Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007
Francisco de Castro 2007
Francisco de Castro
 
Arquitecto, 84 anos, cabelos brancos puxados para trás com um ligeiro toque adolescente, sorriso terno, espírito vivo, olhar atento, discurso inteligente e uma atitude que prende por revelar um homem misteriosamente novo, quase um rapaz.
Francisco de Castro foi o arquitecto da fase final do Grande Hotel da Cidade da Beira, em Moçambique, e foi também um dos arquitectos da lendária estação de caminhos-de-ferro desta mesma cidade. Marcou gerações sucessivas e ficou, ele próprio, muito marcado pela vida vivida nesta latitude, num tempo em que ainda havia colónias.
Durante mais de trinta anos Francisco de Castro não voltou a Moçambique nem percorreu as ruas da Beira, cidade que ajudou a construir e onde viveu anos felizes. Agora que a jornalista Anabela Saint-Maurice, da RTP, o desafiou a voltar a um dos seus lugares da memória e do coração e o acompanhou numa viagem de certa forma histórica por sublinhar o reconhecimento de uma realidade completamente desfigurada, foi extraordinário ver a maneira como o arquitecto falou mas, também, como guardou silêncio.
Eloquente e alegre, Francisco de Castro andou a pé pelas ruas, visitou as casas e deteve-se longamente nos corredores degradados do Grande Hotel que hoje é uma espécie de pardieiro onde moram centenas de famílias com vidas mais ou menos obscuras. Nem por um segundo revelou amargura ou denunciou alguma nostalgia bacoca. Mostrou pena, sim, mas sem aquela revolta zangada dos que se dão por vencidos mas nunca convencidos.
Não sei se me impressionou mais o que ele disse ou que calou. Sei que o seu silêncio e o compasso lento dos seus passos à volta do Grande Hotel gritaram mais do que muitas palavras.
Na estação, que se mantém bem conservada, abriu um sorriso enorme e confessou que lhe dava uma enorme alegria ver tanto cuidado.
Gostei da reportagem da Anabela Saint-Maurice, das imagens de Rui Capitão e, de forma especial, do testemunho de um arquitecto cheio de memórias, talento e humor, que falou dos lugares e das pessoas sempre com um sorriso, sempre com leveza e sempre com uma dignidade e um aprumo invulgares.
No fim alguém lhe perguntou fatalmente o que tinha achado. Achou melhor responder a uma dúvida mais antiga, que trazia dentro de si:
- Nunca me enganei nas ruas!
 
 
publicado por Laurinda Alves às 17:41
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