Estreou ontem o novo filme de Luís Filipe Rocha, recentemente premiado no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, onde os actores Filipe Duarte e Tomás de Almeida receberam, ex aequo, o Prémio de Melhor Actor. Vi este filme numa sessão privada antes de estrear, e senti que foi um prémio mais que merecido para os dois actores e também para o realizador.
Comove profundamente a maneira como Filipe e Tomás interpretam os papéis de tio e sobrinho que se descobrem e se amparam mutuamente num caminho tantas vezes tão difícil. Tomás tem Síndrome de Down e Filipe é um travesti homossexual e são as circunstâncias adversas de cada um que acabam por levá-los a criar laços profundos e inesperados que salvam um e outro de desesperos maiores.
O filme conta várias histórias de amor que se cruzam e descruzam no tempo, que encerram dor e solidão mas também muita força e humanidade. Alegre e triste, é um testemunho muito poético de bondade, no sentido mais puro do termo. No sentido da tolerância, da abertura à diferença, da capacidade de amar sem julgar e de acolher aquilo que nem sempre entendemos ou reconhecemos.
A estranheza inicial dos dois personagens dilui-se rapidamente na extraordinária beleza com que são filmados. E não falo apenas das técnicas cinematográficas que regulam a luz, que ditam as horas para obter as melhores filmagens ou que revelam os planos e contra planos adequados à emoção de cada momento. Falo acima de tudo da mestria com que o realizador revela a alma e o coração dos que faz viver neste filme.
Filipe Duarte interpreta uma personagem ‘à margem’, como alguém disse. Faz de Ricardo que por sua vez também é Vanessa Blue, travesti que vive o drama de um amor para sempre perdido. Tomás de Almeida, no filme, é o sobrinho com Síndrome de Down que Ricardo não viu nascer nem acompanhou na adolescência mas que acaba por resgatar o próprio tio para a vida, para a alegria e, também, para outras formas de amor por ele nunca antes vividas.
Luís Filipe Rocha escreveu uma breve declaração de intenções sobre o filme que realizou e é porque exprime de forma tão eloquente a verdade e a profundidade desta sua obra que a deixo aqui: “A homossexualidade e a Síndrome de Down são, ainda hoje, estigmas que exilam seres humanos para A Outra Margem da vida. A moral tradicional na mentalidade dominante é, ainda hoje, causa incontornável de exclusão e afastamento. Iluminar e exibir a humana normalidade dos ‘anormais’ é confrontar os ‘normais’ com a sua própria e íntima ‘anormalidade’. É propor uma ponte de compreensão entre duas margens.”