Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007
Filme Logo Existo
 
 
Graça Castanheira, realizadora de cinema e de documentários sucessivamente premiados, viveu o AVC da mãe e o tempo de vida imediatamente a seguir com dor mas, também, com surpresa. De um dia para o outro a mãe deixou de ser como era e mudou radicalmente de personalidade. Toda a vida fora uma mulher distante, uma mãe presente-ausente, e depois do AVC tornou-se uma pessoa afectiva, terna e infinitamente mais próxima. A mãe morreu há poucos anos e a sua vida nos últimos tempos interpelou profundamente Graça Castanheira, a filha mais nova e a última de cinco.
Graça sentiu necessidade de fazer um documentário sobre a alma, o coração e a razão das pessoas que sofrem AVCs e dedicou o melhor do seu tempo recente a este trabalho.
 “Este filme é uma herança” diz Graça Castanheira em voz off, logo no início, quando conta de forma breve, e na primeira pessoa, porque decidiu fazer o filme.
Logo Existo foi duas vezes premiado e considerado o melhor documentário pelo júri dos Caminhos do Cinema Português e é, de facto, um testemunho extraordinário e um filme muito bom em qualquer parte do mundo. Vale a pena insistir com a Fado Filmes para comercializar um dvd de forma a não perder este trabalho magistral sobre os labirintos do cérebro e das emoções.
O documentário voltou a ser exibido esta semana na RTP2, o mesmo canal onde passou logo em Março do ano passado, altura em que ficou concluído. Vi-o com emoção e assombro pela beleza rara das imagens, pela qualidade humana dos protagonistas, pela ética e pela estética de todos os que estiveram envolvidos nesta produção. É impossível ficar indiferente e é impossível não guardar para sempre alguns gestos demorados (apertar o atacador dos sapatos, reaprender a descascar uma maçã) todos os sorrisos de vitória e quase todas as  palavras ditas e gravadas com tanto cuidado e intenção.
Impressionaram-me especialmente os testemunhos de coragem do actor e encenador Miguel Seabra e de Almerinda Ascenção, empregada de escritório, que sofreram AVCs e não desistiram de lutar. Todos os especialistas que falaram disseram coisas fascinantes sobre os limites e as conquistas das neurociências, as ajudas no campo da Psicologia e fisioterapia. Paulo Varela Gomes, historiador de arte, falou de forma incrivelmente poética sobre o valor da estranheza na arte e todo o documentário é um verdadeiro poema. Mais: um hino à vida, uma celebração do amor e um manifesto de coragem.
 
 
O exemplo de Miguel Seabra
 
Não resisto a deixar aqui partes adaptadas de diálogos do actor Miguel Seabra ao longo do documentário Logo Existo.
- Fui parar ao Alcoitão e fiquei lá 4 meses certos. Fui obrigado a reagir porque tudo o que nos encosta à parede faz-nos reagir e tomei ali a decisão de não desistir. Decidi que tinha que seguir em frente e sempre para cima! Ajudou-me sentir que tinha a confiança dos que estavam à minha volta para poder falhar e recomeçar. Lembrava-me sempre da frase de Samuel Beckett: “falhar, falhar mais vezes, falhar melhor!”
Miguel Seabra teve consciência de que não podia voltar a ser quem era mas, ao mesmo tempo, queria voltar a ser como era. Este pensamento tornou-se obsessivo e revelou-se, muitas vezes, uma armadilha.
- Se já não sou quem era, como posso voltar a ser como era? Este estado de consciência remetia-me constantemente para a questão de saber quem somos, quem sou eu?”
Os especialistas sabem que o que nos devolve à vida e ajuda a recuperar a identidade são as referências que temos mas os que sofrem AVCs deixam de saber como descobrir as suas verdadeiras referências. Reaprendem penosamente tudo ou quase tudo. Mudam de referências, às vezes. A capacidade de adaptação e transformação do ser humano é fascinante e o cérebro é maravilhosamente plástico. Adapta-se, recria-se, reage, reinventa-se. Seja a neurociência, seja a Psicologia nas suas correntes mais ou menos Gestaltianas, seja o senso-comum ou a intuição, tudo nos fala do todo e das partes, das ligações entre neurónios, das conexões feitas nos dois hemisférios cérebro e traduzidas em emoções mais ou menos decifráveis. “Somos o todo e as partes mas sendo o mesmo todo, há partes que já não são as mesmas” declarou a especialista em psicologia, citando Gestalt.
Miguel Seabra teve um AVC há 12 anos. Lutou, nunca se deixou vencer e recuperou espantosamente os talentos e a alegria de viver. Voltou a representar porque sabia que tinha que o fazer para voltar a ser quem era.
Na altura do acidente vivia com a actriz Natália Luíza, a quem perguntava incessantemente se estava melhor. Ela dizia-lhe sempre a verdade.
- Muitas vezes ela dizia que não e agradeço à Natália de alma e coração a sua honestidade. Quando voltei a casa demorava 20 minutos a descer 80 degraus. Se me vinham buscar para almoçar e combinavam às 13h30, eu tinha que sair de casa às 13h10. Saí daquela casa a descer as escadas em 1m15!
Miguel disse coisas espantosas, falou da sua intimidade e do amor físico pela sua mulher com uma naturalidade comovente. Riu e sorriu muito e em cada instante, em cada sorriso e em todas as suas gargalhadas eu descobri a ternura fundamental de que fala o Rinpoche.      
publicado por Laurinda Alves às 17:50
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