Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007
Contra o estigma
Escrevo no comboio, a voltar do Porto onde fui a um jantar que reuniu centenas de pessoas para celebrar simultaneamente o Dia da saúde Mental e o 1º aniversário da Associação ENCONTRAR+SE. Apesar de ter apenas um ano de existência, esta associação de apoio às pessoas com perturbação mental grave é extraordinariamente dinâmica e tem-se revelado um motor de transformação de mentalidades e atitudes.
Miguel Veiga, num discurso profundo e sentido que fez um eco muito poético no maravilhoso espaço das antigas caves da Real Companhia Velha, falou do valor da liberdade que nos levou todos ali. “Somos tanto mais livres quanto mais liberdade encontramos nos outros. Por isso, promover a liberdade do outro é o nosso mais profundo acto de liberdade”. Concordo inteiramente com Miguel Veiga e, tal como ele, sinto que é um dever de todos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que “aqueles que têm uma liberdade diminuída, perturbada, obscurecida ou apoucada porque têm doença, têm medo, têm fome ou têm ignorância” possam libertar-se destas e outras condicionantes.
A ideia de reunir tantas pessoas para falar destas questões partiu de Filipa Palha, psiquiatra fundadora da ENCONTRAR+SE, e de toda a equipa que ela conseguiu mobilizar com o objectivo de promover a saúde mental no nosso país e lançar uma campanha anti-estigma. Vimos as imagens da campanha e ouvimos alguns testemunhos eloquentes do que é viver com perturbações de saúde mental e sofrer o olhar dos outros. O estigma social permanece e é dramático para os doentes e para as suas famílias.
Todos temos uma péssima relação com a doença mental e todos rejeitamos os que têm sinais exteriores de perturbações mentais. Importa reconhecer que temos demasiados preconceitos, demasiada vergonha e demasiado medo de uma realidade que, afinal de contas, nos é mais próxima do que julgamos e toca uma em cada quatro pessoas no universo da União Europeia.
Embora muitos de nós ainda associem a doença mental à loucura, aos hospícios e a um tipo de ‘coisas que só acontecem aos outros’, a realidade prova exactamente o contrário: a depressão e a ansiedade crónica, duas formas de perturbação mental muito comuns e graves, também afectam pessoas como nós.
Nesta lógica vale a pena repensar toda esta questão e vencer os preconceitos que persistem.
 
Imagine que…
 
James L.Stone, comissário do Departamento para a Saúde Mental do Estado de Nova Iorque, fala da perda de capacidades cognitivas associadas a doenças psiquiátricas de uma forma muito simples e acessível e não resisto a citá-lo aqui.
“Imagine, por um momento, o que seria acordar um dia sem ser capaz de se concentrar, de se lembrar de informação recentemente adquirida e de pensar de forma clara; o que seria ir trabalhar com vontade de produzir mas não ser capaz de se concentrar e, pouco depois, ter o seu patrão descontente por não apresentar trabalho ou por não cumprir prazos.
Ou começar a achar que as pessoas falam depressa demais e ficar na dúvida sobre o que elas dizem ou querem; ver a sua auto-estima a debilitar-se e as relações com os familiares e amigos a deteriorarem-se; começar a duvidar das suas capacidades e da percepção do mundo à sua volta; ter medo das pessoas que o rodeiam e passar a evitar acontecimentos sociais. Com o passar do tempo, começar a perder a esperança de poder readquirir as suas capacidades e de ter um futuro melhor”.
Se conseguirmos imaginar tudo isto (que só de imaginar se torna insuportável) conseguimos perceber aquilo por que passam as pessoas que têm défices cognitivos associados a doenças psiquiátricas graves. Para quê o exercício? Para cairmos na conta de que existe este sofrimento real mas, também, para tomarmos consciência de que existem tratamentos combinados que permitem a estas pessoas recuperar. Os médicos e os fármacos são importantes mas não chegam. O apoio dos familiares, dos amigos e dos pares é determinante na recuperação destes doentes e a eles se deve também a possibilidade de poderem retomar o controlo da sua própria vida. Ou seja, todos somos importantes para que estes doentes readquiram a esperança e reconstruam a confiança em si mesmos. Por outras palavras, não podemos continuar de cabeça enfiada na areia a fingir que não temos nada a ver com a saúde mental dos outros. Pelo que dizem os especialistas, temos e muito!   
 
 
publicado por Laurinda Alves às 18:09
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