As palavras infelizes proferidas pelo nosso ministro dos negócios estrangeiros invocando “razões conhecidas” para não receber oficialmente o Dalai Lama fizeram um triste eco a longo da visita do Nobel da Paz. Depois o líder tibetano foi recebido por Angela Merkel e a tibieza do nosso ministro e dos políticos que o acompanharam na decisão ficaram ainda mais evidentes. Durante os confrontos com os monges na Birmânia toda a cobardia de todos os políticos do mundo que permanecem emboscados nas suas trincheiras (supostamente) diplomáticas ou vêm a público justificar o injustificável ficou exposta aos olhos de todos e agora que o líder tibetano recebeu a Medalha de Ouro do Congresso norte-americano, das mãos de Bush, a vergonha é ainda maior.
Falo da vergonha que é não receber condignamente um pacifista como o Dalai Lama mas também de não assumir abertamente as razões que impedem de acolher “um homem de fé, sinceridade e paz”, afirmando publicamente que não houve quaisquer pressões da China. Como se fosse possível acreditar.
Eu, que não nutro simpatia nenhuma pelo presidente Bush, dei comigo a admirar um homem que nem sequer acho admirável só porque teve firmeza para dar o passo certo e fazer o que tinha que ser feito. Os Estados Unidos são poderosos e podem dar-se ao luxo de ignorar as pressões da China, dirão alguns. Sabemos que não é bem assim porque sabemos que há sempre mais gelo nas profundezas do que a ponta de um iceberg permite adivinhar.
Vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar o que se passa à nossa volta. Numa altura em que as imagens dos acontecimentos na Birmânia nos chocam e interpelam em cada dia, em que o número de mortos grita por terem sido quase todos abatidos em marchas silenciosas e em que a incerteza dos que permanecem presos fere a nossa consciência, é impossível não estar ao lado dos pacifistas e não reconhecer o mérito de um homem como o Dalai Lama.