Jigme Khyentse Rinpoche, um dos mestres budistas que acompanham o Dalai Lama, Nobel da Paz, nas suas viagens pelo mundo, chegou a Portugal há alguns dias. Entre encontros públicos e privados, este Rinpoche tem-se desdobrado numa série de actividades inspiradoras que anunciam e preparam a vinda de Sua Santidade o Dalai Lama a Lisboa já na próxima semana, entre os dias 13 e 16.
Ouvi-o pela primeira vez na Quinta da Regaleira, em Sintra, no domingo passado. Uma conferência ao entardecer, uma hora de sonho num lugar mágico.
Para chegar à sala da conferência, onde o mestre esperava num silêncio sorridente que todos se descalçassem à entrada e ocupassem as cadeiras ou as almofadas espalhadas pelo chão, era preciso percorrer os caminhos labirínticos da Regaleira. Ir ao longo das alamedas de buxos, contornar muros de pedra cobertos de heras e musgo, descobrir entre as árvores de folhas mais ou menos amareladas a direcção certa, atravessar sem hesitações uma espécie de floresta virgem de hortenses muito altas, subir umas escadas em caracol que parecem levar-nos ao infinito acreditando que nos deixam ainda neste mundo, percorrer um terreiro amplo com árvores de troncos grandes e copas frondosas trespassadas pelo sol da tarde e chegar finalmente a uma porta de madeira muito antiga que se abre para uma sala de pedra caiada e fresca, com janelas altas por onde continuavam a entrar a luz e as sombras do entardecer.
Neste lugar encantado, a esta hora sagrada, o Rinpoche falou pausadamente, para dar tempo ao tradutor mas, também, para ajudar a interiorizar os seus ensinamentos.
Com um sorriso vivo e até divertido, percorria com o olhar toda a sala enquanto dissertava sobre a ternura fundamental.
“Todos temos uma necessidade vital de ternura. Sem esta ternura primordial não sobreviveríamos. A ternura é o princípio de tudo mas muitos não sabem como lidar com a ternura fundamental.”
Rinpoche falou da “ternura dos ferozes” sublinhando que está para lá do entendimento e elaborou ponderadamente sobre o amor e o ódio. Provocou sorrisos e algumas gargalhadas e colheu muitos olhares cúmplices na plateia que o ouvia num silêncio puro.
“Ninguém consegue ser sempre odioso. Mesmo os mais odiosos só conseguem sê-lo durante algum tempo mas não o tempo todo. O coração, os rins e o fígado não aguentariam!”
O mestre usou sempre palavras e metáforas simples para dizer coisas sábias e muito próximas da nossa realidade quotidiana. Interpelou os presentes quando distinguiu as emoções e as sensibilidades que habitualmente escondemos debaixo de uma espécie de manto que nos cobre e com o qual nos sentimos mais protegidos. Falou dos medos, das inseguranças, do orgulho, da arrogância e do ressentimento. Da timidez e da zanga também.
“ Temos, muitas vezes, uma compreensão errada de tudo isto. Precisamos de ter uma mente e um coração mais despertos e inteligentes. Isso é possível se treinarmos o desapego a certas emoções, se meditarmos, se contemplarmos e fizermos silêncio, abrindo o espírito a outras formas de compreensão”.
No dia a seguir estive com este mesmo Rinpoche e os lamas tibetanos que o acompanham num jantar privado, em casa de um amigo, e tivemos tempo para uma longa conversa sobre o sentido da vida. Foi um momento exaltante vivido, ainda por cima, numa casa que me traz memórias de outros tempos e outras conversas, com outros amigos que viveram nesta mesma casa maravilhosa de janelas rasgadas sobre o rio e um jardim de cheiros, flores e ervas perfumadas.