Terça-feira, 20 de Novembro de 2007
Cozinha caseira
 
Agora, que todas as semanas vou ao Porto, habituei-me a almoçar sumptuosamente em 15 minutos num restaurante mesmo em frente da estação de comboios de Vila Nova de Gaia. Digo sumptuosamente porque é disso que se trata. O sítio de que falo embora tenha uma aparência banal e esteja entalado entre uma confeitaria antiga e um armazém abandonado (ou coisa parecida) é, provavelmente, uma das melhores cozinhas caseiras que se podem encontrar fora do circuito comercial destes guias turísticos que nos dizem onde devemos ir e o que havemos de comer. Tanto quanto sei, este não tem estrelas no Michelin nem referências especiais nos ditos guias, mas posso garantir que é a melhor surpresa gastronómica que me aconteceu nos últimos tempos. Pela qualidade da comida, pela rapidez do serviço e pela excelência do atendimento a quem chega sempre com pouco tempo e muito medo de perder o comboio que passa antes das duas da tarde. É que como eu há muitos que ali param para almoçar cheios de malas e de pressas.
Tem uma parte de café e uma parte de restaurante sem pretensões nenhumas que vai até ao balcão que separa a cozinha. Ao lado da dita cozinha há umas portas de madeira bonita, cor de mel, que deixam ver um pátio de pedra antiga onde árvores outonais deixam cair as suas folhas amarelas. Este pátio tem uma luz muito cinematográfica e uns ângulos muito românticos mas acho que os donos do restaurante nunca se deram conta disso porque as portas estão quase sempre fechadas. Não devem ter tempo para pensar em assuntos que não sejam de forno e de cozinha.
Na sala do restaurante há calor, conversas trocadas no ar, alguns olhares cruzados, muitas gargalhadas francas e ditos familiares que revelam a mistura indizível da intimidade de uma clientela de todos os dias. Como se almoçássemos todos na cozinha da casa grande de uma avó ou na copa de parentes muito próximos.
Sempre que pergunto à entrada se há lugar à mesa, o senhor do balcão responde educadamente que “as meninas é que sabem!”. As meninas tratam-se e são tratadas pelo nome próprio, têm ares de província, são alegres e eficientes e uma delas tem idade para ser minha mãe.
Arranjam-me quase sempre a minha mesa preferida, voltada para a cozinha, e encomendam automaticamente uma sopa pouco quente. Enquanto como e leio o jornal, sempre de olho no relógio, elas providenciam discretamente o prato do dia que aparece invariavelmente a horas, a fumegar e com cheiros e sabores maravilhosos. Sejam carapaus fritos com arroz de legumes, seja uma feijoada rica, sejam pataniscas com arroz de tomate ou seja um simples frango assado (no forno, com molho e sabor de forno, como há muitos anos não me lembrava de comer) tudo ali me sabe pela vida. Á saída, já com o comboio a apitar na linha a anunciar a sua passagem, o senhor do balcão despede-se até para a semana. Não há nada melhor do que encontrar lugares e pessoas que nos fazem sentir em casa.
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publicado por Laurinda Alves às 18:49
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