “esperança prudente”, ideia que ele próprio explica melhor.
“A esperança que aqui é transmitida, é aquela que renasce todas as manhãs com a simples alegria de viver mais um dia, e que anima o Salvador nos seus projectos da profissão e da família, porque, quanto ao andar, o Dr. Ascenso tudo esclareceu quando lhe disse: “olho para ti e vejo alguém que anda, que caminha, só que o fazes de forma diferente…”
Olho, eu própria, para o Salvador na sua cadeira de rodas e vejo-o sempre com ar tão livre, tão feliz e tão inteiro na vida que me esqueço, também eu, de que ele caminha de forma diferente. Para mim ele é igual em tudo. Só na alegria e na confiança é que o acho diferente, para muito melhor!
E foi a sua alegria contagiante e a sua segurança inabalável que me ajudaram a ser capaz de apresentar o seu livro na segunda-feira sem chorar.
O António chorou, sem lágrimas, e o seu silêncio calou fundo na imensa assembleia de pessoas que quiseram estar presentes.