Aqueles que me conhecem e me acompanham com maior ou menor regularidade sabem que me detenho mais nas boas notícias e no enunciado das boas práticas do que nas más notícias. Faço-o por convicção mas também por estratégia. A lógica “good news are no news” mantém-se em vigor em grande parte dos meios de comunicação social e à excepção das descobertas científicas e das inovações no campo da medicina, as verdadeiras boas notícias são raras, ocupam muito pouco espaço nos jornais e quase nenhum tempo nos telejornais. Acredito profundamente que as boas notícias também são notícia e, neste sentido, gosto de contribuir para calibrar a realidade e de me deter naquilo que, em minha opinião, merece ser sublinhado ou acrescentado aos despojos do dia, por assim dizer.
Mia Couto escreveu-me um dia, de Moçambique, um texto que ficou gravado para sempre: “Há muito que deixei de ser prisioneiro desse regime: a tirania da actualidade. Num quotidiano que nos surpreende pela negativa, numa sociedade que teima em negar confirmação à expectativa e à esperança, o jornalismo propõe-se substituir à realidade e construir-se não apenas como um espelho mas como uma outra realidade. Uma realidade que se instaura pelo seu próprio excesso, pela saturação de imagens que parecem desprovidas de autoria. Mas que, cada vez mais, nos deixam um sentimento de carência. Esse é o paradoxo desses jornais que me fazem ajoelhar à porta dos domingos: quanto mais nos dão, mais vazios ficamos. E pouco nos ajudam a encontrar resposta para uma tão simples pergunta: que vamos fazer de nossas vidas para que elas sejam mais vivas e mais nossas?”
A interrogação de Mia permanece em mim e continua a fazer eco semana após semana, ano após ano. Lembrei-me dele hoje porque ao contrário do que é habitual, deixo aqui um enunciado de más notícias e péssimas práticas que espero que tenham os dias contados para que seja possível restaurar a esperança e a confiança de que fala o escritor. E para que as nossas vidas sejam mais vivas e mais nossas, também.