Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007
Abaixo o powerpoint!
 
Num país onde existe uma espécie de epidemia permanente e contagiante que alguém classificou de “conferencite aguda”, em que a toda a hora se organizam conferências, seminários, debates, workshops e encontros com mais ou menos sentido, é extraordinário verificar as dificuldades que tantos professores, mestres e conferencistas têm em comunicar com o público. Alguns são tão inaptos que até dói.
Falo de pessoas que nunca foram treinadas para a exposição pública de ideias, que não foram preparadas para o debate, que não fazem a menor ideia da importância de adaptar o discurso à plateia que têm na sua frente e que desconhecem em absoluto a técnica do improviso a partir de uma série de ideias previamente estudadas para o efeito. Falo de especialistas em assuntos complexos que todos gostaríamos de ver traduzidos por palavras simples e falo de técnicos com experiências essenciais que merecem ser partilhadas mas, muitas vezes, acabam por permanecer cifradas no jargão próprio da sua classe profissional.
Há mais de 15 anos que participo semanalmente em conferências e debates públicos de norte a sul do país (ilhas incluídas), em fundações, associações, escolas, organizações, prisões e instituições incrivelmente variadas. Faço-o porque me pedem mas, acima de tudo, porque acredito que apesar dos excessos da “conferencite aguda” (que tantas vezes sofro na pele, confesso) é possível dar um contributo cívico em grande parte destes encontros. Infelizmente tenho que reconhecer que acontece demasiadas vezes haver alguém na mesa que falha completamente a mensagem que era suposto passar. Seja porque lê integralmente a sua comunicação, porque não tem o dom da palavra, porque fala torrencialmente acreditando que a audiência tem capacidade para assimilar todas as suas ideias ou seja porque não presta atenção às pessoas que tem na sua frente e despeja literalmente o que foi ali dizer, seja por estas ou outras razões o efeito é sempre fatal. Ou a plateia adormece depois de longos e sonoros bocejos, ou as pessoas revelam o seu desconforto alheando-se física e mentalmente da sala ou, se permanecem sentados, vão ficando cada vez mais tensos e impacientes.
Os piores comunicadores são os maçudos, que lêm em alto as suas folhas, ora em tom monocórdico ora em tom de suposto diálogo com a plateia (diálogo que é sempre com eles próprios, note-se). Os segundos piores são os que falam demais, perdem-se nos raciocínios e divagações, não ouvem ninguém nem deixam espaço aos outros e os terceiros piores neste ranking são os que usam powerpoint.
O powerpoint devia ser pura e simplesmente abolido das conferências porque perturba muito mais do que ajuda. No dia em que os conferencistas compreenderem que este instrumento silencioso cria um ruído insuportável na sala, percebem que o powerpoint pode e deve ser usado com contenção e, sobretudo, virado para eles próprios como se fosse um ponto. Acontece que a tendência geral é encher o powerpoint de palavras, imagens e informação de tal maneira densa que se torna impossível ler e reter o que lá está escrito. O pior é que estes mesmos conferencistas acreditam que basta debitar o que está no powerpoint e acrescentar-lhe uma graçola ou outra, um exemplo prático aqui e outro ali, e já está. Não está nada. Muito pelo contrário está tudo estragado e a sua comunicação foi um enorme desperdício de tempo e talento. Estes (não)comunicadores enchem a plateia de nervos e frustração e conseguem ser a negação da comunicação.
E é porque todos já assistimos a conferências chatas proferidas por excelentíssimos chatos que pergunto à ministra da Educação, tão preocupada com o zelo e a eficácia pedagógica, porque é que não copiamos os sistemas inglês, francês e alemão e integramos também no nosso sistema educativo aulas obrigatórias de improviso, de debate e de troca de ideias?
  
 
 
 
 
 
 
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publicado por Laurinda Alves às 18:37
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