Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007
Ensinamentos do Dalai Lama
 
Durante três dias seguidos acordei mais cedo do que o costume para chegar antes do Dalai Lama ao auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa onde ele deu ensinamentos a uma imensa plateia de pessoas pontuais, atentas, centradas e conscientes do enorme privilégio que é ouvir o Nobel da Paz falar de maneiras para alcançar mais paz em nós e no mundo à nossa volta.
Ao longo destes dias não ouvi um único telemóvel tocar dentro do auditório, coisa inédita num país onde os telemóveis tocam a toda a hora no cinema, na ópera, na missa, nos enterros e em lugares e circunstâncias onde, à partida, seria inconcebível ouvi-los tocar. Registei esta ausência de toques mas registei, acima de tudo, o silêncio puro de todos os que estavam presentes e queriam ouvir as palavras avisadas de um mestre espiritual que transmite os ensinamentos de Buda mas também recebeu o Nobel da Paz por lutar corajosamente e trabalhar incessantemente pela paz no mundo.
Sobre a filosofia budista, Tenzin Gyatso começou por falar com naturalidade na primeira pessoa:
- A mim, o budismo dá mais sentido à vida mas aquilo que venho transmitir é apenas a minha experiência. Partilho-a aqui com todos mas, depois, é com vocês! Cabe a cada um escolher aquilo que lhe fizer mais sentido.
A genuína abertura espiritual do Dalai Lama é, porventura, o seu maior traço de humanidade. Não impõe ideias, não fecha o discurso, não exclui ninguém, não é dogmático nem fala de cátedra. Muito pelo contrário, mantém uma alegria maravilhosa, um humor permanente e uma simplicidade inspiradora que nos fazem sentir muito próximos, mesmo quando estamos distantes da geografia tibetana e das verdades fundamentais de Buda.
Tive a sorte de ler um livro que um amigo me ofereceu uma semana antes do Dalai Lama chegar, para perceber o essencial do budismo. What Makes You (Not) a Buddhist, de Dzongsar Jamyang Khyentse, o nome impronunciável do monge tibetano eloquente e provocador que o escreveu, é um livro que aconselho vivamente a quem se interessa pelo que está para lá dos estereótipos, das ideias pré-concebidas e dos chavões colados à filosofia budista. Este livro de capa dura e cuidada, de um azul muito elegante, editado pela Shambhala Publications, Boston & London, foi uma espécie de porta de entrada para os ensinamentos do Dalai Lama. Confesso que sem esta abertura prévia me teria sido muito mais difícil acompanhar alguns raciocínios caleidoscópicos do líder tibetano e as suas elaborações mais áridas sobre a vacuidade, a ausência do ‘eu’ e outras matérias que requerem uma consciência mais profunda e um estudo mais aturado da filosofia budista.
Através deste livro tomei conhecimento do valor da impermanência para os budistas e, afinal, para todos nós.
- Uma mente filosófica é uma mente que sabe que toda a realidade é impermanente e transitória. A flor de ontem não é a mesma de hoje, as águas do rio que vimos ontem não são as mesmas que vemos hoje e por aí adiante. As pessoas comuns vêm e julgam em função das aparências, não põem as coisas em perspectiva, mas é importante perceber que as formas comuns de pensar condicionam a nossa percepção da realidade.
Complicado? Nem por isso. O Dalai Lama explicou demoradamente a questão da impermanência e sublinhou a importância vital do desapego às coisas e a certas emoções.
Entre nós há ditados populares que traduzem de forma muito simples este conceito aparentemente sofisticado de impermanência. Sempre que alguém diz que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe” está a falar da impermanência de todas as coisas. Esta teoria aplica-se à realidade exterior e interior. Aos estados de alma e às emoções. Daí a importância do desapego às emoções negativas.
- A ira, os desejos conflituosos e todas as formas de hostilidade são os nossos maiores inimigos internos. São as nossas armadilhas interiores que precisamos de desactivar. Os inimigos internos perturbam-nos mais do que os externos porque estão sempre em nós. Os outros, os que nos atacam de fora, podem perturbar-nos algum tempo mas não o tempo todo. Importa, por isso, combater os nossos inimigos internos. Os nossos apegos exagerados às emoções negativas.
O compromisso que o Dalai Lama propõe é justamente o de não desperdiçarmos a nossa ‘maravilhosa e poderosa condição humana’ em pensamentos circulares, numa espiral que nos leva de mal em pior. A aposta é meditar para libertar a mente mas também cultivar uma atitude de tolerância, generosidade, compaixão e atenção a tudo o que fazemos e pensamos. Gerar o que Buda chama ‘espírito de iluminação’ é possível através da meditação, do treino da mente e do combate persistente dos sentimentos negativos e daninhos.
- É preciso vigiar a mente, perceber o que está a fazer e a pensar e não a deixar andar ao acaso. Dirigir a mente, cultivar a paciência, gerar amor e nunca retribuir as más acções é uma atitude exigente mas é a única que nos permite pôr fim ao sofrimento e obter paz interior.
Acredito. Pelo que vi e ouvi ali, mas também por vida vivida e experiência própria.
      
 
 
 
publicado por Laurinda Alves às 18:01
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