Terça-feira, 20 de Novembro de 2007
Importa-se de falar mais baixo?
 
Estas idas e vindas de comboio semanais davam vários livros e vários filmes. Pelas pessoas que vão dentro do comboio, pelas conversas que se ouvem sem querer, pelas maneiras à mesa, pelo toque personalizado dos telemóveis, pelas atitudes mais ou menos ditatoriais dos pequenos e médios empresários que vão dando sequência aos seus negócios, pela eloquência de académicos que se maçam uns aos outros em dissertações a propósito de tudo ou de coisa nenhuma, pelo tom agastado com que chefes e directores de serviço ralham aos seus funcionários por não saberem fazer o trabalho na sua ausência e, até, pelas inconfidências amorosas que são contadas no banco de trás, julgando que não se ouvem no banco da frente.  
Por tudo isto e muito mais, valia a pena fazer um diário de bordo de cada viagem e dá-lo a ler aos passageiros para ver a sua reacção. Quem sabe se os mais agitados não passariam a ser mais contidos e se os mais barulhentos não baixariam o nível de voz e poriam os telemóveis no silêncio. Isto para não falar dos que usam perfumes impossíveis de esquecer (e de suportar) e dos que dormem a sono solto e ressonam sonoramente durante horas a fio.
Enquanto que nos aviões, e apesar da massificação, há regras explícitas que impedem, por exemplo, de ligar os telemóveis, e regras tácitas que convidam a uma discrição maior dada a exiguidade do espaço, nos comboios tudo acontece com mais largueza e certos passageiros têm mais dificuldade em respeitar os que viajam ao seu lado. Nesta lógica, vivem as horas que passam no comboio como se estivessem em sua própria casa ou no seu escritório privado, falam demasiado alto ao telefone, mantêm os toques dos telemóveis no nível máximo e esquecem-se deles no banco sempre resolvem levantar-se para esticar as pernas e desaparecer no fundo do corredor. Um inferno para quem, como eu, gosta de ir calada, com o telemóvel desligado e de olhos fechados para não enjoar com a cassete eternamente repetida nos ecrãs de televisão nem com a paisagem demasiado acelerada naquele embalo climatizado a alta velocidade.
 
tags:
publicado por Laurinda Alves às 18:50
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.tags

. todas as tags

.posts recentes

. MUITO OBRIGADA A TODOS PE...

. CURSOS DE COMUNICAÇÃO NO ...

. Curso de Comunicação adia...

. Se tiver quorum ainda dou...

. O BENTO E A CARMO HOJE EM...

. HOJE NO PORTO: SOBREVIVER...

. MÃES QUE NÃO CHEGAM A VER...

. Esta miúda vai longe!

. Alegria!

. Ladrões e cavalheiros

.arquivos
.mais sobre mim
.subscrever feeds