Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007
Veneza em Setembro
 
Voltar a Veneza menos de um ano depois de lá ter estado da última vez foi uma surpresa feliz. Celebrar naquela cidade deslumbrante um aniversário íntimo e marcante foi o melhor presente que podia ter recebido e oferecido nesta altura da minha vida. Acabo de aterrar mas ainda sinto o balanço do vaporeto nas águas agitadas dos canais, ainda fecho os olhos na ilusão de que se os abrir vejo a luz dourada de Setembro derramada sobre as cúpulas das catedrais da praça maior e ainda ouço os sinos tocar no alto do céu.
Em Veneza a luz de Setembro é infinitamente doce e poética. O sol ainda aquece mas já não escalda nas costas nem pesa nos ombros de quem caminha de manhã até à noite pelas ruas, pelas pontes e pelas praças. Há mais sombras, há menos calor e sopra um vento morno nas esquinas. Um vento que leva as vozes pelo ar, que levanta os cabelos e os faz ondular, um sopro que nos inspira em cada lugar.
A cidade tem menos pessoas agora e é possível demorar, parar e ficar simplesmente a olhar. A certas horas do dia não há filas para entrar nos palácios e monumentos. Pela primeira vez em tantos anos subi ao campanário da Praça de São Marcos sem ter que esperar a minha vez. Subimos ao entardecer, a hora em que tudo é mais que perfeito, a hora sagrada em que até os deuses descansam e contemplam, a hora em que tudo me comove e faz rezar. Agradeço ali, no silêncio da tarde, tudo e tanto que ficou para trás e agora, na vertigem romântica da torre mais alta, me parece já uma vida remota.
Veneza vista daquela torre parece coisa de outro mundo. Tão extraordinária, tão fascinante e tão irreal que se torna impossível de traduzir por palavras. Apenas por emoções, sentimentos e pensamentos que derivam e se cruzam incessantemente como os barcos lá em baixo, nas águas agitadas da lagoa.
Descemos e escolhemos uma mesa no Florian, o lendário café onde se sentaram grandes poetas, artistas, escritores e músicos ao longo dos séculos. Ainda há mesas ao sol e preferimos uma dessas mesas apesar de ficarmos um pouco mais distantes da orquestra que toca sempre a esta hora. E é no embalo dos violinos e do piano que nos deixamos ficar até a noite cair e um vento mais fresco começar a soprar.
 
Ennio Morricone em Veneza
 
Durante o dia Veneza é um poema de luz sobre o azul líquido dos canais e de noite transforma-se num imenso devaneio cinematográfico, onde tudo parece ter sido desenhado e encenado com intenção. Os pombos desaparecem silenciosamente das praças, as mil luzes que iluminam a pedra antiga sabiamente esculpida surgem muito baixas e amarelas, como nos cenários dos filmes, as pessoas movem-se mais devagar e os artistas boémios sabem sempre o que hão-de improvisar e quando devem parar.
Na praça de S.Marcos, que Napoleão declarou ser o mais nobre salão de visitas da Europa, tudo acontece todos os dias e em quase todas as noites. Desta vez chegámos à cidade quando se preparava um sumptuoso concerto de Ennio Morricone ao ar livre, com a orquestra Roma Sinfonieta e o coro do Teatro La fenice. Em dois dias tudo ficou pronto para o grande acontecimento. Nas vésperas alguns músicos e todo o coro vinham a meio da tarde ensaiar e era um prazer assistir ao acerto de vozes e sons. Um privilégio sem tamanho até porque Ennio Morricone, maestro e compositor, é uma verdadeira lenda viva. Compôs as bandas sonoras de mais de 450 filmes, entre os quais Kill Bill, Once Upon a Time in the West e O Bom, o Mau e o Vilão e tem, também por isso, um a legião de fãs pelo mundo inteiro. Nas duas noites dos concertos a praça encheu, transbordou, e desabou em palmas sempre que o maestro subiu ou desceu do palco. Na última noite foi obrigado a voltar quatro vezes e ninguém o deixaria ir embora se fosse possível eternizar este concerto inesquecível. O derradeiro momento em que as luzes se acenderam e depois apagaram para deixar brilhar apenas as estrelas no céu e, abaixo delas, a estrela de Ennio Morricone ficou para sempre gravado na memória dos que estiveram presentes. Na manhã seguinte já não havia cadeiras nem passadeiras encarnadas na praça mas ainda se ouvia no ar o eco das palmas, das vozes maravilhosamente afinadas e de uma ou outra nota mais vibrante.
 
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publicado por Laurinda Alves às 17:55
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