Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007
O amor segundo Seu Jorge
 
Vinte rapazes abraçados, ombro com ombro, avançam pelo palco até ficarem à frente, todos em linha, a fazerem vénias ao público. Começam o concerto a agradecer e a alegria e a espontaneidade com que agradecem e se desencontram nas sucessivas vénias é contagiante. A animação é imediata e o Coliseu desaba em palmas. A sala está cheia, a transbordar de pessoas que se juntaram para ouvir Seu Jorge e esta sua banda inspirada e divertida.
Os rapazes dispersam e ocupam os seus lugares. Uns são músicos, outros cantores numa espécie de coro lá atrás, que vai fazendo umas coreografias que apetece acompanhar. Às vezes também fazem umas mímicas cómicas, todos muito cúmplices e livres, e a sua presença em palco é uma festa permanente. Parecem crianças felizes.
Quando estão nas suas posições entra Seu Jorge com passos que dançam, uma energia vibrante e aquela sua voz poderosa e inconfundível. De uma elegância extrema e sorriso rasgado, cumprimenta a plateia e anuncia a primeira música.
Seu Jorge é, como sabemos, um portento musical e um fenómeno de popularidade. Rapaz das favelas, cresceu na rua até que um dia a vida se tornou verdadeiramente insuportável. Nesse dia a sua dor, o seu ódio e a sua revolta ficaram tão agudos que ou matava ou morria ou … alguma coisa radical acontecia. Aconteceu.
Seu Jorge contou em palco, com voz grave mas tranquila, o que aconteceu no dia em que o seu irmão foi assassinado numa chacina de favela. Foi o segundo irmão que perdeu assim e Seu Jorge sentiu-se morrer também. De raiva e vingança. Não sabia onde ir nem o que fazer. Entrou num bar onde sempre ia e, a um canto, um homem cantava e tocava viola. Seu Jorge ouviu aquela música e achou que era diferente de tudo o que já tinha ouvido. Aproximou-se e, em pouco tempo, os dois começaram a falar de sonhos antigos. Seu Jorge sempre sonhara ser cantor.
Abreviando a história de uma amizade que há 17 anos transformou a sua vida, Seu Jorge declarou publicamente a sua devoção por Gabriel Moura, o homem do violão, que veio agora com ele a Portugal e apareceu no palco a cantar e a dançar com um um swing reggae e um entusiasmo que incendiou o Coliseu.
Seu Jorge fez mais alguns improvisos ao longo da noite e, a certa altura, parou o concerto para todos cantarmos os parabéns a um dos seus músicos que fazia 29 anos nesse dia. Ouvir os parabéns cantados por milhares de pessoas surpreendentemente afinadas foi comovente. O músico chorou e nós também.
Seu Jorge mantém-se fiel à sua gente e tem um sonho para o seu país. Criou uma escola de música na favela onde cresceu e aposta nos talentos dos rapazes de rua. Acredita que é possível transformar o mundo, se cada um começar por mudar o seu próprio mundo interior e o testemunho que dá é extraordinariamente luminoso. Os apelos que faz, para todos continuarmos a lutar por um mundo mais livre, mais humano e mais justo, onde as desigualdades sociais não sejam tão cruéis, interpelam profundamente e também ficam a fazer eco. Ao longo destes anos em que tem multiplicado os seus próprios talentos de cantor, compositor e actor (no filme Cidade de Deus, só para dar o exemplo mais conhecido) Seu Jorge tem sido um exemplo épico de confiança e esperança. Por causa dele e das suas músicas, muitos favelados acreditam que é possível libertar o Brasil da miséria humana que vivem diariamente nas ruas e nos morros.
No Coliseu de Lisboa Seu Jorge cantou as suas músicas mais intervencionistas mas também parou de dançar para cantar sozinho, com a sua viola, as canções mais intimistas e românticas. Numa e noutra versão a sua voz é igualmente apaixonante. Não cantou “É Isso Aí”, como muitos pediram e todos esperavamos mas não fez falta. A onda era outra, muito mais exuberante e convidativa. No fim, o palco encheu-se de pessoas que espontaneamente foram subindo e ficando a dançar com os músicos. Seu Jorge agradeceu ajoelhado perante uma plateia rendida e a imagem daquele homem de joelhos no chão fica comigo para sempre. Mais tarde, quando tudo já tinha acabado e ele estava descalço no camarim, a recuperar de tanta emoção, conversamos sem pressas nem pessoas à volta e, com uma naturalidade surpreendente, nasceu uma amizade entre nós e ficou combinado encontrarmo-nos em São Paulo em breve, para fazermos juntos um projecto que por enquanto deve permanecer no segredo do coração de cada um mas um dia, se tudo correr bem, poderá ser anunciado aos ventos.   
 
 
 
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publicado por Laurinda Alves às 18:38
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